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Morrer para refletir, ressuscitar para comunicar

“Como eu ressuscitei para ser o autor dessas memórias, eu sou um defunto autor e não um autor defunto” (Brás Cubas, 1869).
Por: Cristina Couto
    Por ser sede da administração colonial brasileira, desde 1753, e do império, a partir de 1822, o  Rio de Janeiro concentrou grande parte do aparato politico-administrativo do Brasil. Foi o principal porto de exportação de café, posição que no final do século XIX, perderia para a cidade paulista de Santos.
Essas duas condições fizeram do Rio de janeiro a primeira cidade brasileira que se modernizou durante o século XIX.

    O crescimento urbano e o progresso econômico mudaram, também, a estrutura social da cidade do Rio de Janeiro.  Atividade comercial acabou criando uma camada burguesa e pequena-burguesia independente da velha oligarquia rural e impulsionava a burocracia administrativa. Dessa forma, à sombra do desenvolvimento econômico, se desenvolvia uma nova classe média, cujos hábitos e preferências seguiam os figurinos de Paris.
    Para atender a toda essa clientela e imitar a vida europeia surgiram confeitarias, teatros, livrarias e sofisticadas lojas de artigos estrangeiros na capital do Brasil. A Rua do Ouvidor concentrou muitas casas de negócios, suas vitrines, seu sistema de atendimento, assemelhava-se as grandes lojas francesas, aliás, o francês era a língua falada pelos caixeiros. O centro do Rio de Janeiro era uma pequena amostra de Paris, e com isso os hábitos também se modificariam. As damas da sociedade vestidas no rigor da moda parisiense, já podiam passear livremente e frequentar casas de chá (sempre acompanhadas). Os homens vestidos de casaca e usando cartola, discutiam politica e arte. O trabalho escravo era ainda a força econômica brasileira. Foi nessa efervescente e contraditória sociedade carioca que viveu Brás Cubas.
    O conto se diferencia pela escolha do narrador, um defunto, chamado Brás Cubas que ao rever sua existência ironiza pela falta de sentido da vida. Para ele a história contada é bem mais importante do que os recursos linguísticos apresentados. O narrador não dá muita importância a sequencia dos fatos, e nem sua a ordem, pois, para ele os capítulos podem ser pulados ou contados fora de ordem, assim, como fora sua vida, uma vida sem grandes realizações, nunca comeu do suor do seu rosto, não casou, não teve filhos e nem concluiu seu maior invento, ou melhor, a sua causa morte. Ele afirma não ter morrido de pneumonia, mas de uma ideia fixa. O Emplasto Brás Cubas, um anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade.
    Brás Cubas conta sua história a partir da sua morte, ou seja, do final para o começo, confuso com as sequencias dos fatos, achando muitos dos seus dias vazios ele se mostra amargurado por ter passado pela vida com dinheiro, mas sem aquilo que mais desejava: o reconhecimento público. No amor, também havia sido rejeitado e trocado por um tal de Lobo Neves, que aos olhos do pai da pretendida era mais apto para o cargo político e para genro; qualidade que não vira em Brás Cubas, mesmo, sendo rico e de boa família. Para completar sua incompletude a mulher que ele amava e desejava tornou-se sua amante, mas, nunca quis assumir o romance. Com esse livro Machado de Assis mostra e ironiza a podridão e a hipocrisia da sociedade carioca do século XIX.
    O próprio Cubas inaugura sua vida sexual com uma prostituta espanhola radicada no Rio de Janeiro, a quem enche de presentes caros com o dinheiro paterno. O pai indignado com a descoberta, e vendo seu dinheiro ser usado para esse fim, envia o filho para estudar na Europa, de onde retorna bacharel, por não ter vocação para o bacharelado, resolve conhecer a Europa, mesmo contra a sua vontade teve que voltar ao Brasil por causa da morte da mãe.
    Seus dias no Rio de Janeiro são dias sem ocupação, perambulando pelas ruas, frequentando bailes, jogatinas e passeios pelos cafés e bares cariocas. Foi nessas andanças e desocupação que acaba encontrando um velho amigo, Quincas Borba, um filosofo que está desenvolvendo uma nova teoria: OHumanismo que se constitui da ideia “do império da lei do mais forte,” a transformação do homem em objeto do homem, que é uma das maldições ligadas a falta de liberdade verdadeira, econômicas e espiritual. A teoria do ao vencedor as batatas é uma paródia a ciência da época, uma forma de despir ironicamente o caráter desumano e antiético lei do mais forte. Prática comum na sociedade brasileira do século XIX.
    Toda a trama se passa no período imperial brasileiro, onde há uma forte influência europeia na intelectualidade nacional. E foi em 1870, que a hegemonia do romantismo de José de Alencar e Gonçalves Dias começou a declinar, em decorrência das muitas teorias vindas do primeiro mundo que acabaram contribuindo para a superação do pensamento romântico. Dentre elas três tiveram grande impacto na intelectualidade brasileira da época: O positivismo de Comte, o darwinismo social, e o evolucionismo de Spencer. Essas teorias eram distintas entre si, mas tinha um ponto em comum. 
    A evolução histórica dos povos.  (Ortiz, 2012). E na intenção de satirizar o positivismo de Augusto Comte e o cientificismo do século XIX, e a teoria de Charles Darwin acerca da seleção natural da espécie, Machado de Assis empresta ao seu amigo Quincas Borba a nova teoria, uma teoria genuinamente brasileira, nos moldes do Brasil, no pensamento e realidade brasileira. O Humanismo.
Em Memorias Póstumas de Brás Cubas, muitas questões foram levantadas, dentre elas a problemática nacional, muito evidente naquele século e nos escritos de Machado de Assis, de forma irônica ele critica os valores da sociedade brasileira e sua maneira de ver o mundo através de uma imitação tupiniquim do modelo europeu.
    Na realidade o narrador (Brás Cubas) chama a atenção sobre si mesmo, usando as pilhérias, gracejos, mas sempre com o intuito de criticar a recorrente superioridade da classe burguesa brasileira, da qual, o próprio Brás Cubas fazia parte. Uma sociedade parasita que vivia da exploração do trabalho escravo e pretensamente se dizia adepta ao ideário liberal burguês, mas que contraditoriamente, era alicerçada no sistema latifundiário-escravocrata.
  Assim como todo imigrante da classe dominante, Brás Cubas mostra a necessidade em promover sua superioridade. Ele é um tipo social, um modelo típico da classe burguesa. No entanto, discorre na sua narrativa sobre temas filosóficos, sociológicos, religiosos, morais, existenciais, o que o torna um personagem extremamente complexo, às vezes, contraditório e inseguro que não ver sentido na sua vida e nem na sua morte.

    O que Machado de Assis deixa cair são as máscaras da sociedade brasileira num espaço-temporal, como uma espécie de espelho visto pela sociedade do século XIX no qual se reflete a sociedade atual.
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2 COMENTÁRIOS

  1. Sinto-me honrado em contar a partir de hoje com o concurso de uma colaboradora de muita densidade intelectual que é a minha conterrânea Cristina Couto.
    Quando nos propusemos a lançar um blog tínhamos em mente o trinômio:qualidade, imparcialidade e independência.
    Iremos trilhar essa senda com independência plena e para tanto convidamos para o nosso quadro de colaboradores e sem favor nenhum, contamos a partir de hoje com os companheiros Flávio Brito e Cristina Couto.
    O nosso blog manterá como norte o trinômio já citado: qualidade, imparcialidade e independência.

  2. A honra é minha em ser parte integrante de uma página altamente qualificada, informativa e imparcial. Não sei se estarei a altura dos meus colegas, João Vicente e Flávio Brito, dois grandes intelectuais, conhecedores das causas sociais, políticas e culturais do nosso país. Prometo que me esforçarei para acompanhá- lhos. Obrigada amigo João.

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