Equacionar interesses difusos

Por: Mirtzi Lima Ribeiro

Cada cabeça é uma sentença, como diz certo adágio popular. Isso não significa que deve haver ou que devam ser mantidos níveis de distopia entre os seres humanos. Diferença de pensamento ou de ideário, jamais deveria ser motivo de contenda, de embate, de acirramentos ou de marginalização de outros.

As diferenças são inúmeras e tudo se apresenta de modo complexo. Há um emaranhado de opiniões, de tipo de educação recebida, de costumes adotados e de premissas estabelecidas, que estão subjacentes ao intelecto e à vida humana.

Esse leque que comporta sutis e grandes diferenças será saudável no momento em que os habitantes desse planeta passarem a respeitar uns aos outros e estabelecem níveis aceitáveis de civilidade e de convivência, sem embates pessoais desnecessários.

Divergir não dá a ninguém o direito de execrar seu semelhante. Ter opinião ou pensamento divergente não é um sinal verde para o desrespeito. Ao contrário, esse viés discordante se constitui um elemento que pode contribuir para viabilizar o estabelecimento de denominadores comuns, da descoberta de aspectos de convergência, além de questões que apontam para o equacionamento e a negociação pontuais em decisões e providências a serem tomadas.

Somos díspares em inúmeras questões. Entretanto, sempre há conceitos universalmente estabelecidos, que são pacificados em vários povos e épocas. Um exemplo disso é a questão da importância da família, da sucessão familiar, de dignidade alimentar, de certos direitos inalienáveis, a exemplo da proteção à vida, à soberania de cada povo, aldeia, Estado ou país.

Em se tratando de diferenças no pensar e agir, destaco que são os posicionamentos distintos e antagônicos, expostos de modo objetivo em uma mesa redonda, em fóruns adequados, que trazem potencialmente o condão de equacionar entendimentos dentre os interesses difusos. Nesses ambientes, é possível trazer à tona demandas diferentes em razão de realidades que as outras partes envolvidas desconhecem ou que jamais imaginaram que poderiam existir.

A civilidade e a imparcialidade são preponderantes para que adversários em ideologias, crenças, valores e com personalidades distintas, possam sentar-se à mesa de negociação com os mesmos direitos à expressão, à fala, à exposição de suas demandas e necessidades das mais básicas às mais rebuscadas.

É possível negociar de modo ordeiro em quaisquer circunstâncias, mesmo havendo preferências e crenças pessoais muito diferentes ou até antagônicas, se as partes envolvidas tiverem respeito mútuo.

E não seriam as mal-querenças seculares, os ruídos na comunicação ou os impasses pretéritos que seriam impeditivos ao estabelecimento de denominadores comuns.

Isso se observa em almas maduras em termos de discernimento, de honradez, de ética e de civilidade. E essa característica faz parte dos grandes nomes da história humana que demonstraram sabedoria, honradez, sensatez, acurado juízo de valor, empatia, consciência e senso de justiça.

Só almas de grande estirpe conseguem sentar-se à mesa de adversários com a mesma educação e disposição com que falam frente aos amigos e com aqueles que compartilham de entendimentos assemelhados. Apenas quem pensa grande, com generosidade e com alma, pode alcançar a necessidade de olhar o outro como igual, mesmo sendo diferente.

Só enxergamos em almas nobres a capacidade de inclusão, de oferecer escuta de qualidade a quem dela necessita, de apoiar outro ser humano que está fora de sua bolha social, com a mesma boa vontade que teria junto aos seus iguais.

Entretanto, esse comportamento pode ser aprendido, pode ser fomentado, pode ser estimulado e ensinado. A diplomacia está intrinsecamente envolvida nesse aspecto. Jamais poderia ou deveria ser bom apenas para uma das partes envolvidas. É preciso alinhar e igualar o quanto for possível, as vantagens, as oportunidades, o direito à vez e à voz.

É preponderante não querer estar acima e nem aceitar estar abaixo da importância devida a ser recebida. E essa constatação representa maturidade e civilidade humana.

Esse, acredito eu, será o próximo passo que a humanidade precisará dar para que avance e saia do lodo em que se meteu, dos imbróglios e guerras nefastas, de tragédias e horrores já perpetrados (até em nome de Deus!). Se esse comportamento tacanho não for revertido, esse limbo que valoriza a discórdia e a pequenez de alma, terá o condão de devastar e destruir a própria humanidade.

 

Nota da editora: as nuances e a poesia de Chico Buarque em “As Vitrines” para acompanhar o tom desta leitura.
Curadoria: Gorette Wanderley
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