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O que significa amar?

Durante várias participações em reuniões espirituais voltadas ao trabalho de cura, como já tratei em outras oportunidades, temos a oportunidade de, por horas, observarmos de perto os ensinamentos dos Amigos Espirituais. Identificam-se, comumente, como “Pretos Velhos”, indígenas, Médicos, ou simplesmente irmãos que, como nós, ainda estão em processo de aprendizado. Todos eles, a seu modo, sem exceção, têm sua contribuição a dar em nosso crescimento. Confesso que se tivesse realmente guardado e praticado cada ensinamento já seria um pouco iluminada.

Como sabemos, muitas vezes os professores são excelentes, mas nada adianta se os alunos deixam muito a desejar. Em se tratando desses ensinamentos, eu gostaria de falar do amor a nós mesmos. Já “repeti” muitas vezes esta lição, e declaro, honestamente, que pouco aprendi.

Quando a Jesus foi perguntado qual seria o maior dos mandamentos, ele respondeu:  “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo teu espírito, este é o maior e o primeiro mandamento. E aqui tendes o segundo, semelhante a esse: Amarás o teu próximo, como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda Lei e os profetas” (Mateus, 22:34 a 40);

Como já disse, nesta coluna, passei um tempo, ainda criança, estudando em um Colégio de Irmãs da Ordem Salesiana, em Anápolis, Goiás, e lá precisávamos realmente estudar o Novo Testamento. Estudei muito. Algumas coisas eu compreendia, outras ficava só na leitura. Contudo, a lição sobre o amor ao próximo me marcara muito e dela nunca esquecerei. Apesar da força deste mandamento, por muitos anos permaneci na dúvida: Quem é esse “próximo”? Os religiosos tentam passar para nós, leigos, coisas que realmente, acho que nem eles mesmos sabem explicar bem.

Nem a experiência familiar me foi capaz de esclarecer esse caminho, e, diga-se de passagem, tenho material e professores de sobra para que se aprenda a necessidade, e a agrura, do amor ao próximo. Contudo, no que se refere ao segundo mandamento, reforçado por Jesus, empaquei, como dizíamos em meu tempo de escola, no “amar a ti mesmo”. Pois é, como amar a ti mesmo? Isso significa que somos prioridade em relação ao próximo? Essas indagações ainda me chegam quando tenho um problema na família que sei que depende de mim para ser resolvido, e, ainda com o conhecimento cristão que já adquiri, e a essas alturas da vida, vêm novamente à tona as mesmas dúvidas.

Passei uma vida, assim como, creio, boa parte das mulheres do mundo, sendo ensinada que precisava amar aos pais, aos familiares, tios, tias, avós e aos mais velhos, mesmo que não os conhecêssemos. Não poderia, jamais, desagradar a alguém. E, na “escola família” cuja professora fora nossa mãe, a coisa foi mais rígida ainda. Quanto ao nosso pai, acho que ele era mais aluno que pai. Com ele nos divertíamos muito. Ele era daqueles a quem perguntávamos: “Pai, podemos ir a tal festa? ” E ele, como não contrariava a Senhora Julita, dizia logo: pergunte a sua mãe. Pronto, nem pedíamos, porque já sabíamos que a resposta era um não, ou então, ela dizia: “Vá, mas 9 horas esteja em casa! ”. Que tristeza! Na hora que a festa estava na melhor parte, já tínhamos que voltar para casa.

Bom, passada essa fase, vieram os namoros, até que um dia nos casamos e aí vem o Padre e exige o juramento de amar na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Nesta escola chamada família, do ponto de vista da mulher, fiquei pensando em que momento poderemos amarmos a nós mesmas. Sim, porque de tanto que vivi aprendendo a pensar nos outros, agradar aos outros, cuidar dos outros, que chegou a hora que o carro das emoções, preocupações, das palavras não ditas, das coisas não vividas, encheu, e, como naquela história de que o camelo, depois de ser carregado com todos os pertences do dono, cai porque não suportou o peso de uma simples pena. Eu também desabei.

A quem não sabe desse conto, lhes conto: Um beduíno, nômade por natureza, um dia resolveu levantar acampamento e, como de costume, buscou seu velho e confiável camelo. Colocaram sobre ele tudo que havia na tenda, tapetes dos mais bem tecidos, as especiarias mais raras, os incensos mais perfumados, e todos os utensílios necessários à vida e ao comercio no deserto e, ainda assim, lá continuava o camelo ereto e firme no seu dever, mas, por último, como tantos de nós ao partirmos em viagem, o beduíno se lembra de uma pena, belíssima, que não poderia ser deixada para trás nas areias do deserto, e, então, coloca a pena em um alforje nas costas do fiel animal. Assim, com esse peso que parecia ínfimo comparado à carga que o camelo carregava, e carregara durante toda a vida, o pobre do animal caiu. Da mesma forma que aconteceu com o camelo, aconteceu comigo.

Para minha felicidade, aprendi na escola da vida e observando a família ao meu redor, que precisamos aprender a mudar.  Minha família não tem, como muitas, algum traço físico característico. Não somos particularmente altos nem baixos, gordos nem magros, alvos ou retintos. Contudo, temos por característica sermos longevos. Nessa convivência com a velhice, desde criança, percebi, e repasso a todos que conheço, que precisamos ser abertos às mudanças. Essa, é uma necessidade urgente. O processo de mudança é necessário, porque a vida é como um rio que corre. Ainda que encontre represas e tenha de parar o seu correr habitual, uma hora a represa enche ou se rompe e o rio corre mais uma vez. Pedras são contornadas e moldadas, despenhadeiros viram cachoeiras, outros rios se somam às suas águas e essas correm juntas e mais fortes, até o momento em que o próprio rio deixa de correr e vira mar.

À necessidade de mudar, vem associada um outro aprendizado que é o do desapego. Quando estamos dispostos a algum tipo de mudança, ela nos exige, na maioria das vezes, que abramos mão algumas coisas. Às vezes de poucas, ou, se necessário, de muita coisa. Muitas delas, carregamos há tanto tempo, que, nosso corpo já está se curvando, literalmente, de tanto peso. Ficamos como o camelo da história.

Aqui, já sinto que estou voltando a falar desse novo aprendizado que estou vivenciando. O aprender a me amar. Com esse processo recém iniciado, voltei a pensar no que foi dito por Sócrates a séculos antes de Cristo. Conhece-te a ti mesmo. Está tudo associado…  Se eu não me conheço, não sei me amar. Se não me conheço não tenho como saber sequer o que amar.

Esse processo pode iniciar com um dos nossos mestres na vida, o Amor ou a Dor. O amor nos ensina ou faz com que aprendamos através dele, é um professor gentil e grandioso. Se temos a sorte de aprender a amar com o Professor Amor, ele nos ensina através do exemplo, com gentileza, constância e mansidão. Contudo, se não temos a oportunidade de aprendemos com ele, a tarefa é dada àquela professora, falada anteriormente, a Mestra Dor. Sempre uma mulher fazendo o trabalho difícil. Sim, é com ela que esse processo, muitas vezes, inicia. Você se vê diante de algumas situações que estavam diante de você o tempo todo e não era percebido. A Mestra Dor dá a lição com uma palmatória. Mostra, com um tapa na cara, a necessidade de você se impor, se valorizar, assumir que você precisa tomar as rédeas de seu próprio destino.

Esse processo é doloroso, difícil e necessário. É preciso fazer o mergulho o qual Sócrates ensina. Conhecer a si mesmo, mas para isso, vem a necessidade da descoberta de quem você é; como você age diante de emoções que de tão reprimidas por uma vida de obediência e servidão a todos ao nosso redor, nunca foram vividas. A impressão que tive, foi a de que estava entrando num rio, sem conhecer sua profundidade nem o curso das águas.

Importante falar que nem sempre podemos ou devemos mergulhar neste processo sozinhos. Precisamos, muitas vezes, de profissionais que nos ajudem. Ainda existe um preconceito muito grande em se buscar ajuda psicológica ou psiquiátrica, por medo de se demonstrar fraqueza ou até mesmo de ser taxado como louco. Não, pelo contrário, os procuramos para não nos tonarmos insanos.

Sei que posso ser questionada, como eu, espirita, não consigo resolver minhas questões em um Centro Espírita. Aqui, mais uma vez, vem a necessidade do autoconhecimento. Só com ele sabemos identificar se os problemas que estamos passando, são nossos mesmos, de nossas dificuldades, ou são influência de algum espírito precisando de ajuda. Isso é comum acontecer. Por isso, tenho falado tanto em autoconhecimento, não só espiritual e psíquico, como também na necessidade de conhecermos nossos corpos.

Compreendo, e não tenho nenhuma dúvida, do que digo, que a maioria das vezes, a causa da doença é no corpo espiritual. Mas isso não quer dizer que sua origem seja, necessariamente, espiritual. Da mesma forma que o corpo espiritual influencia, necessariamente, no corpo físico, a recíproca é verdadeira. O mundo espiritual, através de nosso corpo espiritual, influencia nosso corpo físico, e o mesmo se dá na via contrária. Nosso meio físico muitas vezes pode adoecer nosso corpo a ponto de nosso espiritual ser atingido. E como uma árvore de raízes agressivas atravessa as camadas do solo, as doenças, quando se aprofundam, passam do físico ao espiritual e vice-versa.

Assim, se o mal tem origem espiritual, precisa-se de assistência espiritual, da mesma forma, se o mal se encontra no plano físico, ou seja, de problemas que a vida nos apresenta, é no corpo físico que precisa ser tratado. Assim, preciso da assistência específica para cada corpo. A Medicina terrena complementa a Medicina Espiritual e vice-versa. Uma atua na causa, a outra, na consequência das doenças.

Para concluir, espero que, com nossas palavras e vivência, possamos contribuir com o bem-estar de algum de nossos leitores, ou se tiver alguém passando por problema semelhante possa ser ajudado. Não tenhamos vergonha de pedirmos ajuda. Esse é um caso de grande  humildade.  A solução de nossos problemas, podem não ser tão simples, mas se dermos o primeiro passo, certamente, ficaremos melhor a cada dia. E nunca esqueçamos das palavras do Mestre: “Amarás o teu próximo, como a ti mesmo”. O exemplo de como amar ao próximo está em como nos amamos, e como podermos amar a outro antes de amarmos a nós mesmos?

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