
Por:Mirtzi Lima Ribeiro
Uma história contada ou escrita não é apenas um conjunto de fatos e eventos. A sua narrativa tem um nível de representação que irá variar de acordo com a pessoa que a elabora. Ela tem texto e contexto associados ao viés do narrador.
Ao cotejarmos eventos registrados oficialmente em relação a evidências documentadas encontradas posteriormente, é possível que em determinados casos tenha havido algum nível de parcialidade.
Quando ambiguidades são constatadas, é indicativo de que a narrativa foi elaborada pelas partes que venceram os embates, cujos assentamentos contemplaram apenas uma fração da realidade ou verdades distorcidas, e muitas vezes, deformadas.
Junto a isso, o teor do que foi escrito envolve a cultura, as premissas, as crenças e os valores do narrador e das partes interessadas que patrocinaram tal registro.

É por essa razão que atualmente alguns registros históricos são questionados, resultando em demanda por sua ressignificação ou até a retificação de aspectos ou fatos pontuais. Busca-se com isso restaurar a fidedignidade do teor retratado.
Descobertas arqueológicas e documentos antigos que são testados e têm a autenticidade confirmada, servem para efetuar tais correções, de modo que os eventos retratem mais fielmente fatos pretéritos. Isso pode modificar a maneira como compreendemos o passado, assim como podemos dar nova interpretação a ele.
Por sua vez, as lendas, os mitos e os contos de fadas, não carecem de correções porque estão recheados de padrões arquetipais de grande significado, padrões que já se encontram nas profundezas do campo psicológico e do subconsciente humano. Será através desses campos que as narrativas míticas poderão acionar aspectos fundamentais, de modo a consolidar entendimentos ou trazer novos parâmetros às estruturas emocionais e mentais.

Enquanto uma história pode informar, ensinar e ensejar reflexões, por outro lado, as lendas, os mitos e os contos de fadas nos remetem ao conhecimento de todas as eras, unindo passado, presente e futuro. Nesse processo, todos os sistemas de significação que são interligados, podem acionar linhas inteiras de um modelo profundo que existe no inconsciente do ser humano.
Toda lenda, mito, assim como os contos de fadas, carregam elementos numinosos e intencionais, que estão subjacentes ao campo anímico.
O que vem a ser um elemento numinoso? Ele integra a dimensão daquilo que transcende a matéria, que está no campo do inconsciente coletivo e pertence ao mundo dos arquétipos.
Tal concepção se originou dos escritos do teólogo e filósofo Rudolf Otto (1869/1937 – Alemanha), assim como foi absorvido e aprofundado no estudo da psicologia analítica postulada pelo psiquiatra Carl Gustav Jung (1875/1961 – Suíça).

De acordo com essa premissa, uma experiência numinosa é capaz de modificar a psique e impulsionar o indivíduo no seu processo de autoconhecimento, de mergulho em seu eu interno.
O campo anímico compreende tanto o estado emocional, quanto o psicológico e o espiritual de um ser humano e de tudo o que envolve essa tríplice estrutura. A expressão decorre do termo em latim “anima”, muito usado pelo psiquiatra Carl Gustav Jung.
Nessa terminologia está incluída a ideia de energia, de estado de ânimo e do envolvimento mental, que se incorporam e caracterizam um indivíduo.
Esse campo, além de amplo, está carregado de símbolos atemporais. As lendas, os mitos e os contos de fadas tecem histórias imortais que ganham roupagem nova em cada vida humana que os experimentam na vida prática.

Cada experiência de modo geral comporta alguns desses padrões, embora ganhe acessórios novos (detalhes), que exigem respostas inéditas, criativas e que precisam fugir àqueles caminhos já trilhados. Uma história imortal que ganha novas nuances, portanto, requer abordagem e aprendizado ainda não visto, único.
Como cada pessoa agirá diante de uma dita situação? Essa é a chave requerida. Cada comportamento e compreensão que decorre disso, alimentará o inconsciente coletivo, que amadurece, que se amplia, que se expande, que incorpora o novo entendimento.
Vale ressaltar que as lendas, os mitos e os contos de fadas traçam uma linha em relação a certos ensinamentos herméticos que dizem respeito à trajetória do ser humano, suas necessidades mais intrínsecas, seu processo de despertar, sua busca interior, aprendizados e maestrias a serem alcançadas nos domínios do comportamento e da compreensão cognitiva. E esse encadeamento serve ao avanço do nível de consciência da humanidade.

Através dos arquétipos, que compõem os enredos e motes contidos nas lendas, nos mitos e nos contos de fadas, é possível enxergar certo delineamento e contornos da psique, do self, do eu interno de um indivíduo. Tendências do ser humano podem ser identificadas, compreendidas e ajustadas em um trabalho indutivo e educativo. Padrões e simbologias universais acionam o nível do inconsciente e estão carregados de lições robustas, ofertando alertas e sugerindo novos caminhos.
Nos contos de fadas podemos identificar significados surpreendentes em cada objeto ou figura apresentados, nas situações e nos indivíduos retratados. Não é à toa que há um volume considerável de livros abordando interpretações sobre eles, sob o enfoque filosófico, psicanalítico e emocional.
Podemos crescer enquanto humanidade através de mergulhos na história humana, assim como no debruçar do estudo dos arquétipos e das simbologias universais.
Jamais seremos os mesmos após essa imersão em conhecimentos ancestrais e imortais.

“Entre a história que aconteceu e o mito que permanece, existe o eterno aprendizado de ser humano.”
Curadoria – Gorette Wanderley




