Aprender a apreciar

Por: Mirtzi Lima Ribeiro;

Estou sem pressa. Ao invés do “fast” ou “quick”, do “schnell”, do rápido, quero o “slowly”, o “langsam”.

Quero o processo que respeita todas as fases, sem atalhos. Aquele que segue em um ritmo que oferece oportunidade para maturar e consolidar cada aprendizado de modo a trazer resultado mais robusto, sabendo fazer melhor e com excelência.

Quero o conteúdo. Mesmo que precise começar pela superfície, pela borda, para etapa a etapa, ir adentrando, descobrindo e experimentando a essência de cada movimento. Seguir o caminho com atenção direcionada, observando e acionando os sentindo, é o coroamento ritualístico até se chegar à meta.

Não me contento apenas com o visceral, quero a alma e através dela penetrar nas profundezas, no grande e abissal oceano das consciências. E quanto mais eu me aproximo do que julgo ser o final, mais profundidade se apresenta e mais eu mergulho nela.

A copa das árvores que está na superfície, à mostra, reflete de modo tênue e encoberto, o que há em suas raizes. Mas, ela compõe um conjunto com essas raizes, que carregam memórias ancestrais, conexões com outras árvores em um contínuo e ininterrupto fluxo. Jamais iremos ver estagnação nesses domínios quase invisíveis, imperceptíveis ao olho físico e à observação humana linear e rasteira.

Como nada se copia e tudo é a repetição de padrões com roupagens novas, o ser humano guarda um paralelo com esse modelo, quer na flora, na fauna, nas profundezas das águas ou na imensidão do cosmos e do infinito.

Mas há os que preferem ignorar os altos recursos que possuem latentes dentro de si, como potencialmente aptos a serem desenvolvidos.

Encontrei no modo contemplativo uma sabedoria inexplicável, uma calma que me indica que tudo estará acessível em um momento de relaxamento, de esvaziamento: das pressas e pressões, das ansiedades e das expectativas, do estresse originado dos pensamentos vorazes e dos desejos mais improváveis.

Estou como aqueles que percebem a diferença entre verdadeiro e falso, entre o comum e o especial, entre a fome e o ato ritualístico de provar uma iguaria. Há entre esses aspectos extremos, um vasto campo onde estão inseridos os contextos ora normais ora normalizados (próprios da normose), as histórias insossas e as mornas.

Prefiro ver a vida como se fosse degustar um vinho nobre, de modo a sentir-lhe o aroma, as notas frutadas, o nível do encorpado, o sabor e a sensação em prová-lo. Especialmente se junto dessa degustação, estiverem iguarias. Quero dar-lhes o requinte a que fazem jus: prová-los devagar, apreciando a maciez, exercitando as papilas gustativas como se deve, em cada recanto delas, de acordo com o sabor, a acidez, ou a docilidade que o paladar puder me proporcionar.

Alimentar-se sem estar no estado de fome ou escassez (no sentido concreto, no abstrato e no figurativo), nos dá a possibilidade de desfrutar dos detalhes inerentes ao ato de saborear. Se constitui um ritual nos determos e aprendermos a apreciar.

Assim também é a vida. A pressa, a falta de polidez e o estresse, fazem com que se perca a essência de cada ato, de cada gesto, da intenção por traz deles, assim como do conteúdo experimentado.

Comentários Sociais

Mais Lidas

Arquivo