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Um grande compositor brasileiro e minha neta Sofia

Por: Flávio Ramalho de Brito

    Poucas pessoas ligam o nome Luiz Antônio a um grande compositor brasileiro. Luiz Antônio foi um dos maiores autores de marchinhas e sambas para o carnaval: Sassaricando, Zé Marmita, Sapato de pobre, Levanta Mangueira, O apito no samba, Lata d’agua, Barracão e Bloco de sujo foram alguns dos seus maiores sucessos. Bloco de sujo, parceria com Luiz Reis, contém na sua letra uma das imagens mais representativas do festejo popular: “Olha o bloco de sujo, / Que não tem fantasia, / Mas que traz alegria, / Para o povo sambar, / Olha o bloco de sujo, / Vai batendo na lata, / Alegria barata. / Carnaval é no tá / tá, tá, tá, / Bate a lata, / tá, tá, tá, / Se não tem tamborim…”. Mas, Luiz Antônio não se limitava a compor para o carnaval. Incursionava, também, por outros gêneros musicais, tendo sido um dos principais compositores do sambalanço, um tipo de samba dançante que chegou a competir, na época, com a bossa-nova: Mulher de trinta, Poema do adeus, Poema das mãos, Eu e o Rio, Devaneio, Ri, Murmúrio, Chorou chorou, Lamento, Cheiro de saudade e Recado são canções de Luiz Antônio, quase todas interpretadas pelo cantor Miltinho, que fazem parte, sem nenhuma dúvida, da trilha sonora das décadas de 1950 e 1960 no Brasil.
    Há uma explicação para o desconhecimento sobre Luiz Antônio. No período em que ele esteve em maior evidência, não existem registros de entrevistas do compositor em jornais ou revistas ou de participações suas em programas de rádio ou televisão. Todo esse mistério tinha uma razão: Luiz Antônio não existia na vida real. Era apenas um pseudônimo com o qual o zeloso então capitão do Exército Antônio de Pádua Vieira da Costa assinava suas músicas, no sentido de preservar a sua carreira militar. E é o próprio Luiz Antônio/Antônio de Pádua, anos após ter deixado a caserna, que explicava a situação: “Muita gente acha que farda não combina com música, que pra poder disciplinar tem que ter raiva de música […] Além disso, no meu tempo, o grande público não estava interessado em quem fazia a música mas em quem a interpretava. Assim preferi que ninguém me conhecesse. O jeito era não tirar retrato, não dar entrevista”. Luiz Antônio compunha sem saber tocar nenhum instrumento: “Não sei nada de música, não sei onde é o dó do piano. Mas sei quando está errado. Meu ouvido acusa que o acorde não é aquele”. Essa aparente insuficiência musical não o impediu de compor, sem parceiros, obras que alcançaram repercussão internacional.
    O compositor era boêmio, frequentador assíduo da noite carioca, mas, a jornada noturna que era incompatível com a vida militar foi facilitada com a sua transferência para cargos burocráticos: “Eu tinha saído do quartel, estava no Ministério da Guerra, e só começava a trabalhar às onze da manhã. Então, ia toda noite ao Drink, ao Sacha’s”. E foi nesse ambiente das noites do Rio de Janeiro, então ainda capital do País, que foram feitas as músicas de Luiz Antônio. O golpe de 1964 encontrou o coronel Antônio de Pádua servindo no Gabinete Militar do Presidente João Goulart. As músicas de carnaval que ele havia composto com crítica social, como Zé Marmita, Sapato de Pobre e Lata d’agua levaram a que ele fosse tachado de comunista. Transferido para o norte do País, recusou-se a ir e pediu reforma do Exército, aos 43 anos, no posto de coronel. Luiz Antônio participou, como tenente instrutor, das forças brasileiras na Segunda Guerra Mundial e, quando cadete, na Escola Militar de Agulhas Negras, compôs o hino da corporação, até hoje utilizado em todas as cerimônias oficiais da instituição. Antônio de Pádua faleceu em 1996. Luiz Antônio persiste vivo na lembrança de poucos, mais fiéis, admiradores, como o escriba dessas linhas.
    Sábado de carnaval, tem tudo a ver com os sambas e marchinhas de Luiz Antônio. Mas, me lembrei dele por outro motivo.  Hoje, minha neta Sofia, morando em Amsterdam, completa quinze anos. Luiz Antônio tinha duas filhas. Segundo depoimento de Sônia, uma das suas filhas, quando ela completou quinze anos o compositor presenteou-a com uma canção chamada Menina Moça. A música, lançada em 1960, foi um grande sucesso no Brasil e teve, na época, várias gravações nos Estados Unidos, sendo a mais conhecida a do respeitado músico de jazz Stan Getz. Em 2015, o saxofonista norte-americano Kenny G regravou a Menina Moça. Incapaz de forjar palavras mais apropriadas do que aquelas que Luiz Antônio escreveu para sua filha que completara quinze anos, me vali das mesmas palavras do grande compositor brasileiro para celebrar, mesmo a distância, o aniversário de minha neta Sofia, neste dia tão marcante na vida de uma mulher, a simbólica passagem de menina para moça.
Menina Moça – Miltinho e Luiz Melodia



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