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Mulheres pioneiras: Chiquinha Gonzaga e Nair de Teffé

Em 1910, realizou-se, no Brasil, a primeira eleição presidencial em que houve efetiva participação popular. Disputaram a pleito o marechal Hermes da Fonseca, o candidato apoiado pelo governo, e pela oposição o senador baiano Ruy Barbosa, cuja campanha eleitoral passou para a história como a “Campanha Civilista”. Naqueles tempos, de eleições feitas “a bico de pena”, era praticamente impossível a vitória de um candidato oposicionista. O vencedor, obviamente, foi Hermes da Fonseca, que era sobrinho de Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente da República.

Caricatura de J.Carlos
Revista Careta, FBN

O governo de Hermes da Fonseca ficou marcado pela influência que o senador gaúcho Pinheiro Machado exercia sobre o presidente, ao ponto de existir um imenso anedotário, registrado pela imprensa da época, sobre a interferência de Machado no governo. Em uma dessas anedotas, coletada pela historiadora Isabel Lustosa, publicada em uma revista carioca, Hermes confessava ao vice-presidente Venceslau Brás “- Olha Venceslau, O Pinheiro é tão bom amigo que chega a governar pela gente”.

Hermes da Fonseca foi o mais ridicularizado dos presidentes em toda a nossa história republicana. O marechal era, frequentemente, objeto de caricaturas e charges jocosas, publicadas em revistas e jornais, marchinhas satíricas e apelidos. Um dos temas usados para ironizar o presidente era a sua suposta pouca inteligência. O escritor paraibano José Vieira, que então cobria como jornalista as sessões da Câmara dos Deputados, relatou no seu livro “A Cadeia Velha” um episódio que presenciara e que representava o conceito que alguns políticos tinham de Hermes da Fonseca: “Ao fim da sessão, explicando-se, em conversa, de não apoiar a candidatura Hermes, Cincinato (Braga, deputado por São Paulo) exclamou para alguns colegas: – Fazer Presidente da República um homem que diz: “Hão de verem!…”. 

Outra má fama que o marechal Hermes carregava, era a de ser uma pessoa extremamente azarenta, o que o levou a ser apelidado pela imprensa de “Dudu, o Urucubaca”. E, dentre vários episódios que confirmavam a reputação de infortunado do presidente, estava o falecimento, no início do governo, da sua mulher, D. Orsina, mãe dos seus sete filhos. 

 

Caricatura de J. Carlos, Revista Careta, FBN

Fazia pouco mais de um mês que Hermes da Fonseca ficara viúvo, quando resolveu ir a Petrópolis, para tentar espairecer a dor da perda da esposa. Na estação ferroviária, entre os que esperavam a chegada do presidente, estava um antigo barão do Império, acompanhado da sua jovem e bonita filha. E, é ela quem conta o que ocorreu na estação, em entrevista dada quando já tinha 88 anos, mais de sete décadas depois do ocorrido:

“Naquela época, a principal diversão das moças da cidade era ir à estação ver a chegada do trem do Rio. No dia que o marechal Hermes chegou, papai foi recebê-lo e levou-me com ele. O presidente era um homem muito simples. Tinha acabado de ficar viúvo e não queria chamar a atenção. Dispensou o trem especial e desembarcou acompanhado somente por um ajudante de ordens. Estava cabisbaixo e todo vestido de preto. Papai apresentou-me a ele. O marechal pegou minha mão e ficou uma porção de tempo segurando-a e olhando para mim. No dia seguinte, o fato já era comentado pelos jornais”.

 

Revista Careta, FBN

A paixão fulminante do sorumbático marechal por aquela moça, que se chamava Nair de Teffé Von Hoonholz, virou escândalo. O pouco tempo da viuvez e a diferença de idade entre eles (o presidente tinha mais do que o dobro da idade da moça) eram as razões, alegadas pela família de Hermes da Fonseca, em desaprovação ao casamento. Mas, o que mais chocava as provincianas sociedades de Petrópolis e do Rio de Janeiro da época, era a diferença de perfil entre os dois enamorados. 

 

O marechal Hermes da Fonseca era um homem de hábitos simples, uma pessoa sem qualquer refinamento cultural, que poderia até ser considerada tosca.  Nair de Teffé, ao contrário, era muito inteligente, viajada, morara mais de dez anos na Europa, tocava piano e, o que era imperdoável naqueles tempos, sabia tocar, também, violão. E, além do mais, era pintora e desenhava caricaturas, tendo sido a primeira mulher a publicá-las na imprensa brasileira, com o pseudônimo de Rian (seu nome, ao contrário). Mas, apesar de toda a oposição à união, eles se casaram.

 No dia 26 de outubro de 1914, faltando menos de um mês para o término do mandato presidencial do marechal Hermes, a primeira-dama Nair de Teffé resolveu fazer, à noite, no Palácio do Catete, uma recepção com a presença do corpo diplomático. A festa, como já ocorrera algumas vezes, iniciava com uma parte musical. 

No dia seguinte ao evento, a Gazeta de Notícias noticiava a recepção no Catete:

“A ultima recepção do Sr. presidente da Republica e Mme Hermes da Fonseca. Das 9h á meia noite, os vastos salões do palacio do Cattete, fartamente illuminados, estiveram repletos de uma sociedade fina, elegante e escolhida. Foi organizado um bellissimo concerto”

As músicas do concerto foram executadas pelos renomados músicos Arthur Napoleão, Leopoldo Duque-Estrada e Ernani de Figueiredo, e também pela primeira-dama do país. A Gazeta de Notícias publicou, na íntegra, o programa do concerto. Tinha peças de Lizt, Arthur Napoleão, Ernani de Figueiredo e a Fantasia do Hino Nacional, de Gottschalk. No meio do programa, estava o “Corta-Jaca”, em “solo de violão de Mme. Nair Hermes da Fonseca”.

O jornal oposicionista A Rua também noticiou a recepção do Catete, com uma manchete na sua primeira página que continha uma explícita crítica ao presidente (A Última Dele), estampando a foto do programa das músicas que foram executadas no evento palaciano, dando destaque ao “Corta-Jaca”:

“Fez-se musica” e em grande escala. Houve piano, canto, bandurra e até violão… Ao som deste ultimo instrumento tocou-se a festejada e dengosa produção da maestrina Francisca Gonzaga – o “Corta-Jaca”. Os jornaes desde esse dia não tem cessado de criticar, de muitos e differentes modos, a inclusão do tango magnífico no programma de uma festa diplomatica no Cattete. O “Corta-Jaca” andou tanto tempo pelos arraiaes da pandega e da populaça que se desmoralizou por completo, tornando-se indigno do Palacio das Aguias…”

 

O “Corta-Jaca” era uma música do gênero maxixe, classificada, na época, como tango brasileiro. A canção, também conhecida como “Gaúcho”, fora composta, em 1895, para uma revista musical de teatro, pela maestrina Chiquinha Gonzaga, a primeira mulher brasileira a se destacar no campo da música. A inclusão do “Corta-Jaca” na recepção do Catete havia sido sugerida à primeira-dama pelo poeta Catulo da Paixão Cearense, sob o argumento de que nas festas palacianas não se tocava música popular feita no Brasil.

O maxixe vinha recebendo críticas de setores mais conservadores da sociedade que o consideravam uma dança atentatória aos bons costumes e que deveria ser proibida aos cristãos, o que tinha levado a que, no início daquele ano de 1914, o Cardeal Arcoverde, Arcebispo do Rio de Janeiro viesse a condenar aquele gênero musical. A irreverência carioca aproveitou-se da condenação do Cardeal ao maxixe para, no carnaval do mesmo ano, cantar:

“Se o Santo Papa soubesse / O gosto que o tango tem, / Viria do Vaticano / dançar maxixe também”

Dias depois da repercussão do “Corta-Jaca” na recepção no Palácio do Catete, o senador Ruy Barbosa, conforme publicou a Gazeta de Notícias, subiu à tribuna do Senado, brandindo um exemplar do jornal “em que foi publicado o programa do concerto do palácio do Cattete em que figura o corta-jaca”, para denunciar o que seria, para ele, a falta de compostura do governo da República. 

“De quem a culpa se em toda cidade se fala no ‘corta-jaca’? O publico não dava attenção a essa dança considerada das mais baixas, das mais chulas, das mais grosseiras, irmã gemea do ‘cateretê’, do ‘miudinho’ e do ‘maxixe’. Foi o governo quem a celebrizou levando-a para as recepções do Cattete, cantando-a perante o corpo diplomatico com honras de musica de Wagner”.

O nefasto e perigoso maxixe “Corta-Jaca” que, no conceito do senador e jurista baiano, seria uma “das mais baixas, das mais chulas, das mais grosseiras” danças existentes no país, com poder para abalar os alicerces da República, era, naquela época, uma canção muito popular e já tinha três gravações em disco, uma delas pela Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. Embora a música tivesse sido executada no Catete pela primeira-dama Nair de Teffé em solo de violão, o “Corta-Jaca” tinha uma letra, feita pelo ator Machado Careca, o que havia contribuído para a popularização daquele maxixe.

“Corta-Jaca”

“Neste mundo de misérias

Quem impera é quem é mais folgazão

É quem sabe cortar a jaca nos requebros

De suprema, perfeição, perfeição.

É quem sabe cortar a jaca nos requebros

De suprema, perfeição.

 

Ai, ai, como é bom dançar, ai!

Corta-jaca assim, assim, assim Mexe com o pé!

Ai, ai, tem feitiço tem, ai!

Corta meu benzinho assim, assim!”

                                          

A Rua 14.11.1914 – FBN – Hermes da Fonseca e Nair de Teffé

 

A apresentação do “Corta-Jaca” no Palácio do Catete marcou a entrada da música popular feita no país, nos salões da retrógrada e colonizada elite brasileira, como se deduz pela grande reação provocada pela presença da peça no Catete, expressa na imprensa da época e traduzida, na tribuna do Senado, por Ruy Barbosa, um dos seus representantes mais conservadores, que, uma década antes, já havia se posicionado contra a vacina obrigatória, instituída pelo médico Oswaldo Cruz, como forma de debelar os surtos endêmicos de varíola e peste que assolavam o Rio de Janeiro.

A presença do “Corta-Jaca” no Palácio do Catete uniu, na derrubada dos padrões e costumes vigentes na carcomida sociedade do país, as duas mulheres brasileiras mais revolucionárias daquele tempo: Chiquinha Gonzaga e Nair de Teffé. 

                                                                                                                   

Chiquinha Gonzaga morreu, em 1935, aos 88 anos

 

 Nair de Teffé, em 1991, aos 95 anos. 
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5 COMENTÁRIOS

  1. A irreverência e a coragem feminina deu liberdade as mulheres do nosso tempo que ainda lutam pelo seu espaço, embora, muito já foi conquistado, ainda precisamos nos impor para mostrar a capacidade que temos nos maia diversos setores.
    Viva Chiquinha Gonzaga e Nadir de Teffé.

  2. Um texto repleto de informações que descreve grandes mulheres e que nos remete a reflexões atemporais. Escutei por uma grande mulher que não estamos na luta pela igualdade com os homens, mas sim pela equidade e é a mais pura verdade, pois pela própria natureza somos diferentes fisiologicamente e emocionalmente.

  3. Vale a pena conhecer os costumes a mentalidade de uma época observando -se porém que o preconceito contra a mulher pouco evoluiu para melhor. O texto é valioso em informação. Ao relatar a absoluta falta de cultura do Presidente Hermes da Fonseca nos dá a conhecer que esta ê uma prerrogativa dos presidentes fardados

    T

  4. Flávio Brito, inegavelmente é um pesquisador e alia nesse artigo uma homenagem a duas grandes mulheres, inseridas num contexto histórico hostil ao que elaboravam, produziam e nublicavam e publicisavam.
    A presença anódina do presidente Hermes da Fonseca, mostra claramente que a política do café com leite que revezava presidentes paulistas e mineiros era a afirmação do que sempre falamos, o poder econômico já mandava naquela época.
    Hoje em dia, de forma discreta e camuflada ou de forma acintosa como a agora, eles exercem o poder., se preciso a manu militare.

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