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O boêmio resistente

  

   Por: Flavio Ramalho de Brito

     Próximo à esquina mais famosa do centro velho da cidade de São Paulo, o cruzamento das avenidas Ipiranga e São João, fica o Palacete dos Artistas. O Palacete era um antigo hotel que foi recuperado pela Prefeitura da cidade para servir de abrigo para artistas aposentados que estivessem em dificuldades financeiras ou que não possuíssem residências.

    Um dos primeiros moradores do Palacete dos Artistas, desde que o prédio foi inaugurado pela Prefeitura, é um senhor que, atualmente, se aproxima dos 91 anos de idade. Nasceu na Paraíba, na cidade de Serraria, mas, aos oitos meses de idade, a sua família se mudou para Campina Grande. 

Serraria PB

  Em Campina Grande, ele viveu a sua infância e adolescência. Deixou a cidade quando tinha quinze anos, em uma nova mudança da família, desta vez para o Rio de Janeiro. Para viajar, precisou tirar seus documentos e teve a surpresa em saber que o seu nome, que ele achava que era Valdemir, fora registrado por descuidado escrivão como Valdemar de Farias.

    Ao chegar, em 1945, ao Rio de Janeiro Valdemar foi morar em um bairro distante de Nova Iguaçu. Com sua voz nítida e possante de barítono conseguiu um emprego como locutor em um serviço de alto-falante que existia na cidade. Naquele tempo, ele já dava os seus primeiros passos como cantor amador, prática que iniciara em serestas, quando ainda morava em Campina Grande. “arremedando os grandes cantores da época”, como ele próprio diz.

  Em Nova Iguaçu, conheceu o compositor Assis Valente que, sabendo do seu interesse em ingressar na vida artística, o indicou para uma companhia de teatro de revista. Não foi aproveitado como cantor na companhia, mas conseguiu ficar como auxiliar da direção. Por essa época, fez curso de teatro com o diretor polonês Ziembinski. Já morando no Rio, começou a se apresentar, no rádio, em programas de calouros.

   No final dos anos 1940, Valdemar já se encontrava cantando em dancings e como crooner do conjunto instrumental Os Copacabanas, que se apresentava na boate do Hotel Glória, uma das principais do Rio de Janeiro, onde dividia o palco com a cantora Dolores Duran.

 


  No começo da década de 1950, Valdemar foi contratado como cantor em rádios do Rio e adotou o nome artístico de Roberto Luna, nome como ficou conhecido a partir de então. Iniciou, naqueles anos, a gravação da sua imensa discografia que chega a cerca de 60 discos. Seu repertório era o cancioneiro que então predominava, formado por sambas-canções e boleros. Mas, também, chegou a gravar músicas de Vinícius de Moraes (Serenata do Adeus) e da dupla que dava os seus primeiros passos: Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes (Se todos fossem iguais a você).

                       

   Roberto Luna consolidou o seu nome no cenário artístico nacional, com os grandes sucessos que obtiveram as gravações de Molambo, do violonista pernambucano Jaime Florence (Meira) e Augusto Mesquita, Castigo, de Dolores Duran e a versão do bolero El Reloj, do mexicano Roberto Cantoral.

 Roberto Luna – Molambo – 1955

                                                                       

         (Clique aqui)https://youtu.be/Ybww3xF9SRk

    No início da década de 1960, Roberto Luna transferiu-se para São Paulo onde, a partir de então, terá o seu nome, para sempre, associado à vida boêmia da cidade, da qual participou, ativamente, durante mais de meio século. Foi dono de várias boates em São Paulo, nas quais atuava como cantor e também compartilhava das aventuras noturnas da cidade. Quando proprietário da boate Molambo chegou a ajudar o cantor Tim Maia que estava desempregado, permitindo que ele se alimentasse no estabelecimento, fato que é narrado por Nelson Motta na sua biografia de Tim Maia, em que Motta classificou Luna como “biriteiro, mulherengo e sentimental”. Ao saber, através de um repórter da Folha de São Paulo, das palavras que Nelson Motta escreveu sobre ele, Roberto Luna riu e disse: “ele não errou não…”. 

Roberto Luna – Boneca de Pano (Assis Valente) 

(Clique aqui)https://youtu.be/ydE7csd5jzI

    Roberto Luna, com os rudimentos de teatro que aprendera com Ziembinski teve, também participações no cinema brasileiro, inicialmente em chanchadas ao lado de Ankito e Grande Otelo e, depois, em 1968, no filme O Bandido da Luz Vermelha, do diretor Rogério Sganzerla.

Roberto Luna e Helena Ignez, cena de O Bandido da Luz Vermelha

                       

    Até há bem pouco tempo, Roberto Luna ainda se apresentava, regularmente, em casas noturnas de São  Paulo. Em 2015, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Roberto Luna disse:

   “Tive uma carreira muito bonita, gratificante. Ah, mas dizem: ‘Cê tá duro’. Eu tô duro porque bebi tudo e amei demais. Sou um cara feliz. Não sou aquele cara que… ‘Ah, eu podia estar assim, eu podia estar assado’. Eu fiz tudo que eu tinha que fazer”.  

Roberto Luna – Tudo é Magnífico (Luís Reis – Haroldo Barbosa)

(Clique aqui)https://youtu.be/bcbK8jjyHiM

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3 COMENTÁRIOS

  1. Estivemos com Roberto Luna há 5/6 anos passados.Ele se apresentava no Terraço Brasil em São Paulo e já estivemos: Eu, Gorette, Iordan irmão dela e Francisca a esposa de Iordan. Foi uma noite muito agradável e Luna relembrou a Paraíba e Serraria. Terminou convidado a ir ao apartamento de Iordan que no domingo faria 40 anos de casado e compareceu.
    Conversamos muito e êupode perceber a verdadeira dimensão do grande cantor que ele foi. Reminiscências!

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