Por: João Vicente Machado Sobrinho
O processo eleitoral brasileiro referente o ano de 2026, entra em uma de suas fases decisivas. O período das convenções partidárias, já passadas, provocou uma grande agitação no cenário político, aproximando grupos, reorganizando forças, formalizando candidaturas e produzindo alianças que não raramente, surpreendem negativamente o eleitor.
Siglas que durante determinado período estiveram em campos distintos, passam a dividir palanques; antigos e ferrenhos adversários descobrem convergências dantes imagináveis; lideranças regionais recompõem seus espaços e projetos eleitorais, alguns deles de aspecto surreal e apresentados à sociedade como alternativas de futuro.

Tudo esse ritual, faz parte da dinâmica do modelo de democracia liberal capitalista. Como sabemos, o pluripartidarismo liberal, pela sua própria natureza é um espaço de negociações, de composições e construção de consensos, na maioria das vezes extravagantes. Seria ingenuidade de nossa parte, imaginar em uma eleição liberal, uma plenitude democrática plena, sem acordos e sem conchavos. Como a eleição para cargos executivos é praticamente inalcançável por um só partido, há a necessidade de recorrer as alianças. Se ela fosse feita baseada no conteúdo programático de duas ou mais agremiações partidárias, tudo bem. Porém quando a negociação deixa de ser instrumento de viabilização de projetos coletivos comuns e passa a ser conchavo, a grande massa eleitoral sai perdendo. Melhor dizendo, quando passam a ser subordinados aos interesses abusivos de grupos econômicos, vira instrumento de oligarquias ou de lobbys ambiciosos, desvirtuam por completo o sentido da democracia representativa.
O Brasil possui um grande número de agremiações partidárias, todas elas identificadas com o modus operandis do liberal capitalismo. À exceção de uma ou duas agremiações partidárias liberais de esquerda, em que parte majoritária dos membros, entende ser possível reformar o capitalismo. Em troca de algumas pequenas concessões que lhes permita manter o status quo e o poder de barganha de benefícios para si e para os familiares, passam a dizer amem junto com a maioria opressora.
A existência de um exagerado número de legendas, tem como justificativa ampliar a liberdade política através da radicalização da democracia. Ledo engano! a heterogeneidade partidária, na verdade esconde de forma solerte divergências fisiológicas no aspecto particular e no aspecto geral a preservação dos dogmas do liberal-capitalismo, em que “as leis” de mercado são a panaceia para todos os males econômicos e sociais, dirigido pela famigerada mão invisível do mercado.

Essa pluralidade das siglas, segundo os arautos do liberalismo, é uma forma de fortalecer a democracia, contemplando a pluralidade de ideias, projetos e benefícios coletivo.
Dessa maneira, todas as ações do poder executivo, estão subordinadas aos humores de um legislativo cooptado e um judiciário contemplativo. Criou-se informalmente no congresso nacional um quarto poder chantagista que inventaram emendas impositivas para se locupletarem. Para tanto, usam o mantra do liberalismo-capitalista que prega o livre mercado conduzido pela sua inverossímil mão invisível. Resta ao poder executivo, eleito com uma carta de compromisso firmado com o eleitorado, o papel secundário de prestador de alguns pequenos serviços. o manual econômico dos arautos do modelo é justamente o ideário de Adam Smith e David Ricardo que é mais ou menos o que se segue:
. Livre Mercado e “Mão Invisível”: A utopia de que o mercado se autorregula de forma eficiente, através da “lei” da oferta e da procura, sem a necessidade do direcionamento estatal.
. Livre Concorrência: A competição entre empresas é vista como o estímulo ideal para a inovação, a melhoria da qualidade e a queda dos preços.
. Estado Limitado (Laissez-faire): A atuação estatal deve restringir-se apenas à garantia da segurança, da justiça e da defesa da propriedade, atuando como um simples “árbitro” e não como agente produtivo.
. Propriedade Privada: O direito absoluto e inviolável, de indivíduos e corporações sobre os meios de produção e os bens acumulados.
. Livre Iniciativa e Câmbio: A liberdade irrestrita para permitam indivíduos e empresas abrirem negócios, investirem capitais e realizarem comércio interno e internacional, sem nenhum obstáculo.
. Busca pelo Lucro e Acumulação: O ganho financeiro é o objetivo primordial, tido como a recompensa pelo risco e a base fundamental para a expansão do capital.

Para que o bom funcionamento do receituário liberal, necessárias se faz a garantia de segurança legal e jurídica, por parte dos poderes constituidos do Estado Tripartite. As ações somente se harmonizam, com um poder e a atuação de um poder executivo obediente, um poder legislativo atento às garantias legais e um poder judiciário vigilante para o funcionamento do arcabouço legal.. Ou seja, é a superestrutura do estado funcionando na sua plenitude ideológica e repressiva, com o apoio das forças armadas.
Destarte, a história tem provado com vários exemplos, que o estado liberal capitalista, como o modelo econômico, além de ser exclusivo da maioria da nação, é seletivo na divisão do trabalho e da riqueza gerada pelo trabalho, além de um insaciável concentrador de rendas.
A despeito de toda essa artilharia legal, é preciso contar com agentes políticos aliados aos interesses de oligarquias, de grupos econômico-financeiros para manter o status quo.
Em se tratando da representação política, não seria justo afirmar que todo político é igual, o que não é verdadeiro. Ainda bem que existe diferenças facilmente identificáveis essas diferenças é que alimentam a nossa esperança em dias melhores. Entretanto apesar da sutileza, é fundamental distingui-los e isso só se faz votando em candidatos inspiradores de confiança e não em corruptores que compram votos.

No campo da esquerda, há uma parte que sugere um capitalismo mais maleável. Essa é a esquerda liberal que esconde ou omite a luta de classes, propondo a distopia de reforma do estado capitalista, torando-o mais civilizado, generoso e palatável. Essa é a esquerda liberal.
No campo dos que creem no materialismo dialético, há um consenso que não é nos vagões do comboio que reside o X do problema e sim na locomotiva. Adquirir vagões novos não resolverá o problema de todo o trem.
Então é valido participar das eleições liberais? Sim, é valido desde que participemos forma crítica, com o propósito de acumular forças não para reformar o modelo econômico liberal-capitalista, porem para substitui-lo por outro modelo inclusivo e mais isonômico. É justamente durante os períodos eleitorais que essa contradição se torna mais visível e o nosso olhar deve estar mais aguçado e seletivo.
As convenções partidárias sempre resultam em coligações as mais esdrúxulas, heterogêneas e oportunistas, tanto no âmbito dos partidos quanto das federações partidárias. Nessa ocasião as coligações eleitorais, produzem encontros entre forças que nem sempre percorreram os mesmos caminhos, mas sigamos o nosso sem nos imiscuir nos qui pro quo de uma classe que não é a nossa. Caminhemos! a, a história nos redimirá!

Existem momentos que se torna difícil a escolha para o cidadão comum, mas boa vontade. Sobretudo quando adversários históricos passam a apresentar-se como aliados de uma eleição para outra. Havia um célebre político paraibano que em ocasiões como essas afirmava:
“Não há correligionários com os quais eu não rompa, nem adversários com os quais eu não me alie.”
É nesse momento que a democracia nos exige algo além da simples existência de alternativas eleitorais, ou seja, que sejamos capazes separar o joio do trigo e compreender o que estamos efetivamente escolhendo.
A pergunta, portanto, não deve ser apenas quantos partidos disputam uma eleição, quantas candidaturas são apresentadas ou quantas alianças foram construídas. A questão essencial é saber quais projetos de sociedade estão verdadeiramente colocados diante do eleitor. Essa é uma discussão relevante, que ganha uma importância bem maior, quando observamos a realidade social brasileira.
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu entre os objetivos fundamentais da República, a construção de uma sociedade livre, justa e solidária; a erradicação da pobreza e da marginalização; a redução das desigualdades sociais e regionais; e a promoção do bem de todos.

Quase quatro décadas depois da promulgação da Constituição, entretanto, permanecem imutáveis as enormes distâncias entre aquilo que a cidadania assegura formalmente e o que milhões de brasileiros conseguem obter concretamente para o seu futuro e o futuro da sua família.
acentuam-se as desigualdades econômicas e sociais, as diferenças de oportunidades de acesso: à educação, à moradia digna, à saúde de qualidade, a insuficiência de saneamento como saúde preventiva, à segurança alimentar plena.
Indicadores produzidos por instituições como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — IBGE — e estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada — IPEA — demonstram reiteradamente que a desigualdade brasileira não constitui apenas uma lembrança histórica: continua sendo um dos grandes, se não o maior desafio nacional. Surgem então, contradições profundas na forma de representação vigente.
Na urna somos politicamente iguais. Fora dela, continuamos socialmente muito desiguais.
O voto do cidadão mais pobre, possui o mesmo valor do voto do cidadão mais rico em termos formais. Essa é uma das poucas conquistas desse modelo de democracia. Entretanto, as condições em que os dois cidadãos constroem suas escolhas podem ser radicalmente diferentes. Educação, acesso à informação, segurança econômica e participação social, interferem na capacidade de compreender propostas, fiscalizar representantes e exercer plenamente a cidadania.

Por isso, aqueles que recebem da sociedade um mandato legislativo ou executivo assume responsabilidades que ultrapassam a administração cotidiana do Estado. Existe uma dívida histórica para com as parcelas da população que permaneceram à margem dos benefícios produzidos pelo desenvolvimento econômico e social que não pertence exclusivamente a um governo, partido ou geração de políticos. Ela foi acumulada ao longo da formação histórica brasileira e atravessou diferentes regimes, administrações e orientações ideológicas. Reconhecê-la dessa maneira é importante justamente para impedir que uma questão estrutural seja reduzida à conveniência de uma disputa eleitoral.
A pobreza não deveria pertencer à direita ou à esquerda.
A fome não possui filiação partidária.
A ausência de saneamento não pergunta em quem o cidadão votou.
A criança sem escola adequada, o trabalhador sem qualificação, a família sem moradia digna, o idoso que enfrenta dificuldades para acessar serviços públicos e o jovem que não encontra perspectivas precisam de políticas públicas capazes de sobreviver às alternâncias naturais do poder.
É nesse ponto que a discussão sobre renovação política precisa ser enfrentada com maior profundidade.
Em períodos eleitorais a renovação costuma ser apresentada como sinônimo de substituir antigos representantes por candidatos mais jovens ou desconhecidos. A juventude é indispensável à política. Novas gerações devem ocupar partidos, parlamentos, governos e espaços de decisão. Uma democracia incapaz de formar novos dirigentes termina envelhecendo também suas ideias.

Mas a idade, isoladamente, não é critério de renovação.
Um candidato jovem pode reproduzir os métodos mais antigos da política. Pode herdar estruturas familiares de poder, práticas clientelistas, personalismos e compromissos incompatíveis com o interesse coletivo. Da mesma forma, alguém com longa experiência pública pode conservar capacidade de transformação, independência, espírito democrático e disposição para enfrentar práticas que precisam ser superadas.
Renovar não é trocar a data de nascimento. É modificar a qualidade da representação.
A verdadeira renovação deve ser, antes de tudo, ética, programática e republicana.
Ética porque o exercício de um mandato não confere propriedade sobre o Estado.
Programática porque a política precisa voltar a ser confrontada pela consistência das propostas e não apenas pela capacidade de produzir slogans, imagens e mobilizações eleitorais.
Republicana porque o patrimônio público, as instituições e os recursos arrecadados da sociedade pertencem à coletividade e devem servir ao interesse público.
Isso também altera a responsabilidade atribuída ao eleitor.
Durante muito tempo, consolidou-se uma visão confortável segundo a qual os problemas da política seriam produzidos exclusivamente pelos políticos. Evidentemente, aqueles que exercem o poder devem responder pelos próprios atos. Mas uma democracia representativa estabelece uma relação permanente entre representantes e representados.
O cidadão não é apenas vítima eventual da má política. Ele é também participante do processo que escolhe quem exercerá o poder.
Essa afirmação não deve ser utilizada para responsabilizar populações vulneráveis pelas dificuldades que enfrentam. Seria injusto ignorar a influência das desigualdades econômicas, educacionais e informacionais sobre o processo eleitoral. Deve servir, porém, para recordar que o voto continua sendo um instrumento extraordinário de intervenção política e que seu exercício exige cada vez mais reflexão.
Não basta perguntar em quem votar.
É preciso perguntar por que votar.
Qual a trajetória do candidato?
Como exerceu responsabilidades anteriores?
Que interesses costuma representar?
Quais compromissos assume?
Suas propostas são possíveis?
Sua prática corresponde ao discurso?
Como se posiciona diante do patrimônio público?
Como compreende aqueles que pensam de maneira diferente?
E, principalmente: sua presença na política contribui para fortalecer o bem comum ou apenas para perpetuar estruturas de poder?
Essas perguntas talvez sejam mais importantes do que qualquer palavra de ordem pronunciada durante uma campanha.

As tecnologias digitais ampliaram extraordinariamente o acesso à informação, mas também multiplicaram a velocidade da desinformação, das versões manipuladas, dos recortes descontextualizados e das campanhas destinadas mais a provocar emoções do que a produzir reflexão. Nunca tivemos tantos meios para conhecer candidatos e propostas; paradoxalmente, nunca foi tão necessário aprender a separar informação de propaganda.
Por isso, o desafio das próximas eleições não se resume à substituição de governantes ou parlamentares.
Há algo maior em jogo: a qualidade da escolha democrática.
O eleitorado brasileiro, especialmente os milhões de cidadãos que historicamente experimentaram de maneira mais dura as desigualdades do país, possui uma força política imensa. Não porque deva votar como determinado grupo deseja, mas exatamente porque tem o direito soberano de escolher de acordo com seus interesses, convicções e expectativas.
Nenhuma democracia amadurece quando o cidadão é tratado apenas como público de campanha.
Ele precisa ser reconhecido como sujeito da política.
E ser sujeito significa escolher, acompanhar, fiscalizar e cobrar.
A cidadania não pode despertar às vésperas da eleição e voltar a dormir depois da apuração dos votos. O mandato concedido pela urna não é um cheque em branco com validade de quatro anos. É uma delegação temporária de poder que deve permanecer submetida ao acompanhamento da sociedade.
Talvez seja essa a renovação mais profunda de que necessitamos.
Não somente novos candidatos.
Não somente novas alianças.
Não somente novas campanhas.
Precisamos renovar a relação do cidadão com o poder.

Que as eleições sejam, portanto, uma oportunidade para examinar menos os rostos estampados nas peças de propaganda e mais as ideias que carregam; menos a idade dos candidatos e mais a idade das práticas que representam; menos as promessas pronunciadas nos palanques e mais as trajetórias construídas antes deles.
Que cada eleitor procure informação, compare propostas, conheça antecedentes, rejeite a transformação do patrimônio público em patrimônio particular e compreenda que escolher um representante é entregar temporariamente a alguém uma parcela do poder que pertence ao povo.
A democracia oferece periodicamente a oportunidade da mudança. Não garante, entretanto, que toda mudança seja renovação.
Essa diferença será determinada pela qualidade das nossas escolhas.
Porque substituir pessoas é relativamente fácil. Substituir práticas, culturas e estruturas de poder exige muito mais.
E talvez seja justamente essa a pergunta que cada cidadão deva levar consigo quando estiver diante da urna:
Queremos apenas mudar os nomes dos representantes políticos ou estamos verdadeiramente dispostos a mudar a política? Com a palavra o eleitor!





