Trabalho: o que pensamos sobre ele

Por:Mirtzi Lima Ribeiro

Ao longo do tempo o termo “trabalho” teve vários contornos e conceitos. Durante séculos, o entendimento sobre ele foi pejorativo, depreciativo e adotado como critério para definir o nível social de um indivíduo e sua posição na escala de estratificação social estabelecida.

No ano de 3.000 a.C. já havia trabalho remunerado na antiga Mesopotâmia e no Egito. Entretanto, o pagamento pelos serviços ocorria através de gêneros alimentícios, grãos, tecidos ou outros artefatos – era uma troca e não um pagamento em moeda. O pagamento em moeda corrente foi uma conquista posterior. À época, essas funções eram de cozinheiro, curandeiro, escriba, soldado ou guarda, trabalhadores braçais, construtores, artesãos (oleiros, ferreiros, tecelões, caçador e coletor), além de sacerdotes.

Digno de nota é que a palavra “trabalho” é expressão derivada do latim “tripalium” (três paus), resultante da junção de “tri” (três) e “palium” (paus ou estacas de madeira).

O tripalium, era usado na Roma Antiga para castigar com prisão e açoite os escravos, os prisioneiros e as pessoas pobres que embora fossem devedoras perante o Estado, não tinham como pagar os impostos a elas atribuídos. Ou seja, trabalhar é verbo derivado de “tripaliare”, que significa “torturar” ou “causar sofrimento físico”.

No apogeu das cortes imperiais e reinos, apenas os plebeus, os escravos e os servos trabalhavam. Estudos apontam que as relações laborais tiveram início com a escravidão, e na sequência, com a servidão feudal. Mas só a partir da Revolução Industrial (Séc. XVIII/XIX), em razão da relação desigual entre os detentores do capital e aqueles que precisavam vender sua força de trabalho, é que surgem as demandas ao Direito do Trabalho.

Nessa fase histórica, uma minoria classificada de elite vivia de regalias, festas – sendo que destes, só uns poucos se voltaram à cultura e às artes, e vieram a produzir algo de relevante para a humanidade. Por sua vez, o nível da frivolidade dessas cortes variava de acordo com o humor e as preferências da nobreza ou dos monarcas.

As monarquias que se modernizaram e deixaram de ser absolutistas ou então saíram do viés fundamentalista religioso, estabelecendo parlamentos com representantes do povo, conseguiram empreender avanços e promover justiça social na relação entre realeza e população em geral, onde sempre esteve inserida uma gama de trabalhadores.

É o caso de países que possuem até hoje monarquias constitucionais, com parlamento atuante, que trabalha em benefício das demandas da sociedade. Há exemplos como Reino Unido, Espanha, Suécia e Países Baixos, com leis mais robustas que favorecem ao trabalhador (conforme dados da Enciclopédia de História e Portal Jurídico). Essas localidades apresentam também altos índices de desenvolvimento humano e menos desigualdade social.

Na dita Era Moderna, que coincide com o Séc. XIX e início do Séc. XX, os Estados Constituídos começaram a intervir na relação laboral entre empresários e grandes empresas com seus empregados, de modo a estabelecer critérios mínimos de proteção ao trabalhador, visando evitar abusos, opressão e trabalho quase escravo, salvaguardando minimamente sua dignidade.

Enquanto sociedade, conseguimos dar novos contornos ao sentido e ao conceito sobre o que é trabalho, além de estabelecermos parâmetros e direitos aos trabalhadores, ao transformarmos tais relações para um melhor termo entre os detentores do poder monetário e aqueles com condição laboral, através de maior qualificação dos trabalhadores. Esse processo de ressignificação se deu pela incorporação de estudo e capacitação, profissionalismo e aplicação de tecnologia, de inventividade e inovação, aliados a benefícios relacionados à saúde e ao aperfeiçoamento. Investir nos trabalhadores para obtenção de mão-de-obra qualificada passou a ser um conceito incorporado ao arcabouço da relação trabalhista.

Esse avanço não ocorreu graciosamente, mas, com lutas, perdas e danos ao trabalhador por suas insurreições, greves, passeatas e exigências de maior dignidade no ambiente de trabalho. Isso envolve a garantia mínima ao alimento, à saúde e ao uso de equipamentos de segurança no trabalho, além de jornadas laborais menos extenuantes.

O que não mudou nesses séculos, foi o status do que representa ser um trabalhador. A grande maioria continua sem ter o poder aquisitivo desejado e alguns até mesmo não possuem ainda, as condições de manter a segurança alimentar pessoal e familiar ou um teto próprio para moradia.

No entanto, nos tempos contemporâneos, mesmo sendo bem remunerado e mantendo boas condições de vida, ou mesmo sendo autônomo ou prestador de serviço altamente qualificado, se essa pessoa depender de seu trabalho para sobreviver e se ela, ao parar de trabalhar, vier a perder ou reduzir seu estilo de vida, ela continua sob o status de trabalhador e não de dono do capital e dos meios de produção. E essa condição vai desde as menores às maiores remunerações. Portanto, esse indivíduo não pertence à classe de ricos ou super-ricos do mundo.

Essa compreensão precisa ser assimilada. Ledo engano de quem acha que se equipara aos ricos! Quem pensa que é rico quando a sua situação depende da continuidade da prestação de seus serviços ou da troca de seu trabalho por remuneração, precisa reavaliar esse posicionamento.

Há um outro aspecto a ser considerado no quesito do conceito de trabalho. Afinal, é no desenvolvimento dele que encontramos vasto campo para o exercício da criatividade, inventividade, pesquisa, aprimoramento de talentos e tirocínio, que alavancam o caráter e oportunizam a realização pessoal e profissional.

Além disso, o trabalho aponta caminhos para vencer limitações, reformular conceitos, quebrar paradigmas, engrandecer e educar a personalidade. O trabalho em equipe, por sua vez, é agregador de talentos e é uma oportunidade para treinar as relações pessoais, a diplomacia e o respeito ao outro.

Desse modo, o trabalho profissional dignifica as pessoas e as capacita a desenvolver expertise naquilo que escolheram como carreira. É através do trabalho que é possível aperfeiçoar dons e habilidades, alargar horizontes, ganhar discernimento e aguçar a percepção.

É o trabalho que move o mundo. O grande desafio contemporâneo é dar continuidade aos avanços alcançados, aos direitos já adquiridos, ao incremento das capacidades humanas, transformando continuamente essa grande vertente que é o trabalho.

A passagem do trabalho escravo ou de servidão para o que conhecemos como atuação digna, planos de cargos e carreiras, política salarial, igualdade de direitos entre os gêneros, não pode ser romantizada. Foi uma saga de lutas, reivindicações cruciais, insurgências, greves, passeatas, sublevações que se seguiram de perseguições e morte de trabalhadores. Tudo isso deu lugar à criação de sindicatos de categorias, à mesa de negociações por melhores condições laborais, aos acordos, às leis que garantem melhores contrapartidas e direitos, às convenções coletivas de trabalho.

Por mais que alguns neguem os fatos da história, contra eles não há argumentos que se sustentem. Mas, o trabalhador deve muito ao movimento e ao ideário comunista e socialista todos os avanços alcançados ao longo da história. Através deles muitas conquistas foram implementadas, mesmo que a duras penas.

Foi através desses movimentos que a educação, o trabalho e a emancipação feminina se deu. Grandes passos nesse sentido foram originados na antiga União Soviética e Alemanha Oriental, fatos perfeitamente assentados em registros com autenticidade confirmada, livros e documentos. Foi nesses países que houve a inserção da menina e da mulher nas escolas, universidades, inclusive em profissões antes tidas apenas como masculinas, principalmente no fomento à independência financeira da mulher.

Esses valores e avanços não podem ser esquecidos. Além de trabalharmos para manter as conquistas, entraremos com novas demandas para os próximos tempos. O mundo evolui e com ele os requisitos e as necessidades também devem ser incrementadas.

É preciso respeitarmos as demandas atuais no sentido de avançarmos através de um pensamento mais holístico, de comunhão com o todo, de atenção ao equilíbrio com a natureza e seus recursos naturais, de uma mais justa distribuição de renda e oportunidades, além do foco nos direitos e nos deveres de todos os cidadãos.

Muito ainda precisamos avançar para trazer esse tipo de equilíbrio ao mundo, às nações, assim como a todos os povos. Precisamos acionar a consciência de todos, o quanto for possível, nessa nova frente de entendimentos.

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