
Por: Neves Couras
Estou sempre voltando a falar de quem cuida, referindo-me, desta feita, aos cuidadores dos pacientes com a doença de Alzheimer, que é uma condição neurodegenerativa progressiva que causa perda de memória, declínio cognitivo e alterações de comportamento.
Antes de falarmos dos cuidadores do doente de Alzheimer, é necessário relembrar que, segundo minha experiência, após acompanhar quatro familiares com essa enfermidade, pude perceber que nenhum paciente apresenta exatamente o mesmo comportamento que outro. Desses familiares que tive a felicidade de acompanhar, desde os primeiros sintomas até suas partidas, sendo um homem e três mulheres, posso dizer que cada um agiu de acordo com sua personalidade.
Torna-se difícil até mesmo para o médico que os acompanha ter pleno conhecimento de como cada paciente age apenas por meio de uma consulta e do depoimento de quem vai ao consultório acompanhando esse paciente. Quero deixar claro que o médico foi nosso grande apoio durante toda a doença das três mulheres.

Meu relato será apenas sobre a primeira paciente, pois o espaço não nos permite contar a história de todos. Volto a falar neste tema porque, a cada dia, percebo mais idosos com essa enfermidade e gostaria, de alguma forma, de tentar ajudar os familiares a lidar com essa situação. Em sua maioria, são pessoas pelas quais desenvolvemos profundo afeto, e vê-las já com os primeiros sintomas, sem compreender o que está acontecendo, é muito doloroso. Ainda assim, vejo cuidadores ou familiares sem a menor paciência com o enfermo, o que nos dói profundamente.
Falarei da primeira paciente desde o aparecimento da enfermidade.
A paciente “A”, antes do diagnóstico, era uma pessoa culta e educada. Lia muito e estava atenta a tudo o que se passava no mundo. Gostava de estar sempre bem-arrumada, com as unhas feitas e o cabelo bem cuidado. Usava sandálias com pequeno salto e era amável com todos os vizinhos. Os primeiros sinais da doença foram as perguntas repetidas inúmeras vezes, e foi nessa repetição que apareceram as primeiras incompreensões. Não se sabia praticamente nada sobre a enfermidade ou sobre seus sintomas.

Demonstrava certa incompatibilidade com a filha mais velha, justamente aquela que estava com ela todos os dias, pois eram vizinhas. No entanto, embora a filha fosse casada e tivesse filhos, ela, de certa forma, não aceitava os netos dessa filha, com exceção do mais novo, que é muito branco, como ela. Também rejeitava o neto da terceira filha, que era moreno. Aí apareceram de forma muito clara os primeiros sinais de um racismo que, embora soubéssemos que existia, ela escondia muito bem.
Outro dos primeiros sintomas da doença foi começar a desconfiar de todos dentro de casa, inclusive dos filhos, pois dizia que estava sendo roubada. Escondia seu dinheiro nos lugares mais improváveis, o que fazia com que acabasse perdendo-o.
Como era muito independente, a princípio não aceitava que ninguém administrasse seu dinheiro, tampouco seus medicamentos. Vivia sozinha até que surgiram sintomas de dores na vesícula e ela precisou ser operada. Ela teve cinco filhos, inclusive uma gestação gemelar, e todos nasceram em casa, com o auxílio de uma parteira com formação.

Ao se ver em um apartamento no hospital, como nunca em sua vida havia precisado ser internada, teve a primeira crise: surtou. Teve que ir para a sala de operação já meio grogue. Ao sair da cirurgia e retornar da anestesia, já não reconheceu a primeira filha nem o segundo filho. Essa foi uma das primeiras grandes dores que a família teve de enfrentar: ver a própria mãe sem reconhecer seus filhos.
O segundo problema foi fazê-la aceitar uma pessoa em casa para dormir com ela e preparar sua comida. Depois de uma noite sem dormir e chorando, finalmente aceitou que uma pessoa estranha permanecesse em sua casa.
Surgiu, então, outro problema: a senhora que veio morar com ela tinha o mesmo nome da mulher de seu ex-marido. Diante disso, sabiamente, mudamos o nome pelo qual chamávamos a senhora, e assim permaneceu.

Entre os dias em que saiu do hospital, após a cirurgia da vesícula, e sua volta ao hospital, porque broncoaspirou, ainda desenvolveu a necessidade de passar a noite tomando banho. Era uma mulher muito cuidadosa com seu corpo e suas roupas. Acredito que esse tenha sido outro traço de sua personalidade que ela perpetuou, mesmo já sem saber exatamente o que estava fazendo.
Não foi fácil para nenhum membro da família vê-la daquele jeito, mas preciso dizer que nunca nos faltaram amor e paciência com ela até seus últimos dias na Terra. Ainda tivemos a companhia de dois anjos que cuidavam dela, pois não conseguíamos fazer tudo sozinhos.
Todo esse relato é para dizer a quem está passando por esse problema que, como acreditamos que a dor também nos ensina, é preciso agradecer a Deus todos os dias pela oportunidade de aprendizado. Foi ela quem nos proporcionou um aprendizado do qual precisaríamos pouco tempo depois.
Mesmo que ele ou ela já não os reconheça, vocês sabem quem eles são. Amem-nos e aproveitem o tempo que resta para estarem juntos.

“Mesmo quando a lembrança se ausenta, ainda podemos nos encontrar no cuidado.”
Curadoria – Gorette Wanderley




