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AS DEPOSIÇÕES E O PACTO DOS CORONÉIS NO CARIRI CEARENSE.


Padre Cicero Romão Batista

 Por: Cristina Couto.


 Bélem manda no Crato,

 Padre Cicero no Juazeiro,

 em Missão Velha Antonio Róseo,

 em Barbalha Neco Ribeiro,

 de Lavras Fideralina quer

 mandar no mundo inteiro.(Cancioneiro popular)

Em meados do Século XIX, o Cariri cearense era um verdadeiro barril de pólvora, a disputa por poder e a tensão provocada pelo clima político que se arrastava desde 1848, culminou na queda do Partido Liberal e a ascensão do Partido Conservador que ao assumir o poder causou uma série de conflitos em toda Província. O assassinato de Roberto Francisco de Melo, em Missão Velha, suscitou outras séries de questões violentas.

Os anos seguiram tensos, e, em 19 de fevereiro de 1851 foi dissolvida a Câmara dos Deputados, uma nova eleição aconteceu em meio a conflitos violentos em Crato e Missão Velha. Em Exu, os liberais que lá estavam refugiados foram perseguidos, e, em meio, ao encalço morre na Serra do Araripe, o tenente Antônio Carlos da Silva Jataí, em consequência de ferimentos à bala. 

No dia 08 de setembro de 1856, um acontecimento sangrento, e, de bastante repercussão, deu-se por ocasião de eleições de membros da Câmara Municipal e juízes de Paz, no ambiente da Matriz de Nossa Senhora da Penha, no Crato, a força pública atacou os eleitores, visando atingir a elementos do Partido Liberal. A agressão foi comandada pelo próprio delegado substituto em exercício, José Ferreira de Menezes, e, o ataque resultou na morte do tenente-coronel José Gonçalves Landim, e várias outras pessoas foram feridas, inclusive alguns soldados. Atingido no pé por bala de granadeira, o volante João Pereira dos Santos teve a perna amputada pelo Dr. Manoel Marrocos Teles.

Outro acontecimento marcou o ano de 1856; em consequência de conflitos políticos pereceu, em Lavras da Mangabeira, o major João Carlos Augusto. Segundo, J. Figueiredo Filho, no seu livro História do Cariri, 1966:

No mesmo ano 1856, em consequência de ferimentos recebidos, falecia o major João Carlos Augusto, chefe político prestigioso, ex-deputado provincial, patriarca da família Augusto de Lavras da Mangabeira, oligarca desse Município sul-cearense e genitor da destemida e influente Dona Fideralina Augusto Lima. (FIGUEIREDO, Filho, p. 25). 

Além dos nefastos acontecimentos de ordem política que tiravam o sossego da vida do sul cearense, criminosos de toda sorte e de toda desordem completavam o quadro de agitação daquela região no século XIX.

Era numerosa a quadrilha de malfeitores que se concentrava no Município do Crato com ramificações em outros pontos do sul cearense. Chamados de Serenos e Xios a presença desses facínoras causavam terror por onde passavam. (Brígido, p. 487). 

Em 1876, o alferes Canuto José de Aguiar, indignado com a presença frequente e os ataques impunes dos grupos de bandoleiros, publicou uma carta no Cearense se dizendo assustado com a onda de crimes e assaltos cometidos nas comarcas caririenses.  Salientou que de Lavras para Missão Velha, havia um verdadeiro arsenal de guerra. Os assassinos viajam em grupos. Exigiam dinheiro dos proprietários sob pena de vingança. (Montenegro, p. 214). 

De fato, os municípios cearenses viviam a mercê de todo tipo de bandido, individualmente, ou em grupos, criminosos da mais alta periculosidade, sanguinários, frios e cruéis agiam pela a força das armas, sendo o bacamarte a arma preferida dos malfeitores e para desgraça da população as quadrilhas contavam com a proteção de elementos da polícia e até das autoridades.  

Era conturbado o clima do Cariri nos anos que antecederam a República.  Autoridades, coronéis e a população estavam entregues nas mãos dos bandidos. Por isso, se faz necessário conhecer a historia para entender o comportamento dos coronéis, a agonia e liderança dos beatos para sobreviverem nas terras caririenses. 

A última década do século XIX foi muito conturbada e difícil para a população do Cariri.  A seca castigava a terra e o povo, os cangaceiros se apoderavam dos bens alheios, os retirantes invadiam propriedades em busca do que comer, os coronéis se sentiam inseguros ante a situação, pois, estavam expostos aos ataques dos famintos e cangaceiros, e as autoridades se sentiam impotentes para enfrentar os grupos de salteadores.  

Outro acontecimento nesse período foi à abolição da escravatura que aqui no Ceará não trouxe desastrosas consequências no tocante à elevação do número de criminalidade.  Devido aos longos períodos de estiagem e terras pouco agricultáveis, o Ceará importou em pequena escala a mão de obra escrava. Os poucos que existiam nas fazendas continuaram a serviço dos donos da terra que de dia trabalhavam na lavoura, no engenho e nos serviços domésticos, mas estavam aptos no manuseio das armas em defesa da propriedade e do seu dono.  Os cabras, como ficaram conhecidos eram oriundos do cruzamento de brancos, negros e índios e caracterizavam-se pelo temperamento briguento e agitado. 

A disputa por poder e o choque de interesses acabaram por inflamar os municípios carirenses, predominando o domínio da força e o desaparecimento do direito. Tanto as autoridades como a guarda local estavam para manter a ordem e defender os interesses do grupo politico dominante. Instalava-se o IMPÉRIO DO BACAMARTE.

Com o avento da República e a virada do século as lutas politicas se acirravam, a impunidade dos criminosos engrossavam as fileiras dos guardas costas dos chefes da região. De 1901 a 1910 inicia-se o período das deposições. O Município de Missão Velha inaugurou a derrubada do poder do coronel Antônio Róseo Jamacaru pelo coronel Antônio Joaquim de Santana.  Depois foi a fez de o coronel Antônio Alves Pequeno apear do poder o coronel José Belém de Figueiredo em Crato. 

Os demais Municípios caririenses tomaram gosto pela disputa do poder. Em 1906, João Macedo depunha o coronel Manuel Ribeiro da Costa (Neco Ribeiro) da Intendência de Barbalha para dar lugar a João Raimundo de Macedo (Joca do Brejão), para isso contou com a força das armas e cabras das coronelas Fiderelina Augusto Lima de Lavras da Mangabeira e Marica Macedo de Aurora.

Em 1907, foi à vez da deposição em Lavras da Mangabeira, que aconteceu de forma atípica, o cel. Honório Correia Lima, foi deposto pelo seu irmão cel. Gustavo Augusto Lima, auxiliado pelo cel. Santana de Missão Velha e pelo cel. Domingos Furtado de Milagres, e com autorização da mãe Fideralina Augusto Lima. Ela resolveu fazer antes que algum aventureiro lançasse mão do seu poder. Em Lavras ninguém tinha mais poder que ela. 

Em 1908, em Santana do Cariri, Lourenço Gomes da Silva tentou tomar o poder de José Carlos Augusto, sem sucesso. Nesse mesmo ano, Campos Sales foi atacada pelo coronel Raimundo Bento de Sousa Baléto e tomou o poder do chefe político José Maia e o intendente Cipriano Alves Feitosa. Ainda em 1908, foi grande a disputa em Aurora, José Inácio ataca a cidade por causa da demarcação das terras do Coxá, área rica em minério de cobre. E a briga não terminou aí. Houve outros ataques com mortes, saques e destruição. 

No começo de 1909, em Araripe, os Geraldos, inimigos do intendente Antônio Matias e do delegado de polícia Sabino Clementino atacaram a vila de onde foram enxotados, mas dias depois, Pedro Silvino depunha Antônio Matias e matava Sabino.

No ano seguinte, em 1910, Quinco Vasques (Joaquim Vasques Landim), ataca Lavras para depor o coronel Gustavo Augusto Lima, que depois de oito horas de tiroteio, foge derrotado com alguns dos seus homens feridos. 

Nessa época não havia diretos adquiridos e nem garantias individuais. O estado era o coronel, o direito era do coronel e quem valia era o coronel. Não podia amolecer na luta, não podia morrer, nem apanhar e nem ser deposto. A moleza e indecisão do governo favorecia o lado vencedor. Os chefes eram nomeados não pelo número de votos, mas pelo número de cangaceiros.

 Finalmente, em 1911, quando Juazeiro se emancipou do Município do Crato, Padre Cicero Romão Batista reúne em Juazeiro, todos os chefes políticos do Cariri cearense para uma reconciliação, na ocasião, foi lavrada uma ata da sessão e foi firmado um pacto de paz entre todos. O famoso Pacto dos Coronéis que para muitos historiadores foi um mal necessário.



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