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A Vênus Negra: a maior vedete do Mundo, artista, espiã e ativista.

Por: João Vicente Machado

Ela nasceu, em 1906, em um bairro pobre de Saint Louis, Missouri, Estados Unidos. Não se sabe ao certo quem era o seu pai. Freda Josephine McDonald, filha de mãe negra, aos oitos anos começou a fazer trabalhos domésticos em casas de famílias brancas. Abandonou a escola aos 12 anos. Aos treze, foi trabalhar como garçonete em um clube, onde conheceu o seu primeiro marido. O casamento durou menos de um ano. Deixou o trabalho no clube e passou a fazer parte de um grupo de vaudeville. Aos quinze anos, voltou a casar. Foi embora de St. Louis com um grupo mambembe e abandonou o segundo marido, mas conservou o seu sobrenome. Foi para Nova York, já usando o nome artístico de Josephine Baker. Quem poderia imaginar que, com esse início de vida, ela viria a se tornar a primeira artista negra a ter projeção mundial e uma das principais personagens da cultura no século 20?

Há um século, se iniciava a chamada Era do Jazz, os Roaring Twenties, os “Anos Loucos de 1920”. Para o escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald, aquela “foi uma era de milagres. foi uma era de arte, uma era de excessos”. Foram anos de rebeldia e de quebra de padrões de costumes, em um ambiente de prosperidade que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, período comparável ao que veio a ocorrer, quatro décadas depois, nos anos 1960. Naqueles Roaring Twenties, se desenvolveram o rádio e a indústria fonográfica, e a música exercia papel fundamental na nascente comunicação de massa. O jazz tinha surgido fazia pouco tempo. Em 1917, havia sido lançada aquela que é considerada a primeira gravação de jazz da história. Os ouvidos acostumados a canções de operetas, cantadas a plenos pulmões pelas vozes tonitruantes de tenores, foram surpreendidos com a agitação daquele novo tipo de música que era tocado pela Original Dixieland Jass Band (ainda com ‘s’ mesmo). A animação da música, nos clubes e bares, induzia a danças, como o charleston. As mulheres mudaram a sua forma de vestir, trocaram espartilhos e vestidos longos, por vestidos curtos. Os cabelos passaram, também, a ser curtos, à garçonne.

E foi nesse caldeirão cultural dos Roaring Twenties que Josephine Baker apareceu em Nova York. Atuou, como corista, em espetáculos no Harlem e no famoso Cotton Club, obtendo certo destaque, pelo físico esbelto e longilíneo e pelas improvisações cômicas, o que fez com que recebesse vantajosa proposta para ir trabalhar em Paris. Chegou na capital francesa, em outubro de 1925. Paris vivia, também, os seus “Anos Loucos”, os Années folles, e o jazz dominava a cena musical da cidade que, na época, abrigava vários músicos norte-americanos. Josephine Baker logo se sobressaiu pela nudez exótica das suas apresentações, algumas vezes usando, como vestimenta, uma minúscula saia feita de bananas. Fazia, também, espetáculos acompanhando-se, no palco, por um leopardo, que ela chamava Chiquita. Passou a cantar e abriu sua própria boate, a Chez Josephine. Seu sucesso foi estrondoso e de tal ordem que, dois anos depois que chegara à França, já era a artista mais bem paga da Europa.



Josephine Baker passou a ser chamada de a Vênus Negra, a Deusa de Ébano, e tornou-se a musa de um grupo de artistas que viviam, naquela época, em Paris, dentre eles Ernest Hemingway, Pablo Picasso, F. Scott Fitzgerald, Le Corbusier e Jean Cocteau. Em 1928, no auge da sua fama, iniciou uma turnê mundial de dois anos. Em 1929, fez a primeira das suas quatro viagens ao Brasil, apresentando-se no Rio de Janeiro e em São Paulo. O País fez, na ocasião, as homenagens devidas a La Baker, como os franceses a chamavam. O cantor Francisco Alves gravou a marchinha Josephina, e foi organizada para ela uma suculenta feijoada, realizada nos salões da Confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro, festança que foi bem documentada nos jornais. Na época, Josephine, já havia tido vários amantes, homens e mulheres, alguns que eram figuras públicas, como o escritor belga Georges Simenon, que criou o famoso personagem Comissário Maigret.



Em 1937, Josephine abdicou da cidadania norte-americana e naturalizou-se francesa. No início da Segunda Guerra Mundial, La Baker tornou-se enfermeira da Cruz Vermelha. Quando a Alemanha ocupou a França, ela fez parte da Resistência Francesa, atuando como espiã, já que, como artista, tinha condições de obter informações confidenciais dos alemães e podia viajar sem despertar suspeitas. Depois, serviu, no Norte da África, no posto de subtenente.



Por sua atuação durante o conflito, recebeu a Cruz de Guerra e a Rosetteda Resistência Francesa. Em 1957, por decreto do general Charles De Gaulle, presidente da França, tornou-se chevalier  da Legião de Honra, a maior distinção honorífica dada pelo país.



Depois da Guerra, Josephine Baker retomou as suas atividades artísticas, ao tempo que iniciava um posicionamento ativo contra a discriminação racial. Mesmo com toda a sua fama, em viagem aos Estados Unidos, pelo fato de ser negra e condenar a segregação racial, trinta e seis hotéis não aceitaram suas reservas de hospedagem. Em 1951, foi discriminada no Stork Club, uma boate chique de Nova York. Grace Kelly, que, na época, era já atriz famosa, estava presente no local, e se retirou da boate em protesto, acompanhando Josephine. A partir desse incidente as duas ficaram amigas íntimas. No ano seguinte, em Buenos Aires, Josephine Baker declarou que “Os EUA não são um país livre […] eles tratam os negros como se fossem cães”.Vivia-se, então, nos Estados Unidos, a época do macartismo. Escritores, atores e artistas que se manifestavam a favor dos direitos sociais eram taxados de comunistas e até proibidos de exercer as suas atividades. Ao tomar conhecimento de que o Departamento de Justiça teria aberto um processo contra ela, com a perspectiva de proibir a sua entrada no país, Josephine declarou aos jornais: “o governo norte-americano agiu, a meu respeito, como já o fez com um grande ator, que me sinto orgulhosa em citar: Charles Chaplin. É acusado de comunismo porque, também ele, luta pela igualdade dos seres humanos”. Josephine, nesses anos, foi, cada vez mais, priorizando suas ações como ativista dos direitos civis. Como estava impossibilitada de ter filhos, em conseqência de abortos que fizera na sua juventude, resolveu adotar um grupo de crianças, de etnias e credos diferentes, que ela chamava a Tribo do Arco-Íris. Abandonou a carreira, para poder cuidar das crianças em sua propriedade, Château des Millandes, nas proximidades de Paris.

Josephine, Paris, 1957, com sua tribo do Arco-Íris.

Dificuldades para sustentar a crescente família, forçaram-na a reativar a carreira, voltando a se apresentar em shows. Em 1963, Josephine Baker foi a única mulher a discursar na Marcha sobre Washington, liderada pelo pastor Martin Luther King, contra o fim da segregação racial. Na ocasião, ela relembrou a discriminação que sofrera nos Estados Unidos: “I have walked into the palaces of kings and queens and into the houses of presidents. And much more. But I could not walk into a hotel in America and get a cup of coffee, and that made me mad”. Após o assassinato de Luther King, a sua viúva, Coretta Scott King, pediu a Josephine que substituísse o reverendo morto na liderança do Movimento pelos Direitos Civis. A proposta foi recusada por Josephine, em razão da pouca idade dos seus filhos adotivos, que requeriam a sua presença na França.  

Em 1969, dificuldades financeiras levaram a que Josephine perdesse a sua propriedade, em que residia, na França. Na ocasião, ela foi ajudada por Grace Kelly, a atriz que era sua amiga e que abandonara a vida artística para se tornar a princesa do Mônaco, onde Josephine passou a morar. La Baker continuou a fazer shows por todo o mundo, inclusive, em 1971, esteve, pela última vez, no Brasil. Em 1975, o príncipe do Mônaco patrocinou a montagem de um show em que Josephine comemoraria, em Paris, 50 anos de carreira. A estreia do espetáculo contou com a presença, dentre outras personalidades do showbusiness, de Sophia Loren, Liza Minelli, Shirley Bassey, Diana Ross e Mick Jagger.  Quatro dias depois da estreia, Josephine Baker foi encontrada desacordada, em sua casa, deitada na cama, segurando jornais do dia que falavam do sucesso do seu espetáculo. Havia sofrido uma hemorragia cerebral. A Vênus Negra faleceu aos 68 anos.

Josephine Baker esteve quatro vezes no Brasil. A segunda delas, em 1952, foi a de mais longa duração. Passou por aqui quase três meses e meio. Estreou no dia 20 de junho, na boate Night and Day, no Rio de Janeiro. Embora não fosse mais a dançarina que usava nos palcos saias de bananas e amestrados leopardos, estava, ainda, na plenitude da carreira, priorizando mais o seu lado de cantora, como atestou o jornalista Fernando Lobo, que escreveu, na época, que ela seria “a maior vedette que o mundo tem visto há uma infinidade de anos […] homens de mocidade distanciada, falam em eras longínquas em que a notável artista se exibia vestida apenas com um cacho de bananas. Até lá dentro do interior onde cresci sabia-se dessa história”. Para aqueles que não sabem, o interior onde cresceu Fernando Lobo, pai de Edu Lobo, um dos maiores compositores brasileiros, é a cidade de Campina Grande.

Mas, essa alongada permanência de Josephine no Brasil, em 1952, teve alguns fatos interessantes. A Deusa de Ébano, continuando sua luta contra a segregação racial, participou, na sede da Associação Brasileira de Imprensa-ABI, no Rio de Janeiro, conjuntamente com defensores dos direitos civis, como Afonso Arinos e Nelson Carneiro, então deputados federais, do lançamento local da Associação Mundial Contra a Discriminação Racial.  Governava o Brasil, à época, Getúlio Vargas, que chegara à Presidência “nos braços do povo”, eleito, pela primeira vez, pelo voto popular.  Jean-Claude Baker, um dos filhos adotivos de Josephine, publicou nos EUA, em 1993, o livro The Hungry Heart, sobre sua mãe por adoção. Em 1997, Jean-Claude, em entrevista dada ao jornal O Globo insinuou que poderia ter ocorrido, como se diz hoje em dia, encontros nada republicanos entre Josephine e o baixinho, gordinho e sagaz mandatário brasileiro. Jean-Claude afirma que La Baker chegou a confessar para ele que ela “poderia ter sido a Eva Perón do Brasil”. Na alentada biografia de Getúlio, feita por Lira Neto, que, inclusive, trata desses “encontros não republicanos” do esperto político gaúcho, não há referência a esse caso. Mas, como Getúlio não era nenhum exemplo de castidade e, muito menos, Josephine, é grande a probabilidade de que o relato de Jean-Claude Baker seja verdadeiro. Até porque, a Deusa de Ébano tinha certa queda por brasileiros. Dizem, que no seu “caderninho de autógrafos”, estavam relacionados o jornalista João Saldanha e Chico Buarque que, quando, exilado na Itália, fazia a abertura dos shows de Josephine.

Outro fato que muitos desconhecem é que Josephine Baker, naquela sua viagem ao Brasil, em 1952, se apresentou na Paraíba, em João Pessoa e Campina Grande. Na capital paraibana, a sua apresentação foi no Teatro Santa Rosa, na noite da quinta-feira 21 de agosto, com o acompanhamento da orquestra do maestro pernambucano Nelson Ferreira, em evento promovido pelo então governador José Américo de Almeida, através da Rádio Tabajara. Em Campina Grande, Josephine se apresentou sob o patrocínio da Rádio Borborema, que integrava os Diários Associados, o poderosíssimo, na época, império de comunicação do jornalista paraibano Assis Chateaubriand.

O Norte, 20 de agosto de 1952
Josephine Baker – Paris, 1927.
Josephine Baker – Chiquita Madame (Chiquita Bacana) – marchinha do carnaval de 1949, de João de Barro e Alberto Ribeiro, inspirada em Josephine Baker

Josephine Baker – La Conga Blicoti

 
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1 COMENTÁRIO

  1. Fico sem palavras para tecer alguns comentários a respeito de tão grande e magnífico história.Mais uma vez tiro CHAPEU para está cabeça pensante do nosso ,BLOGUEIRO por nós levas a viajar por mundos tão desconhecido, mais que fizeram parte da nossa história.

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