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Cidadã Cajazeirense, Lilia das Mangueiras ou Maria de Jesus?

 

Se algum visitante chegasse à querida cidade de Cajazeiras no alto sertão da Paraíba e por acaso perguntasse por Maria de Jesus, provavelmente poucos saberiam de quem se tratava. Todavia se perguntasse por Lilia das Mangueiras, todos saberiam não somente identificá-la e com a prestimosidade característica do sertanejo não se furtariam a leva – lo até ela, no seu local de trabalho, ou até mesmo na sua residência anexa.

Nascida Maria de Jesus, na cidade paraibana vizinha de São José de Piranhas, ou Jatobá como queiram os filhos da terra, a menina moça Maria de Jesus aos seus 17 anos, descendente de alemães, ainda menina se obrigou a fugir de casa com medo de enfrentar uma gravidez prematura tendo de encarar pais conservadores que de certa forma apoiavam a filha, mas mesmo assim não poderiam manter em casa uma filha “perdida.” Esse era um adjetivo preconceituoso que caracterizava à época uma mãe solteira, sobre a qual desabaria toda censura sem a menor solidariedade quer para com ela, a  mãe, quer para com o filho, um inocente já nascido sob o estigma cruel de bastardo, para não usar adjetivos mais depreciativos e chulos. O destino golpeou Lilia profundamente arrebatando – lhe o filho recém-nascido e posteriormente um outro filho adolescente  que morreu em decorrência de um choque elétrico.

Pobre, desqualificada e imatura, Lilia deparou-se com uma realidade muito dura, tendo de manter-se a si própria e ao filho recém-nascido. Não encontrando  outra alternativa teve de seguir a senda difícil da prostituição, em forma de comércio para o qual era vocacionada e passou a mercantilizar o próprio corpo, única mercadoria de que dispunha.

Instalou – se na periferia da Cajazeiras da época, praticamente na zona rural onde os terrenos eram mais baratos e por orientação do pai, lá conseguiu construir e montar o seu negócio,  e  em anexo a ele   a  sua casa de morada, ou seja, o seu lar.

O prostíbulo era um misto de bar/ restaurante/casa de shows e abrigava mulheres com história de vida assemelhadas à sua. Elas moravam no próprio local, que era frequentado por um público masculino de melhor poder aquisitivo, formado por  comerciantes, fazendeiros e funcionários públicos, os quais  de certa forma protegiam Lilia e as suas companheiras de trabalho. Cantores famosos que se exibiam em Cajazeiras, findos os shows  não iam embora sem antes  visitar a casa de Lilia e dar uma canja aos presentes: Alcides Gerardi, Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto e Altemar Dutra são exemplos que servem para dar a real dimensão do Bordel de Lilia.

Na cidade era vista com desconfiança, pelas esposas puritanas que viam na casa de Lilia um antro de promiscuidade e uma ameaça à integridade dos lares, muitas vezes conspurcados por outros fatores, embora que algumas delas, por  vezes fossem buscar os maridos.

Havia e ainda há, um tribunal informal em cada pequena cidade do interior, para julgar o comportamento de outrem e Cajazeiras não era exceção. Faziam julgamentos sumários   esquecendo-se das palavras  do Cristo, narrada em Mateus cap. 7 verso 5:  ……“Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão” ..….

Lilia era bonita e vaidosa sim, vestia-se muito bem, usava joias caras para realçar sua beleza germânica gratinada pelo sol do sertão e talvez praticasse o evangelho do Cristo com mais efetividade do que muito(a)s do(a)s puritano(a)s que se arvoravam de juízes para condena-la.

Conheci um jovem de classe pobre que, com dinheiro contado, certa noite de final de semana foi à casa de shows de Lilia, exercendo o seu direito ao lazer. Em lá chegando bebeu, dançou, divertiu – se até onde o dinheiro contado permitiu e, ao final ficou sem carona para o retorno à casa dos seus pais. Tentou um taxi entre aqueles que tinham como ponto a rua Juvêncio Carneiro e devido ao avançado da hora e a incerteza da sua capacidade de pagamento, não obteve êxito, tomando a decisão de voltar a pé  para sua casa numa distância entre  quatro a cinco quilômetros.

Lilia acompanhou a angustia do jovem e após perguntar-lhe onde morava deu o veredicto: “você não vai sair daqui a pé uma hora dessas, correndo risco de ser vítima de uma maldade!”

Ali falava o coração sofrido de uma mãe que assistira a morte de dois filhos, projetando nos pais do rapaz a dor que ainda dilacerava  seu coração.

O jovem contra argumentou mas foi desarmado por Lilia com uma ordem enérgica: ..” você vai dormir aqui e como todos os quartos estão ocupados você vai dormir no meu quarto e na minha cama  comigo e não vai pagar nada. Terá apenas de assumir o compromisso de não se insinuar para maiores intimidades. Ela tinha na pessoa de um radialista famoso da cidade, o seu amor ausente.” …

O jovem ficou tão admirado e grato com essa atitude surpreendentemente generosa e humana  de Lilia que, surpreso, deitou-se quieto ao lado dela como se a sua mãe fosse. Ao acordar cedinho, agradeceu sensibilizado aquele gesto humanitário, beijou respeitosamente as suas mãos e saiu além de agradecido, muito admirado com a sua (dela) atitude solidária.

São muitas as histórias generosas de Lilia e nesse espaço seria impossível enquadra-las. Entendemos que as suas boas ações, no seu somatório, contribuíram para o conceito respeitoso que se construiu em torno do seu nome legendário, até por parte das puritanas damas do baronato da terra do Padre Ignácio Rolim, que intimamente admiravam e respeitavam a ousadia independente de  Lilia das Mangueiras.

No ano de 1998 o atuante vereador de então, meu companheiro e amigo Severino Dantas, propôs que lhe fosse concedido o título de cidadã cajazeirense para consagra-la como filha honorária da terra que ela amava e à qual tinha serviços  prestados no campo do entretenimento.

A atitude de Severino Dantas foi alvo da sanha da Tradicional Família Cajazeirense – TFC, que ofendida exerceu uma pressão política maior do que a própria pressão hidráulica e a proposta sofreu uma goleada de 14 votos a 1, onde o único voto favorável foi o do próprio Severino Dantas. O fato, além de repercutir para além das fronteiras do município, suscitou uma enorme polêmica pois, a voz rouca das ruas não foi ouvida e ecoou insatisfeita através de uma sondagem popular em que a concessão do título foi aprovada por   65. % da população.

 

A iniciativa do companheiro Severino Dantas apoiada pelo líder emergente e atual Deputado Jeová Vieira Campos, ganhou espaço na imprensa nacional e uma inserção significativa no programa Fantástico da Rede Globo de Televisão que entrevistou Lilia, registrando ainda um título informal que lhe foi entregue pelas mãos de Jeová e ainda hoje, vez por outra é reaberto.

Finalmente  no dia 20 de abril de 2021 Lilia das Mangueiras aos 83 anos de idade encerrava seu ciclo vital,  depois de uma vida razoavelmente longa em que teve de enfrentar o preconceito permanente dos “puritanos” sem que muitos deles sequer conhecessem o seu sortilégio.

Existiram muitas Lilias das Mangueiras de sorte e destino diverso da “Dama do Cassino” que inscreveu com muito amor, o seu nome nos anais da terra que ensinou a Paraíba a ler.

E ainda há quem paradoxalmente defina as profissionais do sexo como mulheres de vida fácil.

 

 

 



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5 COMENTÁRIOS

  1. A vida das profissionais do sexo não é nada fácil, é muito difícil e sacrificada. Elas enfrentam diriamente o preconceito, a discriminação, a injustiça e a vergonha. Infelizmente, a sociedade é rápida em julgar e condenar sem saber as causas que levaram a tal vida. Como disse Caetano Veloso: "Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é."

  2. Certamente Lilia das Mangueiras tinha no coração marcas profundads a partir de uma gravidez prcoce sem nenhum apoio, excecrada por todos, o desamor, a profissao penosa, a perda dos filhos. Mesmo assim enfrentrou a vida mas sabia ser generosa. Tiro o chapéu para Lilia das Mangueiras e para todas as profissionais do sexo e conheço muitas que sabem viver mesmo nos seus limites o MANDAMENTO DO AMOR (Jo 13,34)

  3. A história de Lilia merece todo nosso respeito. Mulheres como ela foram julgadas e sentenciada muitas vezes por terem amado um homem irresponsável que ao gerar um filho, não assume sua coparticipação numa gestação,cabendo à mulher a opção de criar ou em muitos casos, abortar um filho que foi por dois gerado. E, ainda, em tempos passados, mas ainda hoje, ouvirmos o julgamento a qualificando de: ou "mãe solteira ou de prostituta".E se o pai for de família "tradicional" coitada dessa mulher e da criança! Parabéns Dr.Joao por essa linda homenagem. Que Lilia seja abençoada em sua nova morada. Certamente, lá ela vai ouvir: Quem vai atirar a primeira Pedra?

  4. Toda História tem dois lados, ao lado da mulher cabe a dor do abandono,do preconceito,do julgamento e da condenação.Enquanto isso ao lado masculino cabe o pouco caso, o pouco valor ao seu ato de
    inconsequência, até hoje
    embora muita coisa mudado ainda existem muitas Lílians. Até quando?

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