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Celso Furtado e um filme polêmico

No início dos anos 1960, o Nordeste pegava fogo, mais precisamente a Zona da Mata de Pernambuco e da Paraíba, onde se concentrava a região canavieira e também a principal atuação das Ligas Camponesas, associações de trabalhadores rurais que vinham sendo criadas, desde a segunda metade da década anterior, em defesa da reforma agrária e de melhoria nas condições de trabalho no campo. 

Preocupado com a grande disparidade de renda e desenvolvimento existentes entre o Nordeste e o Sudeste e Sul do País, o Presidente Juscelino Kubitscheck decidiu criar, em 1959, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE, um órgão para planejamento e planificação das ações governamentais na região. A criação da SUDENE sofreu forte objeção de grande parte da bancada nordestina, na Câmara e no Senado, que era ligada aos interesses latifundiários.

Para chefiar a SUDENE foi escolhido Celso Furtado, um jovem economista paraibano que fizera carreira no exterior, com respeitável prestígio acadêmico, e que já havia publicado, na época, o seu livro clássico “Formação Econômica do Brasil”. Na equipe de Furtado, outro paraibano ocupava cargo de destaque, o caririzeiro de Cabaceiras, Antônio Juarez Farias, que era o responsável pela área de industrialização do órgão. 

As medidas estruturantes que eram propostas por Furtado eram rechaçadas por aqueles grupos políticos que viam fugir das suas mãos as ações paternalistas com que vinham controlando, há décadas, seus redutos eleitorais, através da atuação do carcomido Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – DNOCS.

A maior oposição à SUDENE tinha origem nos representantes dos “industriais da seca”, expressão que fora forjada pelo jornalista e escritor Antônio Callado em reportagem que escreveu para o jornal carioca “Correio da Manhã”. Esses opositores da SUDENE eram liderados, no Congresso, pelo senador paraibano Argemiro Figueiredo, que, na tribuna do Senado, chegou a acusar Celso Furtado de querer “bolchevizar o Nordeste”. 

Apesar da oposição dos parlamentares nordestinos à SUDENE, havia por parte da população um grande apoio ao órgão, como relata o próprio Celso Furtado no seu livro “A Fantasia Desfeita” (Paz e Terra, 1989). 

 “Pude constatar, não sem alguma surpresa, de que a ideia de que um novo Nordeste começava a ser construído começara a penetrar no espírito de pessoas dos mais variados segmentos sociais. De todos os lados vinham mensagens de encorajamento […] No Recife, o comércio fechou em sinal de protesto […] O estudantes ‘enterraram’ o senador Argemiro de Figueiredo e o proclamaram persona non grata na cidade”. 

  

Nos seus “Diários Intermitentes”, publicados, em 2019, pela editora Companhia das Letras, Celso Furtado escreveu:

“um senador da República, de sua tribuna, me denunciara ao país como elemento perigoso […] Na luta pela Sudene talvez o episódio mais interessante haja sido esse das acusações pessoais a mim. As acusações visavam me apresentar como elemento socialmente perigoso, como ‘comunista’. As acusações não se baseavam em atos meus, nem na orientação geral da Operação, nem em escritos meus, em nada de real”.

 

Vivia-se o tempo da Guerra Fria. Estados Unidos e a União Soviética disputavam a influência sobre os países que eram chamados de “satélites” das duas potências. Os raios da vitória, em 1959, da revolução comandada por Fidel Castro em Cuba alcançavam toda a América Latina. Os Estados Unidos se preocupavam com o surgimento de novas Cubas e o Brasil, pelas suas dimensões continentais, era objeto da especial atenção dos norte-americanos. 

Dentre as medidas para diminuir o ambiente de quase convulsão social que existia no Nordeste do Brasil, o presidente norte-americano John Kennedy, que assumira o governo em 1961, criou um programa assistencial de ajuda às regiões mais carentes, chamado Aliança para o Progresso. Logo após a sua posse, o irmão mais novo do presidente Kennedy, o futuro senador democrata Edward “Ted” Kennedy, esteve em Pernambuco, visitando a sede da primeira Liga Camponesa, localizada no engenho Galileia, no município de Vitória de Santo Antão. 

Celso Furtado havia sido mantido na Superintendência da SUDENE por Jânio Quadros e por João Goulart, os presidentes que sucederam a Juscelino Kubitscheck. Em meados de 1961, segundo a narrativa de Furtado em “A Fantasia Desfeita”:

“apareceu no Recife uma jornalista norte-americana, da cadeia de rádio e televisão ABC. Helen Jean Rogers era uma personalidade relacionada com o círculo mais íntimo da Casa Branca e que seduzia tanto por sua beleza como pela audácia com que abordava temas controvertidos. Fizemos boa camaradagem e dei-lhe todo o apoio para que produzisse um filme sobre o Nordeste capaz de sensibilizar a opinião pública norte-americana”. 

Helen Rogers (de chapéu), a diretora do filme, de braços com o deputado Julião.

Convidados pelo presidente John Kennedy, naquele mesmo ano, Celso Furtado e Juarez Farias viajaram aos Estados Unidos para um encontro na Casa Branca no qual seriam discutidos os planos norte-americanos para uma ajuda ao Nordeste. 

Celso Furtado era considerado, pelos que faziam oposição à SUDENE e pelos grupos mais conservadores, como um comunista (o que não tinha qualquer procedência). Ao mesmo tempo, o economista era, também, bombardeado por parte da esquerda, que lhe atribuía a pecha de “entreguista” e “agente de Wall Street”, em razão dos contatos que ele vinha mantendo com os norte-americanos.

Durante a permanência em Washington, os representantes da SUDENE, foram convidados, pelo presidente Kennedy, para assistir, em uma sessão especial realizada na Casa Branca, à exibição daquele documentário dirigido pela jornalista Helen Rogers, que havia sido filmado, em Pernambuco, pela rede ABC. 

                                   
O filme mostrava a situação do Nordeste brasileiro como se a região já fosse uma nova Cuba prestes a explodir, fomentando, assim, o medo de um levante revolucionário no Brasil nos espectadores dos EUA que viessem a assistir à película. Segundo Celso Furtado, o documentário de média-metragem intitulado “The Trouble Land”, “passou em horário nobre na televisão americana, com extraordinária repercussão”.

Celso Furtado descreve, no seu livro “A Fantasia Desfeita”, uma das cenas mais marcantes do documentário, um diálogo entre a diretora do filme e um “grande senhor do açúcar” acerca de manifestações que estavam ocorrendo na região, motivadas pela situação social dos trabalhadores do campo:

“Não dê motivos a essa gente. Aqui todos têm um trabalho e os que querem trabalhar estão satisfeitos”. Miss Rogers insiste: “tem havido manifestações de descontentamento e a coisa pode se agravar”. O latifundiário levanta a voz e diz: “Neste caso eles terão o que merecem, a força”. Empolga a pistola que trazia à cintura e diz confiante: “Olhe aqui o que terão”. Dá vários tiros para o ar e ri com estridência. Tiros e risos se misturam enquanto a câmera gira para envolver o belo jardim da residência do senhor-pistoleiro.   

Celso Furtado considerava que o enfoque dado pelo filme à realidade nordestina havia sido útil para se conseguir a adesão da opinião pública norte-americana para as ações da Aliança para o Progresso, que dependiam de aprovações legislativas. Mas, não era somente isso o que o documentário pretendia alcançar, como o tempo mostraria.

O documentário “Brazil: The Troubled Land” (A Terra Conturbada) tinha outras finalidades que, na época, Celso Furtado não percebeu.  A forma da abordagem da situação do Nordeste brasileiro, feita pelo filme, era, também, uma maneira de preparação da opinião pública norte-americana para um possível e provável apoio dos Estados Unidos a um golpe contra o governo do presidente João Goulart, que, então, já se gestava no Brasil. Apoio que, efetivamente, veio a ocorrer, em 1964, como demonstram, largamente, os documentos oficiais norte-americanos, referentes ao período, que foram, posteriormente, liberados e disponibilizados para consulta por pesquisadores e historiadores. 

Durante quase cinco décadas, o documentário “Brazil: The Troubled Land” esteve “desaparecido”. Conforme o relato de Celso Furtado:

 “esse filme não pôde passar na televisão brasileira. Segundo fui informado, o Conselho de Segurança Nacional o julgou inconveniente. Seguramente o consideravam ‘subversivo’”.

Há alguns anos, se descobriu que o documentário, de pouco mais de 25 minutos, estava disponível no acervo da Biblioteca da Universidade de Indiana, nos EUA, mas dependia, para sua reprodução, da autorização da empresa McGraw Hill, detentora dos direitos do filme. Com a democratização, que hoje existe, do acesso às informações o documentário foi, finalmente, liberado para exibição e se encontra disponível, atualmente, no youtube. É uma valiosa amostra daqueles tempos conturbados. 

O mais interessante de tudo isso é que, com a divulgação do documentário e a liberação de alguns arquivos norte-americanos referentes à época, se descobriu que a diretora do filme, Helen Jean Rogers, a insinuante loura, bem relacionada na Casa Branca, que tirou até foto de braços dados com o incendiário deputado pernambucano Francisco Julião, era, na verdade, uma agente da CIA, a agência de inteligência dos EUA, e, já estivera, anos antes, no Brasil, como “estudante”, tentando se infiltrar no movimento estudantil e na União Nacional dos Estudantes – UNE. 

Durante toda a sua vida, Celso Furtado nunca teve qualquer vinculação com o Partido Comunista. Com a chegada dos militares ao poder, em 1964, fez parte da primeira lista dos cassados, perdendo seus direitos políticos por dez anos, e foi demitido “a bem do serviço público”. Poucos dias depois do golpe militar, ele escreveu no seu diário:

“Sinto-me um pouco como Édipo em Colono, vítima de uma fatalidade, mas com a paz no espírito. Minha grande paixão foi sempre o trabalho teórico. Agora terei que seguir nessa direção, pois não me resta outro caminho. Estou pensando em ir para alguma universidade no estrangeiro […]”.

Inicialmente, nos Estados Unidos, na Universidade de Yale, e, depois na França, na Universidade de Paris, na Faculdade de Economia da Sorbonne, na École des Háutes Études en Sciences Sociales, e como professor visitante nas universidades de Cambridge, na Inglaterra, e de Columbia, nos EUA, e em vários outros países, em duas décadas de exílio Celso Furtado construiu um brilhante carreira acadêmica.

Os livros do economista paraibano foram, e continuam a ser, traduzidos para vários idiomas, entre eles, o chinês e o persa. Celso Furtado, que morreu em 2004, é considerado um dos principais pensadores sociais do século 20.

 Este texto homenageia o paraibano Antônio Juarez Farias, falecido na semana passada, que, ao lado de Celso Furtado, participou da primeira diretoria da SUDENE, responsável pela área de industrialização do órgão.

 

 

 

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