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Início Antonio Henrique Couras “Quem é você?” disse a Lagarta”

“Quem é você?” disse a Lagarta”

Olá caros leitores, me chamo Antônio e fui convidado a ser mais um articulista desse blog. Por mim essa apresentação terminaria assim. Nunca soube me apresentar. Fiquei extremamente honrado com o convite, é verdade, mas um simples pedido me fez tremer nas bases: “me mande o seu currículo”. E agora? Esse pedido traz cogitações filosóficas que nenhum pensador jamais conseguiu responder satisfatoriamente: quem sou eu?

A língua portuguesa tem uma peculiaridade que me permite um certo jogo de cintura na hora de responder a essa questão esfíngica: não sou, estou. Sim, sou Antônio desde o dia que nasci, mas quantos Antônios não fui desde então? Fui o filho de meus pais, o irmão mais novo de minhas irmãs… fui tantos eu mesmos que já nem sei mais.

Um “à parte” cá entre nós, a palavra currículo vem do latim curriculum, significando corrida; e se formos um pouco mais preciosistas e nos apegarmos à nomenclatura latina utilizada por vários de nossos vizinhos linguísticos, o termo seria curriculum vitae, a corrida da vida.

Tendo a consciência de que nenhum observador é isento de julgamento, peço um pouco de complacência do leitor para este escritor iniciante. Corrida da vida me parece uma coisa de um extremo mau agouro, currículo e epitáfio chegam a ser, para mim, colegas de trabalho em sua função. Aqui falaremos de quem eu sou, do que eu fiz, de minhas capacitações técnicas, cursos, formações, habilidades…?

Tentando organizar o caos, vamos lá: Nasci filho temporão em um parto complicadíssimo, no dia de Santo Antônio ainda por cima, santinho que gentilmente me apadrinhou com seu nome. Acho que a teimosia do meu santo padroeiro, que costumava subir em árvores para pregar aos passarinhos quando não queriam ouvi-lo, se embrenhou um pouco em mim. Aos 10 meses decidi que não iria mais mamar. Alguém mais já ouviu falar em auto desmame com data e hora marcada? Bem, esse sou eu.

Desde então operou-se um milagre na minha vida: eu engordava sem comer. Minha pobre mãe, que também desfia seus pensamentos aqui nesse blog, sofreu o pão integral 12 grãos que o diabo nutricionista amassou. O menino não comia nada e sempre esteve acima do peso. Acho que meu corpo respondia ao espírito que guardava. Sempre fui assim, meio cacto, planta suculenta, que vivendo da adversidade absorve tudo que pode, fica gordinha e ainda floresce!

Tive, e, devo admitir, ainda tenho, uma aversão enorme a perder meu tempo. Sim uma criança de seus 5 anos reclamava de estar perdendo tempo. Nunca vi muito sentido em, por exemplo, brincar com outras crianças, qualquer coisa que fizesse perder o fôlego pelo simples fato de me divertir parecia ultrajante (eu já era naquela época o velhinho que reclama da maluquice de se escalar uma montanha simplesmente pelo desafio. “Se pelo menos chegasse lá e plantasse uma árvore, fizesse alguma coisa…”)

 

Meus primeiros sofridos anos se passaram sem internet e sem TV a cabo (pois é, sou de uma geração meio final meio começo), então meu grande entretenimento eram os documentários sobre história antiga, arte, ciências… como é comum a todas as crianças da mesma idade. Às vezes eu olho para trás e vejo um mini Winston Churchill, de oclinhos e tudo, com 5 anos e reclamando da vida…

Até que enfim me botaram numa escola. Os 12 anos mais sofridos da minha vida. Eu tinha que acordar cedo, lidar com um monte crianças… Quem aguenta um monte de crianças gritando as 7 da manhã pelo amor de Deus? Não recomendo essa presepada a ninguém, principalmente quando as crianças começam a virar adolescentes. Não que eu fosse antissocial, longe disso, se tem uma coisa que eu não tolero, até hoje, é não ser o absoluto centro das atenções. Fosse citando Heródoto aos 8 na aula de história (“O Egito é uma dádiva do Nilo”) fosse batendo nos pobres coleguinhas que tentavam falar alguma gracinha comigo. Mas nada muito fora do comum, quando meu nicho da cadeia alimentar foi estabelecido naquela selva, a vida se sucedeu em céu de brigadeiro.

Um completo desastre nas exatas, aprendi (mal) as 4 operações e é isso. Quanto às humanidades, como o que palhaço mais gosta é de palco, eu brilhava. Citando, de orelhada, Heródoto aos 8 e lendo apaixonadamente Victor Hugo aos 15, discutia literatura em francês. Até que veio a fatídica escolha do curso a se fazer na universidade. Trocando em miúdos, utilizei a estratégia de José Lins do Rêgo e Ariano Suassuna: quando não se tem talento para nada cursa-se direito.

Por ali quando estava me enfurecendo com o final de Madame Bovary e ficando completamente sem palavras com a vida de Jean Valjean, decidi ser diplomata, então os 5 anos de latim “mal dizido”, cheios de suas vênias, cine qua nons e ora pro nobis do curso de direito me passaram mais como uma etapa a ser superada do que qualquer outra coisa. Do curso guardei as amizades, os ensinamentos dos mestres, mas me livrei de todo o restante.

Aos 23 anos estava eu com um diploma na mão e 5 línguas no currículo. E foi aí que entendi o que Descartes quis dizer com “penso, logo existo”. Por toda minha vida eu aprendi, na faculdade me ensinaram a ter um senso crítico, mas eu realmente nunca pensei. Nunca propriamente existi como ser individual, com quereres e gostares, desamores e tristezas. Nunca tive nenhum talento muito especial, nem mesmo em relação às pobres almas com quem dividi os bancos da faculdade de direito, aliás, hoje, essas pobres almas muito me orgulham por serem pessoas e profissionais incríveis.

Mas agora é que são elas. Já lhes contei como nasci, como foi minha instrução… e agora? Somos tão utilitaristas que me resumo ao que faço? Pois bem, estudo para uma prova que não passei e abri uma loja de antiguidades que não vendeu nem um mísero banquinho roído de cupim. Contudo, me resguardado na minha teimosia, digo: ninguém é apenas aquilo que faz. Aposentados não deixam de existir quando encerram suas atividades laborais, por que eu só passaria a existir quando começasse as minhas?

Lembro de uma piada que dizíamos uns aos outros às vésperas da formatura: “a partir de agora deixamos de ser o futuro da nação para virar estatística de desemprego”. E essa panelinha de pressão existencial proporcionou, não só a mim, devo dizer, um belíssimo espetáculo pirotécnico quando fomos atingidos pela pandemia. Já se vão quase dois anos daquele “e agora?” primordial. Ganhar o mundo e construir uma vida longe passou a não ser mais a prioridade de muitos. A permanência da família como nossas raízes se tornou mais impermanente. Nossas relações mudaram, amizades acabaram e outras floresceram, assim como relacionamentos, casamentos e carreiras. Certezas se desfizeram, a realidade galopante se impôs. O eu que eu fui, não é mais o eu que eu sou. Então, afinal, quem sou eu?

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