O padre e a borboleta

Por: José Nunes, diácono, da Academia Paraibana de Letras

Certa vez, quando concelebrava missa com um padre, justamente no dia em que tinha como texto para reflexão o Sermão da Montanha. De repente uma borboleta amarela pousou no alto da cruz de madeira posta ao lado do altar, executou sua típica coreografia. Depois de algum tempo, saiu borboleteando pela nave da igreja, encontrou janela aberta e foi embora. Todos, calados, contemplaram a visitante. Terminada a leitura da passagem bíblica, o padre ficou silencioso. Não comentou a passagem das boas aventuranças. Apenas disse: “Reflitam sobre a cena que acabamos de presenciar”. Prosseguiu com o rito da celebração. O sermão dele se resumiu na contemplação à borboleta.

O bailado de borboletas me deslumbrou. Uma fascinação alimentada pelas lembranças de quando perambulava pelas capoeiras de Tapuio, sítio onde nasci, em Serraria. Encontrava borboletas e quando as pegava, colocando-as na palma da mão, observava içar voo. Somente agora me dou conta do deslumbramento desses momentos profundamente poético e humano.

As borboletas se comunicam sem usar palavras. Geram em nós uma mensagem de liberdade e paz. Como viver no silêncio? Penso até que trazem mensagens de deuses até nós e protagonizam lances que nos levam à reflexão sobre o modo de viver.

No jardim em nossa casa, na primavera do ano passado, apareceu um pequeno grupo de borboletas, entre as quais uma amarela que bailava lentamente. Em suas asas, as borboletas trazem energias cósmicas.

As borboletas do meu jardim trouxeram lembranças de quando morava no sítio. Na década de 1960, depois de minhas obrigações de agricultor, zanzava a esmo pelas capoeiras. Quando encontrava borboletas com infindáveis bailados, as observava em seus voos, até perderem-se no mato, quando nãos as pegavas.

A Primavera chegou com suas borboletas. Espero que apapariquem as flores de nosso jardim. Balancem as asinhas em volta da roseira para aspergir o local com perfume; depois, silenciosas, sigam para outros lugares e retornem no entardecer.

No alvorecer da vida contemplava-as como agricultor solitário, agora, no crepúsculo, as borboletas trazem recordações. É quando percebo que elas nunca se afastaram de mim.

As borboletas tão asas à imaginação, contribuem para que poetas e escritores produzem textos e poesias de beleza estética. Escritores como Roseana Murray, Vinícius de Moraes e Cecília Meireles, somente paras citar estes, fizeram poemas tendo como tema borboletas.

O compositor João de Barros cantou:
Voa, pois a vida é tão boa.
Quando se tem
Um amor no coração.

O japonês Akira Kurosawa, no bonito e emocionante filme Sonhos, utilizou paisagens cobertas por revoadas de borboletas que parecem povoar o mundo, com mensagem do Cosmos.

Rubens Braga registrou sua perseguição à caça de uma borboleta amarela pelas ruas do Rio de Janeiro. A sua narrativa, tantas décadas depois, emociona.

Espero que na Primavera outras borboletas visitem a roseira da minha casa e façam lembrar do tempo quando era agricultor em Serraria, e nunca esquecer da borboleta que nos visitou durante a missa.

 

“Há lembranças que não voltam pelos caminhos da memória. Voltam pelo delicado bater de asas da alma.”

Curadoria – Gorette Wanderley

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