Minha bolha diária

Por:Mirtzi Lima Ribeiro

Diariamente, se eu somar o tempo de ir e vir do trabalho para casa, sem considerar nenhum outro trajeto, eu disponho em média de cerca de quarenta a sessenta minutos guiando um veículo, a depender do fluxo dos veículos.

Eu faço esse caminho há décadas e isso se tornou um momento de mergulho na minha bolha imaginária. Isso é maravilhoso porque observo os detalhes de tudo, enquanto escuto minhas músicas preferidas e capto o mundo.

O ritmo musical ajuda fortemente a exercitar a percepção. Enquanto estou ao volante, embora a performance fique no piloto automático e eu permaneça em estado de simbiose com o veículo, todos os comandos continuam bem acesos e ligados dentro de minha mente, meus olhos e minhas reações.

O meu tempo de reação como motorista – intervalo entre a identificação de um evento e respectiva ação adotada –, permanece em excelente estado. Em paralelo, a minha mente em repouso percebe as folhas que caem das árvores ao sabor de ventos mais fortes, a pintura e os detalhes de prédios, a localização de determinada empresa, as pessoas que passam, as cores que ressaltam aos olhos, e, a situação da pista: suja ou varrida, com buracos ou desníveis, com ou sem mato e flores silvestres entre as calçadas e a rua pavimentada.

Constato também cada “sanduíche” que a profusão de motos faz com os automóveis: aparecem do nada na parte lateral direita e esquerda, frente e trás. Minha visão capta toda essa gama de informações sem nenhuma presença do raciocínio. Naquele tempo eu sou apenas sensação, sem julgamento e sem pensamento.

Tal atitude adotada passa a funcionar como um exercício meditativo, de contemplação, sem o envolvimento mental direto. É um mergulho na percepção e uma integração com todo o campo percebido simultaneamente.

Posteriormente, algum detalhe dessa visualização que ficou registrada, aparece na mente, de modo a acionar ideias, pensamentos, inferências e reflexões. Uma vez ou outra eu saio dessa concentração e unificação com o todo e tudo no meu entorno, para mentalmente xingar infratores e descuidados no trânsito. Embora isso venha a ser uma quebra no estado de contemplação, tende a ser minimizado pela prática constante desse exercício.

O essencial nesse momento é penetrar no campo de percepção expandido, tanto na qualidade de observador, quanto de observado ao se perceber como um experimento também. Posso observar todas as minhas reações e aprender sobre elas, compreender alguns aspectos e questionar outros em relação a mim mesma. É um rico processo. Isso representa o acionar dos sentidos externos e internos para que eles possam trabalhar juntos e se unificarem.

Essa atividade proporciona uma ampliação da intuição, do senso de proporção e de importância das coisas e situações que estão ao nosso redor. Favorece, também, a ter clareza quanto ao que sentimos, assim como ao processo de compreensão do nosso direcionamento e da nossa sensatez.

Para acompanhar esse trajeto de contemplação, deixamos como trilha a inesquecível “What a Wonderful World”. Porque às vezes basta diminuir a velocidade para perceber a beleza que sempre esteve no caminho.

 

 

 

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