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O boicote ás águas da transposição do Rio São Francisco

O Projeto de Integração Das Águas do Rio São Francisco com o Nordeste Setentrional – PISF era um anseio centenário da unanimidade da população do semiárido. Diante da dura realidade da escassez de chuvas as discussões sobre as estiagens prolongadas tiveram início ainda  na época do império.
Há quem diga que D. Pedro II em visita ao Ceará, teria se assustado com as condições de vida no semiárido e afirmado que: “venderia a última joia da coroa real para evitar que os nordestinos passassem sede.” Nesse interim e comovido, ele determinou a construção do primeiro açude público do nordeste brasileiro, o Açude do Cedro na cidade cearense de Quixadá.

Um órgão público para tratar do fenômeno das secas foi criado logo depois em 1909, porem  já nascia com o equivocado propósito de combate e não de convivência com as secas. Trouxe em sua sigla um erro de origem, o qual fortaleceu durante muito tempo  esse conceito equivocado de combate, que foi a Inspetoria Federal de Obras Contra a Seca – IFOCS, evoluindo  depois para Departamento Nacional de Obras Contra  a seca – DNOCS.  

A ação inglória e inócua de combate ressaltada no C das siglas, teria um efeito semelhante ao combate ao gelo no Alaska ou na Sibéria, ou até mesmo o combate à neve nos Alpes suíços, onde a convivência com esses fenômenos naturais é pacífica e sequer se ouve falar que eles existem. Não se ouve falar que a Espanha é seca, nem que o maior rebanho bovino de corte do mundo é localizado no estado do Texas nos USA, muito mais seco do que o nosso agreste. E  se não se ouve falar é  porque para eles a convivência com a seca é pacífica .
A briga contra a natureza é a certeza de uma guerra perdida. A racionalidade aconselha que ao invés de brigar com a natureza, procuremos  conviver naturalmente com ela, de forma a minimizar seus efeitos.

Todavia, para a eficácia dessa ideia, necessário se faz a construção de um elenco de obras, um verdadeiro arsenal hídrico, a ser usado de forma simultânea, sempre que houver recorrência do fenômeno.

Em 1° de janeiro de 2003, assumiu a Presidência da República um nordestino de Garanhuns, (Caetés) que juntamente com a família foi tangido para São Paulo ainda menino, como mais uma vítima dos efeitos das secas.

Por ter sentido na pele os efeitos da estiagem inclemente e por haver passado fome e sede em decorrência dela, ele enfrentou com determinação, estoicismo e muita coragem, a resistência ferrenha de grupos empresariais que não queriam sequer ouvir falar na execução da obra, em que o  manancial fosse  o Rio  São Francisco.

Lula resgatou o projeto original engavetado na gestão de Fernando Henrique Cardoso, onde as águas do São Francisco eram apontadas como a solução mais adequada por ser a fonte disponível mais próxima. Ato continuo ele determinou uma revisão criteriosa do projeto, de modo a torna – lo funcional e de menor custo possível.

A revisão do projeto mirou no binômio custo X benefício e propôs uma execução que atingisse a mais ampla capilaridade possível.

A proposta apontou para dois eixos principais a saber: Eixo Leste e Eixo Norte, contemplando os estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte.

Contra a execução do projeto foi armada uma verdadeira artilharia de opiniões contrárias e paradoxalmente entre elas, a do paraibano de Campina Grande e então Superintendente da Sudene Cassio Cunha Lima, que alegou inviabilidade econômica, mesmo diante da iminência de um colapso sem uma solução visível na sua cidade natal.

O Eixo Leste tem a sua captação ou tomada d’agua, na barragem de Itaparica no estado de Pernambuco, com uma extensão de 217 Km, com  distribuição em marcha entre os estados de Pernambuco e Paraíba. As vazões de retirada, ditadas pelo maior ou menor uso, são de 7m3/s na média das mínimas e 25.20m3/s na média das máximas, que ocorrerá quando a Barragem de Sobradinho estiver vertendo por excesso de água.

O Eixo Norte tem a sua captação ou tomada d’agua direta no Rio São Francisco no município de Cabrobó, com uma vazão média das mínimas de 19,4m3/s e uma vazão média das máxima de 89,10m3/s quando a Barragem de Sobradinho tiver vertendo por excesso de água.

O Eixo Leste era e continua sendo o verdadeiro e ultimo fio de esperança para toda população do compartimento da Borborema, aí incluída a sua maior cidade que é Campina Grande.

A bem da verdade a obra vinha sendo executada em ritmo acelerado e tempo integral tanto na gestão do Presidente Lula o seu idealizador, quanto na gestão da Presidenta Dilma, que manteve o compromisso e o ritmo   da execução.

O colapso no abastecimento de Campina Grande era iminente e já se especulava qual deveria ser a alternativa de abastecimento para a cidade. Ou seja, era a crônica de uma morte anunciada, pois restava apenas a reserva de porão ou reserva intangível do Açude de Boqueirão que já vinha sendo usada, com uma água de  qualidade inferior, mas mesmo assim num rigoroso racionamento.
Foi nessa ocasião que o Governador Ricardo Coutinho dirigiu – se à Presidenta Dilma e fez um apelo em forma de desafio: “Presidenta, garanta a chegada da água no divisor de águas da cidade de Monteiro, que o governo do estado da Paraíba abreviará a chegada dela ao Açude de Boqueirão através da calha do Rio Paraíba. Vamos nos antecipar ao colapso!”
A Presidenta Dilma aceitou o repto e determinou aos órgãos envolvidos todas as medidas necessárias para que a água chegasse a Monteiro. Determinou também que fossem colocadas em funcionamento toda as unidades que já estivessem prontas, as quais passaremos a mostrar a seguir, nos valendo da descrição da professora Ana Beatriz Gomes Wanderlei:

“Estações de Bombeamento: estão localizadas em sítios onde é imprescindível o recalque das águas de um patamar topográfico, a outro de cota mais elevada. No seu conjunto, as seis estações de bombeamento do Eixo Leste, vencem um desnível de 300,00m desde a captação até o deságue do sistema. A montante e a jusante de cada estação foram projetadas duas câmaras de carga, chamadas de forebays, com a finalidade de reduzir as oscilações de nível nas operações de parada e partida das bombas. As seis estações de bombeamento do Eixo Leste (EBV-1 a EBV-6) estarão equipadas com quatro conjuntos motobombas, sem unidade de reserva. As estações EBV-1, EBV-2, EBV-3 e EBV-4 têm capacidade total de bombeamento de 28,00 m³/s, ou seja, 7,00m³/s por bomba. As estações EBV-5 e EBV-6 têm capacidade total de 18,00 m³/s, sendo, portanto, de 4,50 m³/s a vazão de cada bomba. As vazões recalcadas pelas estações de bombeamento são conduzidas por duas adutoras de aço até a estrutura de descarga situada no forebays de jusante de cada estação.

Barragens: foram planejadas para as ocasiões onde a transposição dos rios pelo sistema adutor em aqueduto era menos viável em termos econômicos. Os reservatórios dessas barragens, ligados por segmentos de canais, têm a função hidrodinâmica de reduzir os níveis d’água para jusante nas paradas das estações de bombeamento e servirem de compensação para alimentação do sistema nessas ocasiões. As águas de contribuição das bacias hidrográficas dessas barragens são aproveitadas no sistema de adução. No Eixo Leste, Lote C, estão projetadas 12 barragens:
Areias, Braúnas, Mandantes, Salgueiro Muquém, Cacimba Nova, Bagres, Copiti, Moxotó, Barreiro, Campos e Barro Branco. No Lote D, para otimizar o sistema adutor foram criados reservatórios ao longo do traçado, denominados de reservatórios de compensação, que fornecem água ao sistema, mantendo-o em funcionamento no período de paralisação de três horas diárias (horário de pico), sem grandes oscilações. Assim, regularizam diariamente as vazões, compensando as paradas do sistema de bombeamento no horário de pico.

Canais de Condução: Carreiam as águas de forma gravitacional de uma estação de bombeamento a outra passando pelos reservatórios de compensação das barragens. Têm seção trapezoidal, são impermeabilizados com geomembrana e revestidos com placas de concreto simples. Os taludes externos dos trechos em aterro são protegidos com transição e enrocamento fino. As bermas dos canais foram projetadas de forma a proporcionar o trânsito de veículos para as operações de manutenção. De todas as obras necessárias para realizar a transposição de águas, os canais são a solução mais extensamente empregada, totalizando mais de 100 km divididos em 17 segmentos. Esses segmentos são separados pelas diversas estruturas que compõem o sistema, tais como barragens, aquedutos, túneis, estações de bombeamento e galerias.” ( Ana Beatriz Gomes Wanderlei,2017)

O enchimento de todas as barragens intermediárias até o nível máximo de modo a permitir um fluxo normal demandaria alguns meses e não haveria tempo suficiente diante da calamidade que se aproximava.
Então houve um entendimento com o governo do estado de São Paulo, o qual cedeu a tubulação e as bombas usadas na crise de racionamento do sistema Cantareira, para possibilitar um atalho hidráulico. De posse delas foi possível abreviar consideravelmente a chegada da água à calha do Rio do Meio em Monteiro e daí ao leito natural do Rio Paraíba.
O governador Ricardo Coutinho determinou que simultaneamente fosse feito o trabalho de desobstrução e regularização da calha do Rio Paraíba, num ritmo de trabalho frenético e diuturno, que durou uns 40 dias aproximadamente. A equipe passou a acompanhar a água até chegar à Barragem de Boqueirão e aos mais de 400 mil habitantes de Campina Grande, livrando – os do colapso assustador. A participação da SUDEMA foi fundamental para evitar danos ambientais ao leito e às margens do Rio.

No tocante ao Eixo Norte, até acontecer o impeachment da Presidenta Dilma, inclusive com o voto de parlamentares paraibanos indiferente ao infortúnio da população, haviam sido concluídos 92% das obras, faltando 8% que até hoje se arrasta a passo de tartaruga.
No estado do Ceará a obra já funciona em parte, muito mais pelas ações do governador Camilo Santana que não esperou pelo governo federal para dar início ao Cinturão das Aguas Cearense.

Com relação à Paraíba, há informações de que a ligação entre a Barragem do Caiçara e a Barragem  de Boqueirão de Piranhas (Eng° Ávidos) está  concluída porém só entrara em funcionamento em janeiro de 2022.

 

A ligação entre as duas barragens foi  feita através de um canal de concreto de aproximadamente 6Km, sequenciado pelo leito de um riacho tributário da Barragem de Boqueirão de Piranhas que foi retificado e adaptado.

Confesso que tivemos dificuldades para conseguir informações e até fotografias dessa obra que dizem estar concluída. As informações dos órgãos oficiais são muito escassas e a transparência deixa a desejar. Isso talvez se deva ao fato de o cronograma físico ter sido quase concluído nos governos Lula/Dilma, restando pouco a dizer ou mostrar.

Considerações Finais: Na execução do projeto do PISF a Paraíba foi bem contemplada com a entrada por dois eixos o que sem dúvidas facilita enormemente uma maior e necessária capilaridade, visando a maior cobertura possível.

Além dos canais adutores de maior calibre que foram construídos se fazem necessárias ações efetivas dos governos estaduais na construção de obras complementares de menor porte, mas necessárias. Todavia é imperativa a construção  do Terceiro Eixo onde as obras são de caráter interestadual e por isso a construção deve ser de responsabilidade do  governo federal, ou  em consórcio com os estados do Ceará e da Paraíba.

Ressalte – se que uma faixa de 84km que atravessa todo centro do nosso estado e tem como mediatriz a cidade de Patos, ou seja, 42Km para Leste e 42Km para Oeste, precisa ser contemplada e nesse caso a solução mais simples é a construção do terceiro eixo, uma grande artéria coadjuvada pelo sistema distributivo estadual que funcionariam como as veias.

É pertinente relembrar que no governo Ricardo Coutinho e com esse propósito, foram construídos mais de 1500 Km de adutoras de diâmetros variáveis para atender os mais distantes rincões do estado e esse trabalho precisa ser sequenciado.

Essa é uma pauta robusta que a bancada federal da Paraíba tem obrigação  de  adotar como prioridade. A articulação  com a bancada do parlamento estadual e as representações parlamentares dos demais estados envolvidos, conferirá a  musculatura política necessária para enfrentar a má vontade e a resistência desse arremedo de governo federal que tem sido insensível, omisso e indiferente às calamidades.  A  seca é uma delas.

O boicote do atual governo a um projeto tão importante,  nos faz relembrar que se não fosse a histórica decisão política de Lula e Dilma em tornar a obra do PISF irreversível, ela teria sido definitivamente arquivada.

A obra como foi concebida é muito importante e atenderá à parte noroeste da Paraíba, enquanto o Eixo Leste atenderá a parte Leste e Sudeste. Portanto o Terceiro Eixo contemplando o complexo Coremas Mãe D’água é indispensável porque complementará a capilaridade no atendimento a todo Sertão e Alto Sertão da Paraíba e parte do Agreste.

Com a palavra a representação política da Paraíba!

Consulta: Aspectos Operacionais da Transposição do Rio São Francisco.

Fotografias:

Águas da Transposição chegam a Cabrobó e Terra Nova | Blog do Carlos Britto

 

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