A infeliz história de amor de um casal paraibano e a origem de uma fruta deliciosa

Por: Flavio Brito

O relato está registrado em obras de dois respeitados escritores. Pereira da Costa o incluiu em um dos volumes dos seus Anais Pernambucanos e Luís da Câmara Cascudo no livro Lendas Brasileiras. Como sempre ocorre no caso de narrativas lendárias, a origem da história é incerta e desconhecida. Ambientada na primeira metade do século 17, no período das invasões holandesas nas antigas Capitanias de Pernambuco e da Paraíba, a desventura amorosa do casal paraibano passou a ser contada, com algumas variações, em vários pontos do país, a ponto de, dois séculos depois do que teria acontecido, o episódio vir a servir de tema para um espetáculo teatral que foi encenado, em 1854, no Rio de Janeiro.

Segundo Luiz Vicente de Simoni, o autor da peça, médico e literato italiano radicado no Brasil, ele se baseara em um manuscrito que chegara às suas mãos através de um empresário teatral. O drama lírico em quatro atos com o título de Marília de Itamaracá foi musicado pelo pianista e compositor alemão Adolpho Maersch, também radicado no Rio de Janeiro, e pode ser considerado a primeira ópera composta no país utilizando-se temática puramente brasileira, antecedendo em seis anos àquela que tem libreto do escritor José de Alencar e que é sempre indicada como a produção operística nacional pioneira.

Câmara Cascudo e o historiador pernambucano Pereira da Costa não se basearam na peça de Luiz Vicente de Simoni em seus escritos sobre o episódio da infelicidade amorosa do casal paraibano. Foram buscar a informação em um poema de José Soares de Azevedo incluído no livro Poesias Selectas e publicado, em 1879, no Recife, quando o autor já era falecido. Português, bacharel em Letras pela Universidade de Paris, Soares de Azevedo emigrou para o Brasil, passando por vários locais antes de fixar residência no Recife, onde se tornou personagem destacada no ambiente cultural da cidade, como professor e escritor, tendo sido um dos cinco fundadores da sociedade que viria a se transformar no Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano, do qual se tornou secretário e depois presidente.

Mas, sem mais arrodeios, vamos passar logo à história do amor infeliz do casal paraibano, iniciando pela narrativa de Câmara Cascudo:

“No ano de 1631, vivia na Capitania da Paraíba, Antônio Homem de Saldanha e Albuquerque, natural dessa mesma Capitania, que, encantado com a beleza e dotes de D. Sancha Coutinho, donzela de quinze anos, filha do abastado agricultor João Paulo Vaz Coutinho, senhor do Engenho ‘Andirobeira’, situado a uma légua de distância da costa, aspirava a honra de a receber como esposa.
Dirigindo-se a seus pais, e solicitando a sua mão em casamento, eles a isso tenazmente se opuseram. Saldanha e Albuquerque, assim desenganado e desesperado pela recusa, que apagava todos os seus sonhos de felicidade e de amor, sem mais esperanças e ambições, alista-se no exército, e marcha para o campo da guerra, quando as forças holandesas invadiram as plagas de sua província natal.”

No início de dezembro de 1631, os holandeses chegavam à Paraíba na primeira tentativa de conquistar o território paraibano. Antônio de Saldanha e Albuquerque se incorporou às forças de defesa locais que se concentraram no Forte de Cabedelo. O seu objetivo era tentar conquistar glórias nas batalhas contra os batavos que permitissem sensibilizar os pais de Sancha para que eles consentissem no casamento com a sua amada. No poema de 47 versos de Soares de Azevedo, Sancha tem como interlocutora Mafalda, possivelmente uma amiga ou uma criada.

“Elle, Mafalda, quem sabe? / Disse-me que ia buscar / Ou p’ra mim a gloria herdada / Ou por mim a morte no mar […]
Que som é esse medonho / Que ao longe se ouve soar? / ‘É fogo no Cabedello / São as náos a pelejar […]
Nas costas da Parahyba / Já brilham armas d’Hollanda / Já no Cabo Branco singram / As quilhas da outra banda
Mas em menos de d’hora e meia / As fitas azues descóram / E as galés c’os bojos rotos / Altos mastros desarvoram
No Forte do Cabedello / Era Antonio de Saldanha / Ao lado de João de Mattos, / O leão d’esta façanha”

Soares de Azevedo, na inserção de fatos históricos no seu poema, nem sempre foi correto. O citado João de Matos havia sido, durante certo tempo, o comandante do Forte de Cabedelo, mas, quando da primeira invasão holandesa à Paraíba, não há registros de sua participação na refrega. Além disso, naquele momento, os homens da fortaleza de Cabedelo estavam sob o comando do capitão Simão de Albuquerque de Melo, como está anotado em um relato de Frei Paulo do Rosário, publicado no ano seguinte ao episódio.

Após alguns dias de combate e sem conseguir vencer a resistência do Forte de Cabedelo, os holandeses se retiraram da Paraíba com a perda de mais de 500 homens, conforme indicou em seu diário o soldado da tropa flamenga Ambrósio Richshoffer. Somente mais de dois anos depois, os batavos voltariam a fazer uma segunda investida contra o território paraibano, tentativa que, mais uma vez, fracassou. Para Câmara Cascudo, “Saldanha e Albuquerque foi um dos heróis do célebre ataque do forte do Cabedelo. Passou-se para Pernambuco, e em 1633, na gloriosa defesa do Arraial do Bom Jesus, caiu, como morto, ferido por uma bala”. No poema de Soares de Azevedo, Antônio de Saldanha, antes de ser ferido no Arraial, teria atingido o comandante da tropa holandesa Lourenço Reimback:

“Depois, de novo, no campo / No certame do Arraial, / Com novas palmas adorna / As armas de Portugal
Peito a peito com Reimback / Luta o Saldanha atrevido, / E ao clamor de mil emboras / O prostra no chão ferido […]
E não tinha inda acabado / Quando um pelouro a silvar / N’um dos ombros do guerreiro / Como um raio vem parar […]
E os cabos tão bella morte / Em derredor a invejar / E os soldados a carpir, / E os anafis a tocar
Passaram-se treze anos daquela sangrenta batalha do Arraial, os pais de Sancha já haviam falecido e ela, ainda sem esquecer Antônio de Saldanha, fora morar em Itamaracá em um engenho do seu irmão Nuno Coutinho. Foi por essa época, que chegou a Olinda um sacerdote vindo do estrangeiro e que tinha o “rosto macerado” pela tristeza. Depois de uma breve permanência em Olinda, o religioso resolveu viajar para Itamaracá. Na narrativa de Soares de Azevedo:

“São treze anos passados / E de Jesus ao mosteiro / Chega a Olinda em pobres trages / Um sacerdote estrangeiro
Traz o rosto macerado / Que a dôr o esp’rito lhe rende; / Nos olhos se apágaram / As paixões que o mundo acende
Mensagem que elle recebe / Nunca alguém a saberá; / Eil-o d’ahi a três dias / Que trilha Itamaracá”

 

Ao chegar a Itamaracá, o padre procurou uma pousada em um dos engenhos da região e foi justamente o do irmão de Sancha o primeiro que ele encontrou lá se apresentando com o nome de Ayres Ivo Correia:

 

“-Viva a lei de Deos! Sou padre, / Só de Christo sigo a estreia; / De Roma venho; o meu nome / É Ayres Ivo Correia
– Deos o trouxe, ó padre meu, / Em tão bôa occasião, / Estes hereges (os holandeses) nos perdem, / Seja nosso Capellão
E toda gente de casa / Vem saudar o missionário / E muitos lenhos recebe, / Muito breve e relicario
Vivia ahi Dona Sancha / Há muito tempo encerrada; / Morto o amante, era no campo / Tenra bonina mirrada
Quis ser ella a derradeira / Em vêr o santo varão, / Mas põem-lhe os olhos no rosto, / – Ai meu Deos! E cái no chão
Intenso abalo a matára; / Não pôde o peito com tanto; / E o padre Ivo de joelhos / Banha o cadáver com pranto”

Na narrativa de Câmara Cascudo, D. Sancha “reconhecendo naquele humilde sacerdote o seu desventurado amante, morreu subitamente […] Sobre o sepulcro de D. Sancha Coutinho, plantou o Padre Aires Ivo Corrêa uma mangueira, de cujos frutos provêm as mangas de jasmim, tão celebradas pelo seu aroma e delicado sabor”. Soares de Azevedo encerra, assim, o seu poema das desventuras do paraibano Antônio de Saldanha, que virou o padre Ayres Ivo Correia:

“E no lugar do sepulcro / Uma mangueira plantou / Onde o hálito de Sancha / Até morrer aspirou
Visões que ella lhe offerecia / Não são d’humano juízo; / A sombra que ella lhe dava / Era a sombra do p’raiso
Inda em torno da mangueira / Se vê um lindo jardim; / E as mangas do padre Ayres / São as mangas de jasmim”
Em artigo publicado em 1978, o professor e geógrafo pernambucano Gilberto Osório de Andrade relatou que a infeliz história de amor do casal de paraibanos Antônio de Saldanha, o padre Aires Ivo, e D. Sancha Coutinho ainda perdurava viva em Itamaracá, mais de três séculos depois do acontecido: “Ainda alcancei em Itamaracá na estação experimental da Secretaria da Agricultura […] o resto dum velho tronco morto, que a tradição oral apontava como sendo a mangueira plantada pelo padre Aires Ivo Correia no túmulo de D. Sancha Coutinho”.

As famosas e deliciosas mangas jasmim de Itamaracá continuam a cativar com a sua fragrância e o seu gosto excepcional todas as pessoas que as saboreiam e até mesmo alguns personagens de ficção são por elas atraídos, como foi o caso daquele “preto retinto e filho do medo da noite” criado pelo escritor Mário de Andrade:

“Em Itamaracá Macunaíma passou um pouco folgado e teve tempo de comer uma dúzia de manga-jasmim que nasceu do corpo de dona Sancha, dizem”.

Ao final desta história, deixemos que “Cais”, de Milton Nascimento, prolongue em música aquilo que o amor não pôde concluir em vida.

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