
Por: Antonio Henrique Couras
“Os lugares mais quentes do inferno estão reservados àqueles que, em tempos de grande crise moral, mantêm a sua neutralidade.”
A frase é quase sempre atribuída a Dante. Dante, na verdade, nunca a escreveu. O erro atravessou décadas e acabou adquirindo vida própria. Mas, como acontece com algumas boas falsificações, ela guarda alguma fidelidade ao original. No terceiro canto do Inferno, Dante encontra, ainda antes dos círculos infernais, as almas daqueles que passaram pela vida sem tomar partido, sem praticar propriamente o bem nem o mal, preocupados demais em preservar a si mesmos para se comprometer com qualquer coisa. Não merecem o céu. O próprio inferno parece não querer a companhia deles. Séculos depois, Hegel encontraria outra maneira de falar dessas almas.
Na Fenomenologia do Espírito, aparece a figura da “bela alma”. É a consciência tão preocupada em conservar a própria pureza que teme agir. Porque agir significa escolher. Escolher significa excluir possibilidades, assumir riscos, produzir consequências que nem sempre controlamos. Significa descobrir que entre aquilo que imaginamos e aquilo que conseguimos realizar existe um mundo inteiro, cheio de gente, interesses, limitações, erros e contradições. A bela alma prefere não se sujar.

Permanece então no conforto da consciência. Seus princípios continuam perfeitos porque nunca foram postos à prova. Suas mãos permanecem limpas porque nunca tocaram coisa alguma. E, dessa posição privilegiada, ela observa aqueles que agem e descobre neles todas as contradições possíveis. Quem governa erra. Quem escolhe se compromete. Quem participa eventualmente se contradiz. Quem tenta construir alguma coisa termina, inevitavelmente, coberto de pó. É muito fácil ser impecável quando se permanece sentado.
Talvez por isso a figura da bela alma tenha envelhecido tão pouco. Dois séculos depois de Hegel, ela continua passeando entre nós, muitas vezes orgulhosa de uma palavra que transformamos quase em virtude: “apolítico”.
No Brasil, conhecemos bem o personagem. É aquele que anuncia, às vezes com certo orgulho, que “não gosta de política”, como quem informa que não frequenta ambientes de reputação duvidosa. Política seria uma espécie de lata de lixo coletiva onde vivem corruptos, fanáticos, oportunistas e gente inconvenientemente interessada pelo destino do país. Ele, felizmente, estaria acima disso.

Não discute política. Não quer saber de partido. Não acompanha decisões públicas. Não deseja envolver-se. Quando muito, observa de longe e conclui que “é tudo a mesma coisa”.
Há razões compreensíveis para esse afastamento. Decepção, cansaço, desconfiança das instituições, aversão ao conflito, repulsa à corrupção. Não é difícil entender por que alguém olha para a política brasileira e sente vontade de atravessar a rua. O problema começa quando confundimos afastamento com neutralidade. Porque a política não desaparece quando deixamos de olhar para ela.
A escola continua dependendo de decisões políticas. O posto de saúde também. O preço da passagem, os impostos, o saneamento, o salário mínimo, a universidade, a segurança, as regras ambientais, o planejamento das cidades, os direitos trabalhistas, as prioridades do orçamento público. Podemos abandonar a política, mas ela demonstra uma irritante falta de educação e se recusa a nos devolver a gentileza.

Não participar também produz consequências. Talvez essa seja a ligação mais interessante entre Dante e Hegel. Em ambos existe, por caminhos completamente diferentes, uma desconfiança daquela alma que pretende atravessar o conflito humano sem escolher, sem agir e, principalmente, sem assumir qualquer responsabilidade pelo resultado. A política, afinal, é impura porque a realidade é impura.
Não há orçamento infinito. Não existem governos sem contradições. Não existem partidos compostos exclusivamente por sábios. Não existem movimentos sociais formados apenas por santos. Não há candidato, eleitor, jornalista, empresário, sindicalista, juiz ou cidadão que atravesse a vida pública carregando uma auréola perfeitamente alinhada sobre a cabeça.
Isso não significa que todas as escolhas sejam equivalentes, nem que qualquer conduta deva ser desculpada em nome de um suposto realismo. Significa apenas que exigir pureza absoluta como condição para participar da vida coletiva é uma maneira bastante eficiente de nunca participar dela.

Costumamos dizer que a política é suja e, por isso, pessoas decentes deveriam manter distância. Mas o raciocínio merece ser virado do avesso: se todas as pessoas que se consideram decentes resolverem abandoná-la justamente porque ela está suja, quem permanecerá para limpá-la?
Criamos então um círculo vcioso. A política nos decepciona, afastamo-nos dela; afastados, reduzimos nossa capacidade de fiscalizá-la, disputá-la e transformá-la; depois olhamos novamente para o resultado e usamos sua degradação como prova de que fizemos muito bem em nos afastar.
A bela alma contempla a lama da margem e felicita a si mesma pela limpeza dos próprios sapatos. Enquanto isso, alguém precisa atravessar o rio.
Talvez o problema não esteja em termos almas demais interessadas por política, mas em termos muitas almas convencidas de que a própria virtude depende de permanecer longe dela. Pessoas que transformaram desencanto em identidade e indiferença em sinal de superioridade.

Hegel desconfiava dessa pureza porque sabia que uma ideia que se recusa a entrar no mundo permanece apenas ideia. Na sua descrição mais dura, a bela alma termina definhando dentro de si mesma, incapaz de transformar aquilo que considera verdadeiro em alguma coisa concreta. Uma sociedade pode sofrer do mesmo mal.
Democracia não é um objeto colocado numa redoma, funcionando sozinho enquanto cuidamos de assuntos mais agradáveis. É uma construção humana e, portanto, barulhenta, imperfeita, frustrante e permanentemente inacabada. Participar dela não exige santidade. Exige aceitar que viver com os outros significa inevitavelmente entrar em contato com aquilo que gostaríamos de manter longe das nossas mãos.
Talvez Dante nunca tenha escrito que os lugares mais quentes do inferno pertencem aos neutros. Mas colocou diante das portas do seu Inferno almas que passaram pela vida sem merecer nem condenação nem louvor, justamente porque jamais se comprometeram com nada. É uma imagem mais poderosa que a frase inventada. Porque o castigo delas não é o fogo. É a irrelevância.

“A consciência não se mede pela distância que mantém dos conflitos, mas pela responsabilidade que assume diante deles.”
Curadoria – Gorette Wanderley




