Quando a água denuncia o que falta á administração pública

Por:Luiz Célio Rangel

Chega-se, por vezes, à amarga impressão de que a grande “vilã” do Nordeste brasileiro é a água.
Paradoxalmente, uma região historicamente marcada pela escassez hídrica vê-se, em determinados momentos, refém do seu oposto: o excesso.

Recentemente, assistimos a um cenário que parece contraditório, mas é profundamente real — faltou água por excesso de água. O volume elevado no rio Gramame, em João Pessoa, comprometeu o funcionamento da captação, afetando o abastecimento operado pela CAGEPA. O que deveria ser abundância transformou-se em interrupção, escassez e transtorno.

Ao mesmo tempo, diversas cidades enfrentaram situações de calamidade pública: famílias desalojadas, perdas materiais, sofrimento coletivo. E, novamente, a água é apontada como responsável. Mas será justo atribuir a ela essa culpa?

A água não é vilã — é força da natureza. Ela apenas segue seu curso. Quando se torna destrutiva, não é por intenção, mas por ausência de contenção, planejamento e infraestrutura adequados.

O que vemos, na verdade, é a exposição de um problema estrutural: a insuficiência de políticas públicas consistentes em drenagem urbana, saneamento, ocupação ordenada do solo e gestão de riscos climáticos.

Há, portanto, um deslocamento necessário: da culpabilização da natureza para a responsabilização humana e institucional. A água, que deveria ser fonte de vida, saúde e desenvolvimento, passa a ser percebida como ameaça quando não há preparo para acolhê-la em seus ciclos naturais.

Ou o Estado brasileiro avança no planejamento estratégico diante das mudanças climáticas — cada vez mais intensas e imprevisíveis — ou continuaremos assistindo a esse ciclo de paradoxos: ora a seca que castiga, ora a chuva que devasta.

No fundo, a água não mudou. O que precisa mudar é a nossa relação com ela.

 

🎧 Quando a água fala mais alto, é porque ignoramos por tempo demais o que ela sempre tentou dizer.

 

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