
Por:Antonio Couras
Eu não aguento mais essa família. A gente abre o jornal para saber do Pix e lá estão os Bolsonaros. Vai entender a tarifa dos Estados Unidos, Bolsonaro. Procura saber da crise diplomática, Bolsonaro. Abre a geladeira e é capaz de encontrar Eduardo agachado atrás da manteiga, pedindo sanção contra Alexandre de Moraes. Não existe assunto no Brasil que consiga permanecer cinco minutos sem que um dos filhos apareça, faça alguma besteira e depois convoque uma entrevista para explicar que a culpa é de Lula.
Agora os Estados Unidos resolveram impor uma tarifa adicional sobre parte dos produtos brasileiros e incluíram o Pix no amontoado de justificativas. O Pix. O sistema que funciona. O negócio que você usa para pagar a manicure, comprar uma tapioca e devolver vinte reais sem preencher um formulário criado por um banco em 1987.
Os americanos estão incomodados porque o sistema ocupa um espaço que antes pertencia a cartões, bancos e empresas de pagamento, muitas delas americanas. Como o Pix é operado pelo Banco Central, resolveram chamar sua eficiência de favorecimento estatal. Traduzindo: o Brasil inventou uma ferramenta pública, rápida, barata e popular, e agora precisa se explicar por não entregar uma porcentagem de cada cafezinho à Visa e à Mastercard.

A história já seria irritante por conta própria, mas, evidentemente, havia um Bolsonaro no meio. Sempre há. Em 2025, Eduardo Bolsonaro se instalou nos Estados Unidos e começou a trabalhar abertamente por sanções contra autoridades brasileiras e por pressão estrangeira para beneficiar o pai. Não buscou apoio jurídico, não organizou uma corrente de oração, não tentou convencer ninguém da inocência de Jair pelos meios normais. Foi ao exterior pedir que outro país castigasse o Brasil para tentar livrar o pai das consequências de um processo criminal.
É difícil encontrar comparação que faça justiça à baixaria. Seria como perder uma discussão no condomínio e chamar a Força Aérea americana para bombardear a caixa-d’água. Eduardo comemorou quando imaginou que as medidas atingiriam apenas os inimigos da família, mas tarifa não consulta perfil eleitoral antes de entrar em vigor. Ela alcança exportador, indústria, emprego e trabalhador. Não pergunta em quem ninguém votou nem verifica se a pessoa compartilhou vídeo patriótico no grupo da família.
Quando a pancada começou a ficar eleitoralmente inconveniente, Flávio Bolsonaro descobriu que talvez punir o Brasil não fosse uma ideia tão brilhante. Foi a Washington argumentar contra a tarifa e chegou a defender que sua aplicação fosse adiada, não cancelada ou diminuída, adiada, foco nessa parte, até depois da eleição. Observem a delicadeza: não precisava desistir da agressão econômica, bastava esperar o brasileiro votar nele. Depois da eleição, aparentemente, o sofrimento nacional poderia seguir seu curso normal.

É quase possível imaginar a conversa: “Senhor Trump, agradecemos muito o castigo solicitado pelo meu irmão, mas seria possível aplicá-lo só depois de eu usar o país como herança eleitoral?”. Não estão preocupados com a tarifa. Estão preocupados com a data. Se a medida começasse depois da votação, o prejuízo ao Brasil entraria na categoria dos detalhes administrativos.
Flávio ainda tentou oferecer o Pix como prova de boa vontade, sugerindo que o sistema permanecesse afastado de redes internacionais que pudessem desagradar aos Estados Unidos. O Pix é brasileiro, soberano e motivo de orgulho, claro, desde que Washington não faça cara feia. A soberania nacional dessa gente termina exatamente onde começa o mau humor de Donald Trump.
Agora tentam convencer o país de que Lula provocou tudo sozinho e de que os Bolsonaros não têm qualquer relação com a crise. Eduardo passou meses pedindo pressão estrangeira. Trump vinculou medidas contra o Brasil ao processo de Jair. Flávio correu para tentar adiar as consequências quando percebeu que elas poderiam lhe custar votos. Mesmo assim, dizem que foi coincidência. Talvez o vento tenha levado os pedidos de sanção até a Casa Branca.

Para fins jurídicos, não estou dizendo que a família escreveu pessoalmente toda a ofensiva americana contra o Pix. Os Estados Unidos têm interesses econômicos próprios, e suas empresas de pagamento não precisam de ajuda brasileira para defender o próprio faturamento. Mas foram os Bolsonaros que ajudaram a transformar uma disputa judicial interna numa oportunidade de intervenção estrangeira. Foram eles que apresentaram punição econômica contra o próprio país como instrumento legítimo para salvar Jair.
Chamaram Trump para entrar, entregaram a chave da casa e agora estão chocados porque ele abriu a geladeira e começou a comer tudo.
E somos nós que precisamos acompanhar a pataquada. Eduardo pede castigo, Trump castiga, Flávio percebe que o castigo tira votos e pede que Trump espere. Depois culpam Lula, o STF, o comunismo, o Pix, a China, o alinhamento dos planetas e provavelmente alguma professora que não deixou Carlos copiar na prova em 1993.
Nunca eles.

A família Bolsonaro jamais causa um problema. Os problemas simplesmente florescem ao redor dela, espontâneos, como fungos numa parede úmida. Eles produzem a crise, posam ao lado dela, publicam a fotografia e depois aparecem indignados, exigindo saber quem fez aquilo.
Pelo amor de Deus, chega. Alguém tire os passaportes, desligue o Wi-Fi e mande esse povo passar uma temporada numa ilha sem nenhum meio de comunicação. Basta um lugar onde Eduardo não consiga falar com Washington e Flávio não encontre uma câmera.
O país precisa descansar. Só uma semana. Sete dias sem um filho de Bolsonaro pedindo intervenção estrangeira, lendo carta do pai, brigando com a madrasta, negociando eleição em Washington ou tentando explicar por que a sanção desejada ontem ficou injusta hoje. Imaginem o silêncio, os passarinhos e, ao fundo, o barulho discreto do Pix funcionando normalmente.

“Há debates que esclarecem. Outros apenas fazem barulho. O Brasil merece reconhecer a diferença.”
Curadoria Gorette Wanderley




