Industrialização, escravidão e dependência na formação econômica dos Estados Unidos

Por:João Vicente Machado Sobrinho
A história econômica do Ocidente costuma apresentar e enaltecer o desenvolvimento dos Estados Unidos da América do Norte-(USAN), como se fosse um paradigma ideal e também como se a riqueza daquele país fosse fruto natural do espirito de empreendedorismo do seu povo, ou da liberdade e do “destino manifesto”. Longe disso, toda essa narrativa fantasiosa, oculta um dado central de origem: a Inglaterra tentou submeter as Treze Colônias iniciais ao mesmíssimo modelo agrário-dependente imposto à América Latina. O diferencial não esteve na má intenção da metrópole de então, mas na capacidade de reação das treze colônias.
Mutatis mutandis, enquanto os USAN tiveram a capacidade de romper o cerco mercantilista, ainda no século XVIII, a América Latina — e o Brasil em particular — permaneceu prisioneira de uma lógica primário-exportadora. Esse modus operandis atravessou séculos de exploração e na época contemporânea, mesmo fora de moda, ainda insiste em se perpetuar.
Este ensaio tem a convicção de sustentar que, a dependência não é herança cultural nem falha interna, mas um projeto deliberado do capitalismo central, cuja eficácia variou conforme a estrutura social, a reação e a política institucional das colônias.
A Inglaterra do século XVIII, já em processo de industrialização, operava sob um princípio simples, que perdura até a época contemporânea:

Como observa Eric Hobsbawm, o imperialismo mercantil não estava preocupado com o desenvolvimento e a qualidade de vida colonial, mas com a segurança de mercados e matérias-primas. Assim, as Treze Colônias iniciais deveriam obedecer ao rito inglês e:
. Produzir bens agrícolas;
. Exportar produtos primários a baixo custo;
. Importar manufaturas inglesas a preços elevados.
As Navigation Acts, (Obrigavam as colônias a negociarem apenas com navios ingleses) o Iron Act (Lei do ferro 1750) e o Wool Act (proibia a instalação de siderúrgicas coloniais) foram instrumentos claros de uma política que, em termos contemporâneos, pode ser chamada de bloqueio estrutural ao desenvolvimento.
Ora, pela lógica da Coroa Inglesa, permitir que as colônias se industrializassem significaria criar concorrentes — algo inaceitável para uma potência em plena Revolução Industrial. Mesmo que o conceito de dependência só tenha surgido no século XX, (da lavra de Prebisch, Celso Furtado e Gunder Frank) a prática da dependência, de há muito era usual com: colônias presas à exportação primária; déficit estrutural na balança comercial; acúmulo de capital concentrado na metrópole; subordinação tecnológica e financeira.

Peregrinos chegam aos USAN a bordo do navio may flower.
Assim a Inglaterra reproduzia nas colônias um padrão agrário subordinado, para garantir mercados cativos, controlar os preços, evitar a autonomia política. A coroa britânica sabia que dependência econômica gera dependência política.
Contudo, por parte da Inglaterra, o erro de avaliação foi capital pelo fato de não perceber que as colônias norte-americanas não eram periféricas como as latino-americanas, pois: os USAN tinham um alto nível de alfabetização; eram detentores de uma sólida cultura protestante (Quaquers) de trabalho e iniciativa; a propriedade agrícola era constituída de minifúndios; (farmers) e já tinham uma sólida burguesia comercial e manufatureira emergente. Assim as restrições britânicas passaram a ser vistas como um freio artificial ao desenvolvimento.
Daí o famoso lema:
“No taxation without representation” (sem taxação não há representação)
Os estadunidenses tiveram a lucidez que ainda hoje falta à América Latina, de perceber que o conflito não tinha raiz fiscal — era estrutural e econômico. A Revolução Americana (1776) foi, a rigor e antes de tudo, uma ruptura com o sistema colonial mercantilista inglês.

Foi uma insurreição contra a tentativa britânica de congelar a economia colonial num estágio agrário, além de um passo decisivo rumo à industrialização autônoma. Não por acaso, após a independência, os EUA adotaram: protecionismo industrial; tarifas elevadas; estímulo estatal à manufatura, infraestrutura, enfim exatamente o contrário de um modelo imposto pela Inglaterra. Em suma: a Inglaterra tentou fabricar dependência; os EUA reagiram antes que ela se consolidasse.
Na América Latina, o mesmo projeto colonial imposto aos USAN encontrou condições sociais ideais para se perpetuar: latifúndio pernicioso e concentrador; escravidão ou trabalho coercitivo; elites agrárias associadas ao capital externo; estados frágeis e patrimonialistas.
Como nos ensina Celso Furtado, a independência política latino-americana não rompeu o padrão econômico colonial. Apenas substituiu a metrópole formal, mantendo: exportação de produtos primários; importação de manufaturas; vulnerabilidade externa crônica. Nisso o Brasil é exemplar: do açúcar ao ouro, do café ao minério, da soja à carne, o país mudou produtos, mas preservou e aprofundou a mesma lógica.
A Inglaterra, o império da época, tentou transformar os Estados Unidos em um país agrário dependente — como fez com o restante do continente americano. A diferença histórica não esteve na astúcia da metrópole, mas na sagacidade e resistência das colônias do Norte e na capitulação estrutural das elites latino-americanas.
A dependência não é destino, nem erro, nem atraso: é apenas uma arquitetura de poder.
Compreender essa distinção é fundamental, para desmontar o mito liberal do “fracasso latino-americano” e recolocar a questão central: quem se beneficia da dependência e quem paga o seu custo histórico?

É importante entender de uma vez por todas, que a chamada Guerra de Secessão acontecida entre os anos de 1861 e 1865, foi uma guerra civil capitalista com o propósito de definir qual capitalismo venceria. Foi um embate sangrento entre segmentos da indústria e do latifúndio; entre o protecionismo e o livre comercio; entre a autonomia e a dependência. Foi por fim, o último capítulo da tentativa britânica de manter os USAN dentro da sua orbita econômica.
Ao contrário do que muitos pensam não foi uma guerra para libertar escravos, porem para libertar o país de um modelo colonial interno.
Todavia, enquanto a imprensa burguesa britânica muitas vezes estimulava e favorecia o Sul, Karl Marx escrevendo para o New York Tribune e outros jornais, combateu essa visão, defendendo que a luta da União era uma luta da democracia popular contra o sistema de escravidão mais vergonhoso da história.
Marx e Engels, portanto, viam a vitória do Norte como essencial para o progresso do materialismo histórico, mesmo sendo a vitória de um sistema burguês pois, eliminava uma instituição feudal (escravidão) e unificava o mercado de trabalho nos Estados Unidos.
Para Marx, o capitalismo não é um destino natural da humanidade nem o fim da história. Ele é um modo de produção historicamente determinado, como foram o escravismo e o feudalismo. Ele nasce, se desenvolve, entra em contradição consigo mesmo e, em tese, abre espaço para outra forma social.
“Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela é capaz de conter.” Karl Marx.
(Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política) Ou seja: o esgotamento é tendencial e não cronológico. Marx enxergava no liberalismo capitalista, várias contradições estruturais que tendem a se aprofundar com o tempo:
. Queda tendencial da taxa de lucro: o capital investe mais em máquinas do que em trabalho vivo (única fonte de mais-valor), comprimindo a lucratividade.
. Superprodução: produz-se mais do que o mercado pode absorver, porque salários são mantidos baixos.
. Concentração e centralização do capital: poucos acumulam muito, muitos ficam com quase nada.
. Alienação: o trabalhador perde o controle sobre o produto, o processo e o sentido do trabalho.
Se é verdade que esses elementos não “quebram” o sistema de uma vez, é também verdade que o tornam cada vez mais instável, desigual e violento na componente social.
Pela proliferação incontável das contradições do modelo liberal capitalista, parece se aproximar a hora de trocá-lo por outro mais avançado que concilie a riqueza com as necessidades da população.

Referências:
Disal.com.br – Bandeirantes E Pioneiros-Vianna Moog – Paralelo Entre Duas Culturas – livro 22ªed – 9788503011099;
Da revolução industrial inglesa ao imperialismo- Eric Hobsbawum | Amazon.com.br;
SciELO Brasil – A formação política do Brasil segundo Furtado A formação política do Brasil segundo Celso Furtado;
Celso Furtado e a cultura da dependência | Oikos
Fotografas:
Grátis: As Treze Colônias Inglesas – Material Claro e Objetivo em PDF para Estudo Rápido;
A chegada dos pioneiros no may may flower – Pesquisa Google;
Resumo 8º Ano – Guerra de Secessão EUA – ISTUDI – Tudo sobre História;
México Roubado pelos USAN : r/Map Porn;




