
Por: Cristina Couto;
Eu sou o seu décimo sexto pai.
Sou primogênito do teu avô, primeiro curandeiro. (Zé Ramalho).
Na história o tempo é o elemento mais decisivo. Ele fornece a estrutura fundamental que nos permite organizar, analisar e compreender os eventos passados que foram acontecendo dentro de um processo continuo de fatos, trazendo mudanças nas estruturas sociais, políticas, econômicas e culturais, outras vezes, rupturas de antigos padrões e instaurações de novos modelos vigentes da época do ocorrido.
A falta de registros, documentos e da oralidade que muitas vezes se perdem com o tempo deixam sempre uma lacuna e muitas perguntas sem respostas, tornando a história sem explicação, sem entendimento e facilmente se tornando lendas cheias de mistérios e crendices. O Major João Carlos Augusto é uma figura que foi maior do que se imagina, infelizmente, pouco se sabe a seu respeito. Seu nascimento é tão misterioso quanta sua morte. Por determinação do destino e falta de mais informações ele se tornou conhecido por ser pai da célebre Fideralina Augusto Lima.
Minha curiosidade não tem limite, não sossego enquanto não for fundo na pesquisa, busco documentos oficiais, papéis improváveis, processos criminais, inventários, livros, e tudo quanto minha intuição me levar. Não foi a toa que a amiga, conterrânea e confreira Neide Freire me chamava carinhosamente de Traça.

Esta figura enigmática voltou ao cenário histórico quando um descendente da família Augusto de Lavras da Mangabeira/CE, Melquíades Pinto Paiva, escreveu e publicou o Livro: “Uma Matriarca do Sertão: Fideralina Augusto Lima (1832 – 1919)”. Editora: Livro Técnico. Fortaleza, 2008. E, nele o autor revela em primeira mão um antigo segredo de família, o que não me causou nenhuma surpresa. Conhecedora das estratégias adotadas pela família em questão, uma traição por uma boa causa ou bom acordo político era perfeitamente perdoável e aceitável, pois bem, foi o caso da concepção de João Carlos Augusto. Sabia-se que seu nome era uma homenagem ao seu padrinho de batismo, João Carlos Augusto de Oyenhausen-Gravenburg (1776– 1838), 1º e único Visconde e Marquês de Aracati, mas, segundo velhos familiares o menino era mais que afilhado, na realidade, era filho biológico do seu padrinho que na época, era o governador da Capitania do Ceará (1803 — 1807), e em uma visita oficial a Vila das Ribeiras do Icó deixara sua semente por lá.
A data do seu nascimento é incerta. Segundo, o historiador lavrense, Joaryvar Macedo, João Carlos Augusto, nasceu em 1804, sem citar dia e mês. Pesquisando no inventário de sua irmã Cosma Francisca de Oliveira Banhos, segunda esposa de Francisco Xavier Ângelo Sobreira, assassinada pelo enteado em abril de 1831, sendo ele o inventariante, inventário datado do dia 25 de junho do dito ano, declara ser casado e ter 26 anos de idade, se fizermos as contas ele teria nascido em 1805, ou, no final do ano 1804, assim, não teria 27 anos completos. Nesta declaração ele afirma viver de negócios, o que se confirma no seu inventário datado de 1856.
Neste quebra–cabeça de inúmeras peças, algumas quebradas, outras escondidas e muitas perdidas. Na busca por informações continuo colando, procurando no provável e no improvável algum vestígio que norteei o caminho, e ainda tenho a esperança de encontrar aquelas peças perdidas. Por enquanto, conto com os dois inventários que já esclareceram algumas questões, os documentos da Câmara de Vereadores da Vila das Lavras, onde ocupou a presidência, foi coletor de rendas gerais e provinciais e juiz comissionario da revisão dos açudes do termo de Lavras, e ocupou assento na Assembleia Provincial do Ceará, como deputado provincial de 1850/51 e 1852/53.

Contraiu matrimônio com Izabel Rita de São José (Zabelinha), provavelmente, nos últimos meses de 1831, haja vista, que sua primogênita (Fideralina), nasceu em 24 de agosto de 1832. Zabelinha era filha de Ana Josefa da Conceição e do capitão Manuel Rodrigues da Silva; neta materna de Francisco Xavier Ângelo Sobreira e Ana Rita de São José, sobrinha do padre José Joaquim Xavier Sobreira, um dos maiores lavrenses, talvez, o maior em prestígio, articulação e política.
João Carlos Augusto foi comerciante, senhor de muitas propriedades no Município das Lavras, muitas joias (ouro, prata e cobre), dinheiro, animais (gado vacum e cavalos), escravos, imóveis na Vila e proprietário de terras na zona rural. Tais como: Sitio Tatu, Sitio Outeiro, Barro Branco, Volta, Simbaíba e Vaca Morta.
Como todo comerciante ficou algumas dívidas a serem quitadas, duplicatas em grandes comércios da capital cearense, pernambucana e em Aracati, local que em meados do século XIX, era um Porto fluvial movimentado e vital para economia cearense, servindo como porta de entrada e saída para produtos do Sertão. Era o grande centro comercial do Ceará.

No seu inventário são citados nomes de credores. Como: Francisco Fidelis Barroso, comerciante no ramo de retalhos em Fortaleza e Casa Pacheco em Aracaty. E, que a casa em que morava na Vila foi comprada aos herdeiros de Xavier Ângelo, na Rua do Tabuleiro com três portas de frente e com muro e na partilha ficou para Fideralina, sendo sua residência na Vila. Deduz-se que o imóvel tenha sido também, residência de Xavier Ângelo e do casal Major João Carlos Augusto e Zabelinha.
Foi genitor de uma numerosa prole, sendo a primogênita a famigerada Fideralina, nasceram depois mais dez filhos, três do sexo masculino e sete do sexo feminino. Na época de sua morte a filha mais velha (Fideralina) tinha 24 anos e a mais nova (Theolinda) tinha apenas um aninho, ou seja, teve pouca convivência com a figura paterna. Por ter recebido único e exclusivamente o nome do seu padrinho de batismo, João Carlos Augusto, não tinha o sobrenome da família paterna, Oliveira Banhos, e desaparece da sua descendência, originando a família Augusto de Lavras da Mangabeira.
Foram seus filhos: Cicero Carlos Augusto, Antônio Carlos Augusto, Ernesto Carlos Augusto, Fideralina Augusto Lima, Raquel Rita de São José, Minervina Rita de São José, Floripes Rita de São José, Dulcéria Rita de São José, Rita de São José, Amélia Rita de São José, Theolinda Rita de São José. Na filiação a única que tem sobrenome do pai é Fideralina, as demais tem o sobrenome da mãe. E não foi por casamento, pois, três de suas irmãs já haviam contraído matrimônio quando o pai faleceu.

As poucas e vagas informações que temos sobre sua trágica morte suscitou em nós pesquisadores muitas dúvidas. Tanto Joaryvar Macedo como J.de Figueiredo Filho citam sua morte e diz ter sido em decorrência de ferimentos recebidos, sem mais detalhes de lugar e provável motivo. Sabe-se que o fato se deu no dia 19 de abril de 1856. Segundo, J. de Figueiredo Filho, no seu livro Histórias do Cariri III, afirma ter sido a década de 1850 muito violenta e conflituosa em todo o Cariri cearense, e no mesmo parágrafo descreve uma eleição na Matriz do Crato, onde o Partido Liberal venceu as Eleições, e o Partido Conservador inconformado com o resultado partiu para a violência, invadiu a Igreja e o ato violento matou uns e feriu outros. No mesmo parágrafo fala sobre a morte do Major João Carlos Augusto, despertando curiosidade e ao meu ver fez um link entre os acontecimentos.
Durante anos busquei o processo criminal ou algum documento sobre tal acontecimento para ver se havia alguma ligação entre eles. Em 2023 tive acesso à documentação da dita Eleições e pude constatar que aquelas Eleições violentas de 1856, na Matriz do Crato, não teve nenhuma ligação com a morte do Major João Carlos Augusto. As Eleições eram da Vila de Araripe. E, entre os mortos e feridos não constava seu nome.
Sua trágica morte é tão obscura quanto os detalhes da sua vida. O tempo, o desgaste de documentos e até a perda deles impossibilita de conhecer acontecimentos importantes de Lavras da Mangabeira, do Cariri cearense e do Ceara. É certo que seu corpo foi sepultado na Matriz de São Vicente Ferrer na Vila das Lavras, de grades acima, local onde eram sepultadas as figuras ilustres, pois, segundo os documentos da Câmara de Vereadores das Lavras, o Cemitério Público de Lavras foi construído em 1862, pelo seu genro Major Ildefonso Correia Lima.




