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O essencial é visível aos olhos

Não, não estou citando Saint-Exupéry de forma errada. É verdade que me valho de uma de suas frases mais conhecidas para discordar da afirmação. Ao contrário de muitos que tiveram “O Pequeno Príncipe” como livro favorito ou, pelo menos familiar, na infância, eu o conheci apenas quando andava bem adiantado nas letras francesas. Achei que seria uma boa leitura para iniciar a familiarização com a língua dos gauleses. Entretanto, não posso dizer que o impacto da leitura foi fundamental na minha formação. É verdade que o livrinho é cheio de máximas que nos ajudam a entender o mundo de uma forma descomplicada. Contudo, o mundo não é, de forma alguma, descomplicado.

Uma leitura, todavia, que me pego relembrando sempre é a do gigantesco “Os Miseráveis” de Victor Hugo. Alguns leitores podem se sentir intimidados pelo tamanho da obra, a quem eu aconselho: leiam ao menos o primeiro capítulo, que nos apresenta a figura de Monsenhor Bienvenu. Monsenhor Bienvenu é uma daquelas figuras típicas na literatura, o velho que guia o jovem herói em sua jornada. A figura é tão antiga quanto a prática humana de contar histórias. Em “Os Miseráveis”, esse ancião, pratica a pobreza evangélica à risca, não falha com a sua beneficência e com a bondade. Ainda assim, é dele um dos ensinamentos que mais prezo:

O jardim, um pouco deteriorado pelas construções bem feias das quais falamos, era composto de quatro alamedas formando uma cruz, com um tanque no centro. Uma outra alameda contornava o jardim ao longo da parede branca que o fechava. Nos intervalos dessas alamedas desenhavam-se quatro canteiros com bordas de grama. Em três deles, a senhora Magloire cultivava legumes; no outro, o bispo plantava flores. Aqui e ali, algumas árvores frutíferas.

Fonte: Foto internet

Uma vez a senhora Magloire disse a ele, com uma espécie de doce malícia:” Monsenhor, o senhor, que tira proveito de tudo, tem aqui um canteiro inútil! Mais valeria ali plantar saladas do que flores”. “Senhora Magloire”, respondeu o bispo, “a senhora está enganada. O belo é tão útil quanto o que é útil” E após um momento de silêncio acrescentou: “Até mais, talvez”.

Outro dia ouvi uma reflexão que julguei extremamente pertinente, falava a respeito de nós, não sei enquanto geração ou sujeitos da contemporaneidade, mas o fato é que vivemos em uma busca da satisfação de nossos egos através, do trabalho, da família, dos relacionamentos, etc. Como nos ensina a doutrina deixada por Buda, a busca pelo prazer é o que nos mantêm num ciclo de insatisfação. O que é corroborado pela ciência, que afirma que a dopamina, hormônio responsável pela sensação de prazer, causa dependência. Como uma droga, nos causa picos de imenso deleite, mas seguidos de profundos vales de realidade. Vivemos em busca do prazer, e quando não o temos entramos em uma espécie de crise de abstinência. A cura para tanto, já dizia Sidarta Gautama, é a quebra desse ciclo de prazer e dor e que passemos a buscar não o prazer, mas a paz, a serenidade.

E onde entra o belo, tão prezado Monsenhor Bienvenu? Aí é que está a chave da questão. Vivemos em uma sociedade tão utilitarista que nosso trabalho não pode ser apenas um trabalho, que no final do mês nos gerará os rendimentos necessários para a vida cotidiana. Um trabalho não pode ser mais apenas um trabalho, tem de ser a fonte de nossa realização pessoal. Não que tenhamos que nos sujeitar a um labor desagradável, extenuante e que não nos valorize, muito pelo contrário; contudo, não podemos depositar na atividade laboral a responsabilidade de nos validar como pessoas, de nos preencher de sentido. O seu trabalho é o que você faz, não quem você é.

Da mesma forma é a nossa família, depositamos naqueles que nos rodeiam a responsabilidade de amarem, serem amados, compreenderem e serem compreendidos, respeitarem e serem respeitados. Mais uma vez, sua família é apenas a sua família, não quem você é.

Ainda, o padrão se repete nos relacionamentos. A busca incessante pelo príncipe encantado ou pela dona do sapatinho de cristal nos faz cegos para a nobreza e para a plebe que nos rodeia. Ou pior, a busca infinita pela sua “outra metade”, como se fôssemos incompletos e que precisamos, invariavelmente, que encontremos “alguém”.

Todo esse ciclo de busca do prazer, da autorrealização, em outras esferas além do “eu” é a receita perfeita para a frustração. A expectativa é a mãe da decepção. Isso se dá porque quisemos tornar útil, ou seja, dar uma função, uma utilidade, àquilo que não, necessariamente, deva ter. E essa busca de imbuirmos família, trabalho, relacionamentos de um poder sobre nossa construção do eu que eles não têm, faz com que ponhamos nas mãos de outrem a responsabilidade de nos completar, de nos entender, de nos aceitar, enfim, de nos validar como pessoas “úteis”, que têm valor.

 

Nesse processo de utilitarização de todos os aspectos da nossa vida, esquecemos de uma parte fundamental da existência humana: o belo. Você não pode comer algo simplesmente por ser gostoso, a comida não pode engordar; você não pode viver um amor ou uma paixão apenas, um relacionamento precisa nos “servir” a algo, seja à lascívia, à carência, à pressão social que diz que precisamos andar aos pares como freiras.

Sinceramente, não há nada mais triste que algo útil. Como monsenhor Bienvenu, nós temos nossos canteiros no jardim, mas como seria triste se os povoássemos todos de alfaces e couves e esquecêssemos das rosas e dos jasmins. Vivemos como se precisássemos, a todo tempo, nos provar como pessoas úteis, que geram valor, desejo ou admiração.

Ainda, não nos façamos de cegos em relação ao que nos faz pensar assim. Vivemos em um sistema econômico no qual se não produzimos não somos úteis, da mesma forma se não consumirmos. O problema é que esse utilitarismo, que é necessário para que se gire a roda capitalista, se embrenhou em todas as esferas da vida contemporânea. Grande exemplo disso, é um discurso que vem se difundindo nos últimos anos de que nós não precisamos mais “ter” as coisas, apenas “usá-las”; gritam aos quatro ventos que realizar o tão antigo sonho da casa própria não é um bom investimento, que devemos, ao contrário, investir em fundos e títulos. Adivinha a quem isso interessa?

Para além, estamos sendo convencidos que trabalharmos até morrer é algo bom, que uma velhice “produtiva”, “útil” é o melhor para nós. Além de não ser “um bom investimento” possuirmos nossas casas, também não é “bom investimento” possuirmos carros, roupas, tempo livre, ou ambições de uma vida tranquila. É assustador para aqueles que querem nos governar que nosso dinheiro não seja útil.

Exemplo do utilitarismo que contamina nossa sociedade é o chamado “novo ensino médio”, em que os alunos não mais precisam estudar a antiga miríade de matérias das mais diversas áreas do conhecimento. Não estamos expondo nossos jovens às possibilidades que o mundo e as ciências nos proporcionam, ao invés, passamos a oferecer um ensino tecnicista no qual se ensina a trabalhar, não a pensar.

Como sempre, os mais ricos podem “fugir” dessa armadilha com suas escolas particulares e cursos dos mais diversos, enquanto a grande massa da população é formada para não terem sequer a vontade de romper com o ciclo, se não de miséria, mas de ignorância. Estamos formando braços hábeis e mentes vazias. Uma massa ideal para as manipulações dos poderosos.

O utilitarismo cria uma massa de ignorantes e uma classe que concentra poder, conhecimento e dinheiro. A grande massa trabalha, gera valor, renda e consumo. Estamos vivendo, hoje, regressões nunca antes vistas na história contemporânea. Estamos perdendo direitos ao invés de conquistarmos mais, estamos tendo que trabalhar mais, para ganharmos menos. Vivemos doentes em uma sociedade que cobra saúde, vivemos pobres e cansados num ambiente que nos exige riqueza e produtividade.

Ainda inspirado pelos franceses, como diz seu hino nacional: “Aux armes citroyons!” (Às armas cidadãos). Reajamos, sejamos revolucionários! Não nos contentemos com uma vida de trabalho infinito, frustração, e obediência àqueles que nos dizem que não devemos possuir e devemos ser sempre úteis. Mais que revolucionários, sejamos revoltosos, nos insurjamos contra essa onda que nos impede de viver e nos força a produzir através de uma culpa e da busca de uma aceitação social de uma sociedade cada vez mais doente. Às favas com o utilitarismo burguês, que venha o belo, o prazer e a alegria de um mar de rosas.

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