Flávio Bolsonaro, filho do Riocentro?

Por: Rui Leitão

Há 45 anos, em 30 de abril de 1981, militares ligados à extrema direita, inconformados com o processo de abertura política, protagonizaram um dos episódios mais sombrios da história da ditadura militar: o atentado do Riocentro. O plano era explodir bombas durante um show em comemoração ao Dia do Trabalhador, atribuir a ação à esquerda e criar um clima de terror que comprometesse o processo de redemocratização do país.

Coincidentemente, naquele mesmo dia nascia Flávio Bolsonaro, candidato derrotado na eleição presidencial deste ano. A coincidência histórica inspira uma pergunta provocativa: seria ele, metaforicamente, um filho do Riocentro?

Naquela noite, um capitão e um sargento do Exército atravessaram o Rio de Janeiro em uma operação clandestina, transportando bombas destinadas a atingir um evento que reunia milhares de pessoas. A tragédia só não assumiu proporções ainda maiores porque uma das bombas explodiu prematuramente, dentro do carro em que os militares estavam.

O show reunia artistas como Gonzaguinha, Chico Buarque, Alceu Valença e Gal Costa, nomes de destaque na resistência cultural à ditadura. Muitos artistas haviam enfrentado a censura, a perseguição e o exílio. A estimativa era de que mais de 20 mil pessoas estivessem no local.

Durante sua apresentação, Gonzaguinha denunciou a tentativa de intimidação. O atentado poderia ter provocado uma carnificina e se tornado um dos mais graves atos de terrorismo político da história brasileira.

O objetivo atribuído aos responsáveis pela operação era criar as condições para responsabilizar setores da esquerda e alimentar a reação contra a abertura política. O episódio expôs a resistência de setores da extrema direita militar à redemocratização e revelou até onde poderiam chegar para tentar impedir o avanço das liberdades democráticas.

A coincidência entre o atentado e o nascimento de Flávio Bolsonaro não estabelece qualquer ligação causal entre os dois acontecimentos. O que torna a associação politicamente provocativa é a trajetória pública da família Bolsonaro e sua conhecida defesa da ditadura militar.

Anos depois daquele 30 de abril, Jair Bolsonaro ingressaria na política como defensor do regime que perseguiu, prendeu, torturou e matou opositores. Sua atuação pública seria marcada pela exaltação do golpe de 1964 e pela defesa de agentes da repressão.

 

Flávio Bolsonaro seguiu uma linha semelhante em suas manifestações políticas. Em seu livro Mito e Verdade, publicado em 2017, atribuiu aos agentes da repressão um papel que, segundo a citação a ser conferida na edição original, justificaria tratá-los como heróis nacionais. Seu pai, por sua vez, homenageou publicamente o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido como torturador durante a ditadura, apresentando-o como alguém que teria cumprido seu dever de defender a pátria.

 

A família Bolsonaro também protagonizou controvérsias em torno da memória das vítimas do regime. Entre os episódios mais conhecidos estão as declarações de Jair Bolsonaro sobre Ustra e as tentativas de relativizar a responsabilidade dos agentes estatais pela violência política. O assassinato do ex-deputado Rubens Paiva, cuja morte sob custódia da repressão foi reconhecida pelas investigações históricas, permanece como um dos símbolos dessa violência.

Na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro também se manifestou favoravelmente à ditadura e às comemorações de 31 de março, data associada pelos defensores do regime ao golpe de 1964. Em pronunciamentos parlamentares, expressou orgulho e gratidão aos militares, ressaltando os supostos avanços do período e criticando o que considerava uma visão excessivamente negativa do regime.

É nesse terreno, o da memória histórica e das posições políticas publicamente assumidas, que a provocação inicial ganha sentido. Não porque a data de nascimento determine o destino de alguém, mas porque a história oferece referências para avaliar ideias, discursos e compromissos democráticos.

Coincidência do calendário? Sem dúvida. Mas, na política, há ironias que parecem escritas pela própria história. A data de seu nascimento acabou lhe reservando uma ironia histórica difícil de ignorar.

 

“Para acompanhar a leitura, Gonzaguinha empresta sua voz à memória de quem resistiu e fez da liberdade uma luta que não pode ser esquecida.”

Curadoria – Gorette Wanderley

 

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