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O Visconde e o fonógrafo de Thomas Edison

Por: Flávio Ramalho de Brito

    Em seu laboratório de Melon Park, em Nova Jersey, Thomas Edison comandava um grupo de habilidosos técnicos em vários ofícios. De lá saíram mais de duas mil patentes de engenhocas diversas, muitas delas que alterariam radicalmente a nossa vida. Edison não era o que se considera um cientista. Não possuia os rudimentos da física e nada sabia de matemática, mas, tinha uma extraordinária capacidade de aperfeicoar ideias dos outros dando-lhes aplicação prática. Embora seu nome seja sempre associado à lâmpada elétrica incandescente, ele deu apenas as condições de aplicabilidade a um invento que já existia. Mas, a invenção que lhe deu a fama de ser chamado “o Feiticeiro de Melon Park” foi a do fonógrafo. O equipamento, na sua origem, ainda não tinha a finalidade de reprodução de músicas que depois veio a ter, era ainda apenas uma “máquina de falar”, que gravava e reproduzia sons, mais comumente os da voz humana. Edison unia as qualidades de grande inventor a uma grande vocação empresarial que ele traduzia na produção massiva dos seus inventos. E com o fonógrafo não foi diferente, embora, inicialmente, ele não botasse muita fé no sucesso comercial da sua invenção. Em 1884, o Comendador brasileiro Carlos Monteiro e Sousa, indo aos Estados Unidos, fez amizade com Edison que o indicou como seu agente no Brasil em projetos de iluminação. Em 1889, Edison o encarregou de fazer demonstrações do uso do fonógrafo na Exposição de Paris. Na volta ao Brasil, Monteiro e Sousa solicitou uma audiência ao Imperador Pedro II para fazer uma exposição à família imperial  sobre o aparelho. Dessa audiência, realizada no dia 9 de novembro de 1889, seis dias antes do golpe militar que derrubou o monarca e instaurou a República no País, existe registro no nº 221 da Revista de Engenharia, publicada no Rio de Janeiro em 14 de novembro.
“Concedida ela (a audiência) para as 6 horas da tarde, a essa hora estava armado o aparelho em uma das salas do dito paço (imperial), onde se achava o Imperador, acompanhado da Imperatriz, da Princesa Imperial, de seu augusto consorte e do Príncipe D. Pedro Augusto. Havendo dito S. M. o Imperador que desejava verificar com um phonogramma do Sr. Visconde de Cavalcante, se há semelhança entre a voz de quem fala e a que é reproduzida pelo aparelho, foi satisfeito seu  desejo, ouvindo-se logo em seguida outro phonogramma do Sr. Conde de Villeneuve […] Declarou sua Majestade que em ambos era perfeita a semelhança”. Durante a reunião para a demonstração do fonógrafo, o Conde d’Eu fez um comentário de que a invenção era muito boa mas que acreditava que não teria aceitação porque as pessoas pensariam que aquilo seria coisa do diabo ou do outro mundo. Não sabia ele que aquele aparelho, ainda rudimentar, seria o responsável por uma das maiores revoluções culturais que iriam ocorrer no mundo. Mas, o que se conclui, de forma incontestável, do registro da audiência concedida por D. Pedro II no paço imperial, é que o Visconde de Cavalcanti foi quem fez a primeira gravação de voz, devidamente documentada, no Brasil. Quem era, então, aquele Visconde, que privava do convívio íntimo com a família imperial? Chamava-se Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque. Conselheiro do Império, Diogo Velho foi o paraibano de maior destaque político durante todo o período monárquico. 
    Diogo Velho nasceu em Pilar, em 1929. Bacharelou-se pela Academia de Olinda em 1852. Fez parte da Assembleia Provincial da Paraíba em duas legislaturas e foi deputado geral em três. Foi escolhido senador pelo Rio Grande do Norte, numa época em que aquela então província só tinha um único representante no Senado e o cargo era vitalício. Foi 1º Vice-Presidente da Paraíba e Presidente das Províncias de Pernambuco, Piauí e Ceará. Ocupou os Ministérios da Agricultura, dos Negócios Estrangeiros (o que seria hoje o do Exterior), do Interior e da Justiça. Foi feito Conselheiro de Estado e, por decreto de 1888, tornou-se Visconde. Credita-se a ele a determinação para construção da estrada de ferro Conde d’Eu, trecho de Cabedelo a Alagoa Grande, e a ligação telegráfica entre a Paraíba e Pernambuco. Diogo Velho não aderiu a Republica, como fizeram muitos monarquistas que se tornaram republicanos no dia seguinte à instauração do novo regime. Com a chegada da República, abandonou a política e foi morar em Paris, acompanhando o Imperador no exílio. Em1891, o Visconde de Cavalcanti estava presente, no hotel Bedford, em Paris, nas últimas horas de vida de Pedro II. Publicou na capital francesa, em 1896, a monografia “Notice générale sur les principales lois promulguées au Brésil de 1891 a 1894”. Diogo Velho voltou da França cego, tendo falecido, em 1899, na “chácara de Mariano Procópio”, propriedade de um primo da sua esposa, em Juiz de Fora, atualmente um Museu da cidade, onde um dos salões tem o nome da Viscondessa de Cavalcanti, que foi grande doadora para o acervo da instituição. Diogo Velho é patrono de cadeira na Academia Paraibana de Letras e dá nome a rua no centro da capital da Paraíba. O fonógrafo, invenção de Thomas Alva Edison em que o Visconde de Cavalcanti registrou a primeira gravação de voz feita no Brasil, chegou à Paraíba nos anos 1890, mas isso eu conto depois. 
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