Prefiro o bailado de beija-flores

Por: Mirtzi Lima Ribeiro;

O meu enfoque nunca será a pompa ou a ostentação do que quer que seja. Nasci tranquila, porém insurreta, alheia ao ortodoxo, ao pedantismo, aos caminhos já trilhados, mesmo sabendo que eu não preciso inventar a roda. Também não quero ser como aqueles que anseiam copiar Narciso à beira do lago em autoadmiração. Não, isso está fora de cogitação.

Custei a me aceitar de corpo e alma porque desde a infância me comparavam com outras crianças. Mas, a partir da minha autoaceitação, não precisei mais me autoafirmar. Então, existe uma diferença colossal entre vaidade e aceitação de si mesmo. A vaidade levada a altos níveis não faz bem. A aceitação de si mesmo, quanto maior será melhor, além de proporcionar maior lucidez e senso de realidade.

Eu sou eu mesma, para o que der e vier, com imperfeições, com a idade já madura, com medidas e métricas fora das convenções exigidas na modernidade, com meus pensamentos velozes e minha atividade mental e cognitiva a um milhão de megabytes por hora.

Entre estar junto de gente insalubre, prefiro ter paz, estar comigo mesma ou junto de quem me aceita do jeito que eu sou.

Quero poder ter tranquilidade para conseguir notar o bailado de beija-flores ou de milhares de borboletas recém saídas de casulos em colorida festa alada, parecendo pirilampos em noite escura. Quero poder estar bem para sentir o cheiro e ouvir o som dos ventos nas folhas das árvores e a brisa despretensiosa no meu rosto.

Portanto, não desejo estar na companhia de quem não me aceita, exatamente porque espero o mesmo tratamento cordato e educado que eu ofereço a todos, sem distinção de credo, cor, mentalidade ou ideologia adotada.

Não. Não nasci para a superfície nem para as aparências e nem para bajulações. Nasci para as profundezas abissais às quais procuro e persigo. Não me contento com metades, ausências, reticências, silêncios não solicitados, explicações que não são dadas, tabus escondidos e preconceitos ostensivos.

Não. Definitivamente, quero distância de pessoas que desrespeitam os outros, que não aceitam pensamentos diferentes dos seus, que querem robôs ou bonecos de cera por companhia, daqueles que só dizem sim e abanam a cabeça consentindo absurdos.

Sim. Quero estar junto apenas de pessoas vivas, jamais de zumbis que andam por aí em bandos, como mostram filmes bizarros e apocalípticos.

Sim. Quero a plenitude, mesmo sabendo que todos temos defeitos. E apesar dessas pequenas imperfeições, somos capazes de amar, ter respeito, erguer a si mesmo e aos outros, manter parcerias, sermos pessoas colaborativas que cooperam com todos, indistintamente. Afinal, enquanto raça humana, somos irmãos.

Por sua vez, esses irmãos que ainda não se reconhecem e não aceitam o semelhante, segregando e menosprezando os outros porque estes não se encaixam em padrões de beleza clichês, não possuem bens materiais, não têm a cor da pele clara, não levantam a mesma bandeira político-partidária deles ou não rezam na mesma cartilha, ainda não estão prontos nem aptos para serem chamados de humanos.

Desse tipo de gente eu vou ficar distante até que eventualmente venha a despertar, saindo dessa bolha nefasta. Até que essas pessoas venham a reconhecer que estão sendo grosseiras e inconvenientes e melhorem seus comportamentos, melhor não estar perto delas.

Afinal, é preciso que essas pessoas aprendam a respeitar os semelhantes enquanto raça humana, a tratar a todos com educação. Aprendam também que é imprescindível evitar conflitos desnecessários, toscos, deselegantes e mesquinhos.

Não há necessidade de beligerâncias, marginalização do outro, nem de manobras para que o outro seja forçado a se encaixar. Não. Não há nenhuma necessidade disso. E seria muito ruim e nocivo que alguém precisasse de se sabotar ou esquecer de quem é para caber ou ser aceito em um grupo de segregadores.

Há um dito popular que assevera: “dize-me com quem andas e eu te direi quem és”. Isso se refere a convivências intimistas com pessoas que são nocivas ou são inconsequentes. Os resultados nunca são bons.

De outro norte, sentar-se à mesa para definir pautas entre pessoas cordatas que possuem interesses diferentes é um ato positivo, de conciliar interesses e de negociar denominadores comuns. Esse procedimento é saudável, é agregador, é civilizado.

 Agregar é bom e saudável quando gera posicionamentos e ações adequadas para todos os envolvidos. Entretanto, jamais será bem visto quando alguém precisa se aniquilar e invalidar seus valores nobres para caber no quadrado ou na caixinha do outro.

Não, ao invés disso, eu prefiro ficar em meditação diante da natureza, experimentar a companhia de mil livros, de seres etéreos e celestes, de elementos da natureza, porque eles são inofensivos, curativos e regeneradores. Eles trazem e nutrem a vida.

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