O que nos ajuda a viver bem após os setenta?

Por: Neves Couras

De repente, estou com setenta anos. Este artigo não é um manual para se viver bem, mas, após ver na minha própria família tias e mãe longevas, mesmo sendo portadoras de Alzheimer, comecei, em primeiro lugar, a me olhar com um olhar exigente, sem complacência. Fiz uma revisão dos meus atos ao longo da vida, agora que desponto nesta ponte entre a vida e a morte.

Vi vários vídeos de especialistas falando sobre o tema, o que me ajudou muito a decidir o que fazer e como fazer. O interessante é que, apesar da idade, não me sinto uma setentona, não. Ainda me sinto jovem. Sei que os cabelos brancos não nos perdoam e, por onde passo, me chamam de idosa. É evidente que estou idosa, não velha.

Sei que alguns problemas de saúde, como o líquen, uma doença autoimune que desenvolvi aos 26 anos, apesar de ter convivido com ele e com suas consequências, me ensinaram a ser mais paciente e também ter muito respeito ao ser humano. As dores psicológicas causadas pela rejeição e os tantos medicamentos que tomei alteraram meus órgãos e, se, de um lado, me deixaram mais sensível, de outro, a fé e o apoio familiar me ajudaram a passar por essa fase.

Voltei à vida normal, mas a cura interior demorou muito. Fiquei “marcada” pelos ferimentos na pele por aproximadamente cinco anos.
Depois, quando fiquei com a pele limpa e meu terceiro filho nasceu, aconteceram problemas que minhas forças de defesa não suportaram. Diante das dores, novamente desenvolvi uma doença autoimune, desta vez o lúpus. Essa doença é só para os fortes. Acho que Deus gosta muito de mim e quis que eu passasse por problemas para testar minha paciência, minha resiliência e minha capacidade de perdoar. Essa enfermidade carrego e carregarei até voltar para a outra vida.

Ela afeta, além do psicológico, os ossos e o fígado e pode realmente matar, por exemplo, em caso de gravidez. Já não era minha intenção engravidar, mas, para mulheres que ainda desejam ter filhos, a gravidez pode exigir muitos cuidados. Não posso tomar sol após as sete da manhã e não posso suar. Onde o suor aparece, fico com manchas vermelhas que se assemelham à rosácea.

Faço todo esse relato para dizer que, apesar de todas as dores e decepções que foram “gatilhos” para esses problemas, embora hoje me sinta mais fragilizada, desenvolvi, através da fé e dos médicos espirituais, uma força que só a fé nos faz compreender. Aprendi também a aceitar viver com certas limitações, inclusive na alimentação.

Hoje, aos 70 anos, ainda quero viver e pretendo ser cada vez mais independente, mesmo convivendo com o lúpus. Preciso ter uma vida de tranquilidade, o que sabemos ser quase impossível. Mas sou muito enfática em minha fé.

Em muitos vídeos, especialistas que falam sobre a vida após os setenta nos orientam a procurar viver ao lado de pessoas que não sejam nocivas à nossa saúde. Também não devemos confundir as pessoas que estão em nossos aplicativos e redes sociais com verdadeiros amigos. Poucos são realmente nossos amigos. Os que temos verdadeiramente devem ser cultivados: podemos convidá-los para um café, sair juntos ou juntas para assistir a um filme, conversar e dar boas gargalhadas, não da vida dos outros, mas principalmente da nossa.

Precisamos cuidar do nosso corpo com muito carinho e, se quisermos ser independentes, devemos fazer exercícios. Se você não gosta muito de filmes, tente assistir a alguns que falem de amores profundos e tenham finais felizes.

Não faço muitos exercícios porque, no momento, não estou podendo, mas, mesmo em casa, faço meus alongamentos e estou desenvolvendo a capacidade de voltar a ter pernas fortes, para não cair e não precisar ter sempre alguém ao meu lado para me ajudar.

Quando fiquei viúva, há dois anos, passei por muitas dificuldades. Elas não foram maiores porque sempre assumi a direção da casa e das finanças, como verdadeira economista. Mas havia coisas que eu não sabia e que meu falecido marido deixou sem resolver, o que nos trouxe muitas dificuldades. Por tudo o que passei, o lúpus voltou com toda a sua força, mas estou melhorando.

Como filha e sobrinha de excelentes bordadeiras, enquanto minha cabeça voltava ao prumo, resolvi fazer uma colcha de cama de crochê. Isso me ajudou muito. Passei, durante esses dois anos, por períodos em que não conseguia ler, mas fui assistir aos filmes que, havia anos, estavam em minha lista de coisas para fazer. Nunca, porém, deixei de ter forças para escrever estes artigos e ainda publiquei um livro.

Estou voltando, finalmente, a reassumir minha função de escritora e, como poetisa, consegui, através de concursos, publicar algumas poesias.

Cobro muito de mim mesma, mas estou aprendendo que, com esse último aparecimento do lúpus, meu corpo está mais fragilizado. Mas não me entrego. Irei usar toda a minha capacidade cognitiva e física para que, enquanto viver, não dê tantas preocupações aos meus filhos e à minha neta. Quando ela me vê de olhos fechados, rezando, corre e chama Antônio ou a mãe dela, dizendo:

“Corram ali, que vovó está passando mal!”
Tenho ainda dois dos meus irmãos, que me ligam diariamente por chamada de vídeo para me ver e saber como estou.
Ofereço este texto a todos aqueles que, como eu, enfrentam dificuldades de saúde, e também àqueles que têm uma vida saudável, para que se cuidem. Procurem viver bem. O bom humor ajuda, as alegrias nos fazem melhores e, aos que resolveram parar, digo: procurem se mexer.

Quando estou me sentindo saudável, coloco um disco em minha vitrola e danço sozinha. Isso me faz muito bem.
Que saibamos aproveitar a vida. Nunca é tarde.
Estou recomeçando agora!

 

“Os anos seguem adiante; rejuvenescer é dar ao coração novas primeiras vezes.”

Curadoria – Gorette Wanderley

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