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Ditadura nunca mais, as tantas formas de resistência

 

No dia de ontem, completou 57 anos do golpe militar de 1964. Em um país que sofre tensões que se assemelham aquelas ocorridas naquele período, tornou este último 31 de março mais melancólico e pavoroso como não se via há muito tempo. Para mim, pessoalmente, é um dia de celebração, não por este ato odioso, mas por um outro motivo bem diferente, especialmente este ano, meu pai chega nesta mesma data a sua sétima década de vida.

Nessa mistura entre a alegria do 70º aniversário do patriarca da família, e na preocupação que me toma pelo caminho tortuoso que se encontra este país, me debrucei nas reflexões de que meu pai vivenciou por toda época da ditadura militar, desde sua infância até sua maturidade.

Meu querido pai tem uma origem muito humilde. Nasceu e se criou nas áreas mais pobres do bairro de Cruz das Armas, na cidade de João Pessoa. Sua infância foi marcada pela necessidade de trabalhar desde cedo, auxiliando minha avó na entrega das trouxas de roupa que ela lavava para terceiros, da falta de dinheiro que levava a fome e humilhação. Além disso, sofria com a violência doméstica por parte da minha avó, que descarregava suas próprias frustações nele e na minha tia.

No dia que completou seus 12 anos de idade, a ditadura militar foi instaurada. Naquele momento, meu pai ainda quase um analfabeto, continuava a carregar latas de água na cabeça vindas de um chafariz distante de onde morava, pois não havia o mínimo de abastecimento d’água na periferia da capital paraibana. Tomar água do rio Jaguaribe, mesmo aparentemente mais conservado, era certeza de se contaminar com todos os parasitas que estudamos nas aulas de ciência.

Aos 16 anos, em 1968, o AI-5 era instaurado no país. Também foi quando papai conseguiu seu primeiro emprego formal na prefeitura municipal de João Pessoa: tornara-se um agente de limpeza urbana (gari, como era conhecido antigamente). Mas aquele jovem pobre sabia que não poderia terminar seus dias ali, precisava se transformar, promover sua própria revolução. Determinado em continuar seus estudos a luz da lamparina, depois de um dia cansativo de labuta junto ao caminhão do lixo, ele conseguiu sair de um semianalfabeto, e galgou seu ginásio, depois o científico na antiga Escola Técnica da Paraíba (hoje IFPB), e por fim alcançou a faculdade de administração pela UFPB. Neste meio do caminho, conseguiu transferência do setor de limpeza urbana, para a Secretaria Municipal de Administração, onde trabalhou até se aposentar como servidor público.

Meu pai não participou do movimento estudantil, sua prioridade era ajudar sua mãe e sua irmã a sobreviverem, e até onde sei, não teve nenhum jovem amigo desaparecido, mas vivenciou sim, toda a angústia da repressão que sua geração sofreu. Fato é, que cresci nos anos 80 (os anos “mais leves”), em um ambiente onde a trilha sonora era composta por todos aqueles e aquelas que se manifestaram contra o regime ditatorial imposto: Caetano, Gil, Chico, Gal, entre outros. Preciso enfatizar que o álbum Saudade do Brasil de Elis Regina, talvez fosse o mais tocado.

Penso que meu pai tinha todos os requisitos para um alienado: ausência de uma figura paterna para orientá-lo, pouca instrução até a juventude, o peso por viver uma vida miserável associada a falta de esperança em seus governantes. Mas pelo contrário, da sua forma ele resistiu: se tornou um homem letrado – se formou também em licenciatura em História, e lecionou até os 65 anos, garantindo a várias gerações uma análise crítica daquele momento antidemocrático que havia sido superado. Na secretaria de administração municipal chegou a ser diretor, onde coordenou toda a regularização trabalhista dos funcionários públicos municipais quando a Constituição Cidadã foi instaurada em 1988. Nos anos 90, era comum papai ser parado na rua por uma pessoa que agradecia a ele seus feitos. Descobri depois que meu pai dava um prazo de alguns meses para outro desafortunado semelhante a ele fazer um supletivo, e conseguir habilitação para se manter ocupando o cargo a qual trabalhava, evitando de ser posto para fora do emprego por não ter os requisitos mínimos de formação.

 

Outra grande revolução que esse homem realizou foi a criação dos seus dois filhos. Nunca poupou esforços para dar educação, cultura e amor – mesmo nunca tendo tido uma figura paterna para servir de exemplo a ele. Toda a luta deste homem, caro leitor, me permite hoje ter a capacidade de escrever esta coluna semanal.

Celebremos o espírito revolucionário daqueles homens e mulheres que combateram os anos duros da ditadura na busca de um país melhor, sejam os que se tornaram conhecidas por todos nós, sejam os anônimos, como Seu Marcos Antônio da Silva, meu herói, meu amigo, meu amado pai.

 

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