As eleições brasileiras de 2026

Por: Mirtzi Lima Ribeiro

Estamos em pleno ano eleitoral, em vias de termos uma majoritária, e em tese o Senado poderia renovar mais de dois terços de seus representantes. Dentre as 81 vagas existentes, 54 serão disputadas. Segundo informações da Rádio Senado há indicativo de que a mudança ainda poderá ser maior, porque 27 senadores que ainda estão com seu mandato em curso, disputarão cargos no âmbito do Poder Executivo nessas eleições (caso sejam eleitos nesse outro poder, tais vagas serão preenchidas por seus suplentes, isto é, substitutos oficiais que constavam na chapa de cada candidato no pleito que ingressaram, conforme a praxe, e não por sufrágio de votos).

Quanto à Câmara dos Deputados, pesquisas apontam que um contingente entre 85% e 90% dos 513 deputados tentarão sua reeleição. Quanto às candidaturas à presidência da República, tem-se 13 registradas oficialmente, até o momento da lavra desse texto.

Uma das questões sobre a eleição deste ano recai nas regras jurídicas e logísticas relacionadas à propaganda digital e ao uso de tecnologia de Inteligência Artificial (IA), regulação que será imprescindível à manutenção de um certo nível de ética e de civilidade. Isso porque o uso, tanto de imagem quanto de voz idênticas à pessoa humana retratada, poderá desvirtuar a informação em relação aos fatos, além de posicionamentos e falas alheias a eles. Tal ocorrência é tóxica e maléfica para um bom andamento em um pleito dessa envergadura. Apesar das normas já postas pelo TSE, urge uma ampla fiscalização assim como o aprimoramento constante desse tipo de regulação.

Eu acompanho as eleições há décadas, porque toda a estrutura montada sempre requereu mão-de-obra séria, treinada e disciplinada, com vistas a dar apoio logístico na recepção de votos e na respectiva apuração.

Por convocação, eu trabalhei nas eleições durante toda a minha vida adulta, desde meu primeiro voto, que à época foi aos meus 18 anos de idade. O voto a partir dos 16 anos foi instituído de modo facultativo com a promulgação da Constituição Federal de 1988. A primeira eleição com essa permissão ocorreu no pleito de 1989, onde jovens entre 16 e 17 anos puderam votar, se constituindo um marco amplamente festejado pelo movimento “Se liga, 16”.
Semelhante comemoração ocorreu pela conquista do voto feminino através do Decreto Nº 21.076, facultando o direito ao voto das mulheres em 24/02/1932 (há menos de 100 anos, contados em relação ao atual ano de 2026).

Mas, a grande questão no cenário do nosso país hoje, é a dimensão que tomaram as intrigas pessoais  por causa da disputa entre partidos políticos e candidatos, em um acirramento que gerou mortes e fortes desafetos ao longo dos mais recentes seis anos.

Em décadas passadas não víamos na disputa eleitoral esse nível atual de beligerância, de mentiras massivamente divulgadas, de tentativas de manchar a honra alheia, de incentivo a golpe de estado, de depredação de patrimônio público sistematizado e orquestrado, de perjúrio, de difamações, de baixarias e de ignomínias, de bastidores sombrios, de violência moral assim como física, de incitação aos ódios ferozes, do uso de artifícios escusos nos segmentos que organizam e assessoram candidatos.

Na história desse país, nós nunca tivemos um nível tão baixo nas atitudes e comportamentos, naqueles que disputam votos e naqueles que votam.

Relacionamentos entraram em colapso por conta desse fato, muitas famílias se desfizeram e passaram às contendas e agressões, as redes sociais passaram a destilar veneno e continuam a sangrar entre desafetos que se formaram por causa das bolhas ideológicas.

Certos eleitores bem como alguns candidatos se esqueceram das propostas, dos eixos temáticos imprescindíveis, dos projetos estruturantes e das demandas da sociedade que deveriam estar entre as prioridades das falas dos candidatos, para infelizmente, priorizarem a troca de agravos, querelas pessoais, picuinhas e mesquinharias do pior quilate. Passaram a valorizar o mais nefasto que o ser humano pode ser e demonstrar, esqueceram da civilidade, da educação, dos bons costumes, da lisura e da polidez. Transformaram os adversários em ideologia em inimigos mortais que precisam ser destruídos em sua vida pessoal e desqualificados com palavras e atos da pior estirpe.

Sinto saudades das antigas polarizações, dos debates de valor, do discorrer de propostas que se fixavam ao fluxo das demandas da sociedade e dos modelos de gestão que deveriam ser adotados, dos direitos basilares e das necessidades gerais da sociedade.

Há um detalhe nesse contexto, no que concerne ao Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), que foi instituído em 2017 pelo Congresso Nacional, com o objetivo de financiar as campanhas eleitorais.

Segundo o portal do TSE – Tribunal Superior Eleitoral, no ano de 2026 o montante do FEFC alcança o patamar de R$ 4.961.519.777,00 (quase 05 bilhões) a serem divididos proporcionalmente entre 30 partidos.

Para essa repartição e aproveitamento de seus recursos, são travadas brigas e intrigas, e até mesmo para burla ao escopo delineado para recepção do benefício. É um montante arrojado, desejado como aquela velha lenda do pote de ouro escondido no final do arco-íris.

As mulheres que se atrevem a colocar seu nome para ingressar no panteão de candidatos, são muitas vezes alijadas de sua intenção, e sua moral pessoal é explorada de modo pejorativo, além de que algumas delas figuram como fachada, apenas para que o partido x ou y consiga os recursos. Algumas denúncias foram apuradas nesse sentido e foi motivo de notícia em muitos periódicos, assim como divulgados na mídia televisiva e em tabloides.

O ponto é que eu nunca havia me deparado com um cenário tão dantesco, onde a verdade é açoitada e a mentira ganhou palco e show pirotécnico. Onde os números e os fatos sofrem atentados dia e noite, fazendo com que o cidadão comum fique órfão e sem saber qual é a verdadeira realidade e os verdadeiros fatos, dados e situação. É triste constatar que um cenário hediondo como esse tomou conta do país.

Ao mesmo tempo, alguns tentam minimizar crimes, fraudes, lavagem de dinheiro e fazem de conta que defendem uma verdade que se escondeu, de tão envergonhada diante de tanta coisa grotesca. E para piorar essa situação, procuraram desqualificar pessoas, instituições e órgãos de fiscalização. Porque descredenciar tais pessoas e instituições facilita o processo de disseminação da barbárie, pela fragilização que essas instituições passam a ter diante de parcela da população. Infelizmente!

Urge fazer um exame de consciência, de limpar o lixo das mentiras e das informações deformadas deliberadamente por um grupo sombrio e sem escrúpulos. Urge reavaliar cada fato e constatar o que é verdadeiro e limpo.

A política é necessária no dia a dia porque tudo o que fazemos é um ato político, tudo. Entretanto, no que diz respeito aos espectros político-partidários, é imperioso limpar os olhos do discernimento para que seja possível enxergar a situação real e conseguir fazer um juízo de valor abalizado e justo.

O ódio somado à ignorância ou à aceitação de informação deturpada, gera um cenário muito obscuro, que pode implodir qualquer sociedade. Para dirimir quaisquer dúvidas, é bom refletir nas seguintes afirmações que circulam na web:

Vacina salva vidas: um não aos grupos antivacinas!
A Terra é arredondada: ela não é plana!
Mulher vota: deve permanecer a garantia de direitos iguais!
Pobre pode se graduar no ensino superior: sim à justiça social e à cidadania!
Igreja não é palanque: deve ser apenas um local de orações e devoção!
É proibido “pintar clima” com criança: é preciso eliminar o abuso sexualizado de crianças!
O Brasil é soberano! – Basta de colonização de nosso povo, um sonoro sim à nossa soberania!

 

“Que cada voto acenda uma luz onde o ódio tentou impor escuridão.”

Curadoria – Gorette Wanderley

 

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