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O perseguido Guerrilheiro da Canção


“- Eu sou sua admiradora […] por que você está se metendo com essas coisas, meu filho? A juventude gosta tanto de você. Você é um cantor romântico”.

Por: Flávio Ramalho de Brito

Segundo depoimento do próprio cantor, isso foi dito a ele por uma implacável censora, chamada Dona Marina, que, invariavelmente, vetava as letras das músicas que ele compunha e que eram submetidas à aprovação prévia por um Departamento da Polícia Federal. Quando se pensa em compositores que tiveram músicas censuradas durante a Longa Noite dos Generais, instaurada em abril de 1964, os nomes que sempre surgem são os de Chico Buarque, Gonzaguinha e Geraldo Vandré. Mas nenhum deles teve, como Taiguara, tantas canções censuradas, ou até mesmo discos totalmente proibidos.  Taiguara disse, numa entrevista dada ao jornal O Pasquim,que “se acostumaram a proibir, até que em 73 nada passava com meu nome”.

Taiguara Chalar da Silva nasceu em Montevidéu, filho do instrumentista gaúcho Ubirajara Silva e da uruguaia Olga, cantora de tangos. Aos quatro anos, foi morar no Rio de Janeiro e aos quinze mudou-se para São Paulo. Conforme seu contemporâneo de colégio, o jornalista Tárik de Sousa, muito cedo Taiguara começou a participar do movimento musical paulistano originário da bossa-nova, ao lado de nomes como Toquinho e Chico Buarque. Taiguara, já no início da sua carreira, recebia elogios de peso, como os do compositor Edu Lobo, que dizia que a sua voz era “uma das mais impressionantes” que ele já ouvira, e da cantora e compositora Maysa, que considerava Taiguara e Sílvio Caldas os melhores cantores do Brasil. Com o advento dos festivais de música popular Taiguara despontou como grande intérprete cantando canções românticas como Helena, Helena, Helena (Alberto Land) e Modinha (Sergio Bittencourt). A participação vitoriosa de Taiguara, como intérprete, em vários festivais de música fez com que um dos seus discos ficasse conhecido como “O Vencedor de Festivais”. Por essa época, Taiguara começou, também, a gravar composições de sua autoria, com elaboradas orquestrações, que tiveram grande sucesso popular, como Hoje, Viagem, Maria do Futuro e Universo no Teu Corpo.


Disco que ficou conhecido como “Taiguara, O Vencedor de Festivais”


Num tempo em que a música popular brasileira estava impregnada de canções de marcado cunho político, como Caminhando, de Geraldo Vandré, Viola Enluarada, de Marcos e Paulo Sergio Valle, e cantava-se “el nombre del hombre muerto” em Soy Loco por Ti America, de Gilberto Gil e José Carlos Capinan, Taiguara andava na contramão, fazendo canções em cujas letras predominava o erotismo e que eram, por causa disso, objeto da censura, e não por contestação ao governo militar. Com o passar do tempo, à medida que o regime ditatorial se liberalizava e as chamadas “canções de protesto” iam escasseando, a música de Taiguara foi mudando e adquirindo, cada vez mais, um verniz político, sendo alvo constante da ação da censura, não mais pelo antigo feitio sensual das suas letras, mas, pelo seu flagrante proselitismo ideológico. Levantamento feito pela jornalista Janes Rocha, que escreveu o livro Os Outubros de Taiguara – Um artista contra a ditadura: música, censura e exílio, identificou, somente no ano de 1974, trinta e seis músicas de Taiguara censuradas.


Além da censura das letras, Taiguara teve dois discos inteiramente proibidos. Em 1974, Taiguara gravou, em Londres, o disco Let the children hear the music. A multinacional EMI, após o término das gravações, mesmo com todo o custo da realização do disco, não lançou o álbum e, o que é mais impressionante, as fitas da gravação desapareceram, e, até hoje, ainda continuam perdidas. O outro disco proibido Imyra, Tayra, Ipy, de 1976, chegou a ser colocado nas lojas para venda, mas, três dias depois, os discos foram recolhidos pela Polícia Federal e destruídos. Imyra, Tayra, Ipy passou seis meses para ser produzido e teve a participação de grandes músicoscomo Wagner Tiso, Hermeto Pascoal, Toninho Horta, Jacques Morelenbaum, Novelli e outros. Somente, em 2013, trinta e sete anos depois que foi gravado, Imyra, Tayra, Ipyfoi relançado no Brasil. Perguntado pela revista Bizz sobre qual disco havia mudado a sua vida, o cantor e compositor Lenine, respondeu: “É muito difícil indicar um disco. Escolho um que mudou não apenas o meu conceito de como fazer música, mas também do próprio artista que o fez. Chama-se Imyra, Tayra, Ipy. Foi um disco fundamental na minha concepção, mudou minha vida”.  



Para conseguir que suas letras pudessem ser aprovadas pela Polícia Federal, Taiguara passou a apresentá-las no nome da sua mulher, e, mesmo assim, em alguns casos, ainda teve que se submeter, para conseguir a aprovação, a verdadeiros malabarismos verbais, ajustando os textos para que pudessem “passar” pela censura, como foi o caso da letra de Terra das Palmeiras, do disco Imyra, Tayra, Ipy.

Por duas vezes, Taiguara se exilou, a primeira vez na Europa e, depois, na África, na Tanzânia, segundo ele, com a ajuda do educador Paulo Freire. Essa ausência o afastou da mídia. Para Janes Rocha, sua biógrafa, quando Taiguara retornou, em definitivo, “ele virou muito discursivo, aborrecia também, e com isso foi perdendo o espaço na mídia, principalmente após ficar dez anos longe do Brasil. Os antigos fãs queriam o Taiguara romântico, cantando Modinha. Ele queria fazer canção de protesto. Era uma nova geração que não o conhecia”. Canções de Amor e Liberdade, seu primeiro disco após o regresso do exílio, refletia o arraigado posicionamento político que ele assumira, o que dificultava a sua reinserção no mercado da música. Vencido na luta que travou, durante cinco anos, contra um câncer na bexiga, Taiguara faleceu, em 1996. Tinha cinquenta anos.
A música de Taiguara continua resistindo ao tempo. Em 2016, o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho colocou Hoje, uma das mais conhecidas canções de Taiguara, gravada há mais de meio século, como tema principal da trilha sonora do seu premiado filme Aquarius.
Taiguara – Modinha
Taiguara – Hoje –Trailer do filme Aquarius de Kleber Mendonça Filho

Taiguara – Universo no teu Corpo

Taiguara – Modinha, participação de Jacob Bittencourt (Jacob do Bandolim) e Horondino Silva (Dino Sete Cordas)

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1 COMENTÁRIO

  1. Enquanto muitos artistas ficaram e ainda hoje estão indiferentes Tayguara é um grupo de artistas estavam e continuam mostrando a cara e enfrentando o autoritarismo tanto do golpe militar de 1964, como do golpe parlamentar que vivenciamos.
    No dizer de Milton Nascimento o artista deve ir onde o povo está.

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