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Patrulhamento ideológico para uns e outros não

Segundo o sociólogo e advogado Jessé de Souza, “o ódio ao Lula é o ódio aos pobres. Um ódio ao ex escravo que a elite explora e precisa ser mantido humilhado no lugar ao qual essa elite quer que ele permaneça.”
E Prossegue: “os pobres desse país sabem que o senso de lugar imposto a eles não é natural, mas sim um senso construído pela elite.”

A Primeira eleição de Lula, acontecida em outubro de 2002, representou um balde de água fria e um grande choque para as elites brasileiras. Ainda hoje elas se ressentem daquilo que consideram uma concessão eleitoral errada e perigosa.

Um fato inusitado na história do Brasil, quando a elite nacional assistiu estarrecida, a eleição ousada de um mestiço retirante nordestino, mal nascido, mal vestido, barbudo (quando a barba ainda era coisa de comunista cubano) e falastrão. Para chegar a tanto ele teve que derrotar nas urnas, depois de duas tentativas fracassadas, um paulistano de classe média, intelectual orgânico do establishment, que sempre esteve à serviço da burguesia paulistana.

José Serra, o concorrente derrotado por Lula, se não era um exemplar puro sangue de origem (PO) do paulista de 400 anos, foi escalado e apoiado pela elite nacional para afastar o pesadelo daquele fantasma que surgia ameaçador no horizonte político.

A primeira aposta que a elite brasileira fez, mesmo antes da derrota nas urnas de 2002, foi no fracasso de Lula como gestor. Não tendo outra forma de afasta-lo da disputa, eles devem ter aceito a ideia que lhes foi vendida por José Alencar Gomes da Silva, mineiro de Muriaé e um exótico representante do poder econômico, que aceitou o desafio de ser o candidato a vice-presidente na chapa vitoriosa do barbudo.

Alencar deve ter usado o argumento de que Lula, além de ser um fenômeno passageiro, seria mais um outsider da política e com certeza teria uma passagem efêmera e se afogaria na sua incompetência. Deve também ter acenado para a certeza de um mandato único, ao fim do qual o controle do estado retornaria às mãos do establishment. Afinal de contas uma única vitória eleitoral, diferentemente de uma revolução, não propiciaria ao eleito a oportunidade de realizar mudanças mais profundas no aparelho de estado.

O eleito poderia até fazer algumas concessões aos seus aliados de classe, todavia a superestrutura do estado burguês permaneceria intacta. O congresso nacional onde ele era minoritário, garantiria o controle da situação sem maiores atropelos.

Lula cumpriu a parte apaziguadora que lhe coube na aliança com a famosa carta escrita aos brasileiros, onde havia a garantia de manutenção dos postulados da política econômica vigente e o compromisso de respeito às leis de mercado.

O máximo que poderia ocorrer seria uma reforma mínima para a classe trabalhadora, sem maiores alterações que viessem a ameaçar a essência do estado burguês, ou seja: “Tudo continuaria como dantes no quartel de Abrantes!”

Intimamente devem ter até cantarolado o samba de Paulinho da Viola, referindo – se ao surgimento da bossa nova e do chamado iê, iê, iê. Disse ele:
“Ta legal, eu aceito o argumento.
Mas não me altere o samba tanto assim!….”

A elite engoliu o argumento sem antes ter censurado as concessões feitas aos párias, considerando-as como um exagero que iria muito além daquilo que sempre foi oferecido na senzala. Assentiu, mas a partir de então passou a ter um nojo incontido a tudo quanto Lula representava, extensivo a nosotros que com ele ainda hoje continuamos na luta.

Como fez Pilatos, lavaram as mãos sujas de ódio e passaram a nutrir aversão por ele e por tudo aquilo que ele representava. Um nojo consciente que apontava para a necessidade de deter essa ameaça, pondo em prática o serviço sujo da destruição da sua imagem, enxergando nessa estratégia, além da sua destruição como liderança, o desestímulo ao surgimento de outros líderes da mesma cepa.

Para a execução do plano maquiavélico e sujo que tramaram, chamaram à ribalta, ninguém menos do que a mais pusilânime e ambiciosa das classes sociais que é a classe média. A ela confiaram a terceirização do ódio que seria difundido dali em diante, com o apoio da arraia miúda que sempre gravitou em torno dela, composta por pobres de direita, num enorme e inexplicável paradoxo.

O ultraconservadorismo brasileiro é tão tosco e tão obtuso, que agora diante da forte perspectiva de uma nova vitória de Lula, entrou em desespero total e passou a exigir uma nova edição renovada e ampliada da carta aos brasileiros.

Por sua vez, Lula de posse do cabedal político eleitoral construído por ele próprio ao longo dos seus governos anteriores, ganhou luminosidade própria e atualmente faz a colheita do plantio que ele próprio fez, atendendo as mínimas concessões socioeconômicas em benefício da grande massa de descamisados (esse termo é de Eva Peron, não é de Collor).

Olhando para os fatos do nosso ponto de vista, que ele faça acordos em torno de um conteúdo programático é compreensível. Todavia o que a elite anseia intensamente é uma capitulação total.

Sabemos que o modelo eleitoral vigente no Brasil é sempre voltado para um presidencialismo de coalizão em que o processo de negociação com o poder legislativo é uma constante. Nessa prática a oração de São Francisco é rezada de forma diversa da original, para exorcizar aquilo que para a elite era” maus fluidos”. Portanto para “pacificar” o congresso, “É dando que se recebe”. Esse é o coro!

O fracasso da aposta na incompetência de Lula mostrou também que o tiro lhes saiu pela culatra em 2002 e para evitar os contratempos de um novo mandato de um governo minimamente reformista, foi preciso mante – lo encarcerado por 580 dias, sem nenhuma acusação formal e sem provas documentais contra ele.

Enquanto isso, vão alimentando uma solerte campanha difamatória e um insidioso patrulhamento ideológico contra Lula, executado pela imprensa oficial, pelas redes sociais, por sopradores de microfones aliados, além de milícias digitais que são bancadas com o dinheiro público.

O dito popular reza que: “enquanto os cães ladram a caravana passa”. Por coincidência o dito está acontecendo com Lula que acabou de chegar de uma viagem à Europa, onde foi recebido por chefes de governo e de estado. Na viagem  ele procurou com o seu prestigio, restabelecer a nossa imagem externa profundamente arranhada durante os 35 meses do governo de Jair Bolsonaro.

Demonstrando um prestigio pessoal de causar inveja e até urticária nos fundamentalistas, ele vem tentando abrir as portas de vários países que foram nossos aliados, as quais foram fechadas ao Brasil pelo desastre diplomático do governo Bolsonaro.
Lula na sua viagem, criticada por Bolsonaro et caterva, relembrou ao mundo que o nosso forte e exuberante potencial econômico e a nossa respeitabilidade como parceiro comercial precisa ser restabelecida.

O atual presidente da república colocou a diplomacia em terceiro plano e na sua miragem pirotécnica, passou a promover uma desagregação enorme em nosso desfavor, desgastando as nossas relações comerciais.

Essa política nefasta posta em prática pelo seu governo, teve seu ápice com o isolamento a que foi submetido na sua penúltima viagem, onde foi representar o Brasil na reunião anual do G 20, promovida pela Organização das Nações Unidas – ONU, um conclave internacional que esse ano foi realizado na Itália.

Numa clara demonstração de descrédito e desprestigio, o presidente Jair Bolsonaro ficou literalmente isolado, sendo recebido apenas e tão somente pelo representante do governo italiano. Como anfitrião do conclave e por dever de oficio ele teria de dar as boas-vindas aos participantes e fazer as honras da casa. Convenhamos, essa foi uma humilhação inominada e nunca ocorrida na nossa história.

Isolado na visita oficial, ele saiu à cata de visitas de última hora e depois de muitas rejeições enfrentadas, encontrou agenda em dois municípios italianos: Anguillara Vêneta terra dos seus ancestrais e à cidade de Pádua, terra de nascimento do Santo Antônio de Pádua, o santo casamenteiro.

Na primeira delas,  um pequeno burgo de 4.739 habitantes e pelo que se informa, ele foi recebido pelo prefeito da cidadezinha, um político de extrema direita, identificado com os ideais fascistas. Todavia, na cidade de Pádua, com 210 mil habitantes, o prefeito não aceitou sequer recebe-lo. O presidente da república de um país sendo esnobado por um prefeito.

“Bolsonaro deslocado entre os chefes de Estado no G20 em Roma foi um retrato fiel da nova condição de pária do país no cenário internacional. Sem ideias, sem projetos, sem agenda, sem visão de futuro, o presidente evitou conversar com outros chefes de estado e preferiu iniciar uma conversa em português com garçons italianos.”

Por sua vez a viagem de Lula foi iniciada pela Alemanha, onde teve um encontro com Olaf Scholz, provável sucessor de Ângela Merkel como primeiro ministro.

Na França o ex presidente Lula foi aplaudido de pé e recebido com honras de chefe de estado, pelo presidente francês Emmanuel Macron. Posteriormente encontrou-se com a prefeita de Paris além de políticos e sindicalistas.

Daí à Espanha para um encontro com o primeiro ministro e chefe de estado Pedro Sanches, além de encontros diversos com lideranças europeias, encerrando uma viagem em que foi tratado em todos os lugares por onde passou como chefe de estado.

Para desespero dos seus desafetos ele foi recebido inclusive por lideranças conservadoras de partidos ditos de direita.

“A forma como o ex-presidente Lula foi tratado pela imprensa internacional e por figuras importantes da política europeia é, na prática, um reconhecimento da perseguição jurídica que ele sofreu por juiz e procuradores com intenções de entrar para a política. Não me parece razoável imaginar que um líder direitista como Macron estenderia o tapete vermelho para um ex-presidente latino-americano condenado por corrupção. No Brasil, não há esse reconhecimento na mídia mainstream.”

Enquanto a repercussão na Europa era intensa, a Globo, a velha Globo de guerra, já em processo de construção de um novo mito para enfrentar Lula nas urnas, dedicou “generosos” 30 seguidinhos para resumir toda viagem.

O baixo clero, os ministros de Bolsonaro, diversos sopradores de microfone, a imprensa oficial e as milícias digitais, os fundamentalistas pentecostais,  se encarregaram de propalar com maior intensidade, toda sorte de impropérios adjetivos e questionamentos desabonadores contra Lula. Debalde esforço, pois lula está igualzinho a fermento, quanto mais batem, mais ele cresce.

Não iremos citar os nomes dos arautos da corte da recessão, do desemprego, da falta de escola, de moradia. A história se encarregará de conduzi–lós para os seus depósitos de lixo.

 

Consulta: https://theintercept.com/2021/11/20/viagem;
https://valor.globo.com/politica/noticia/2021/11/22;
https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2021/11;

Fotografias:
https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2021;

https://pt.org.br/ha-16-anos-lula-lancava-a-carta-ao-povo-brasileiro;
https://www.dw.com/pt-br/estoumuihttps:
//g1.globo.com/mundo/noticia/2021/11/17/emmanuel-macron-se-reune-com-lula-em-palaciopresidencial
ehttps://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/11/19/premie-da-espanha-se-reune-com-lulam-paris;
https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2021/11;

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