
Por: João Vicente Machado Sobrinho
Durante muito tempo, a mineração brasileira ocupou um lugar quase silencioso no debate público. Embora sempre tenha sido operacionalizada de maneira predatória, mesmo assim desempenhou um importante papel na formação econômica do país. Essa atividade de caráter furtiva, excluindo as catástrofes e os grandes conflitos e/ou acidentes, nunca recebeu por parte da mídia, a mesma difusão dispensada a outros setores da economia. Extraíam-se e beneficiavam-se o quanto possível de minérios e exportavam-se muitas vezes de forma clandestina.
A riqueza mineral abundante, permanecia no subsolo até ser transformada em mercadoria, enquanto as discussões sobre: impactos ambientais, apropriação da renda mineral, a agregação de valor e a soberania tecnológica, permaneciam muitas vezes, restritas aos grandes círculos econômicos especializados.

Nesse cenário, os órgãos ambientais passaram a ser convenientemente apresentados pelos setores interessados na expansão da mineração, como um exagerado estorvo, inimigo do progresso e do desenvolvimento. Enquanto isso, a mineralogia como ciência, os estudiosos da variação do clima e os ambientalistas, continuam a ser enxergados como uma espécie de contraponto ao progresso econômico. A questão, entretanto, nunca deveria ter sido colocada nesses termos, pois o verdadeiro desafio de uma nação não consiste em escolher entre desenvolvimento e proteção ambiental, mas em construir as condições para que a exploração dos seus recursos naturais, nos levem ao desenvolvimento, sem a destruição das bases ambientais que sustentam a vida da nação.
Na época contemporânea as mudanças radicais do clima, tem nos mostrado uma nova realidade e começa a alterar o papel da mineração no imaginário nacional. A revelação e o aprofundamento do conhecimento sobre o potencial brasileiro em terras raras, é o despertar para a nova visão de uma atividade historicamente tratada simplesmente como extrativista, que passa a ocupar espaço privilegiado no debate econômico, industrial e geopolítico. A terras raras integram um grupo de 17 elementos químicos que estão ausentes da Tabela Periódica que classifica os elementos químicos. Suas propriedades magnéticas, ópticas e elétricas são fundamentais para a impulsão de diversas tecnologias contemporâneas. Estão associadas a equipamentos eletrônicos, veículos elétricos, equipamentos médicos, sistemas de geração de energia e outras aplicações de alta tecnologia.

O que está surgindo, portanto, não é simplesmente uma nova oportunidade de mineração e sim uma oportunidade de industrialização. Essa é uma diferença fundamental, porque possuir terras raras não significa, por si só, possuir uma indústria de alta tecnologia. Entre a jazida e o sofisticado minério citado, existe uma longa cadeia de conhecimento, de pesquisa, de beneficiamento, de separação, de refino, de metalização, de fabricação de materiais avançados e de produção industrial. É exatamente nessa cadeia que reside uma parcela decisiva do valor econômico e estratégico dessas substâncias.
Portanto, a pergunta que se coloca diante do Brasil não deve ser apenas o quanto existe de terras raras em seu território, nem quanto poderá ser extraído nos próximos anos.

A pergunta essencial é outra:
O Brasil pretende apenas retirar suas terras raras do subsolo e vender como commodities, ou pretende transformar essa riqueza mineral em conhecimento, tecnologia, indústria e soberania?
Apesar das terras raras receberem esse nome, elas não são raras no sentido de inexistência ou de escassez. O que torna sua exploração particularmente complexa é que esses elementos geralmente aparecem dispersos em diferentes maneiras e concentrações, exigindo processos específicos para sua identificação, extração, separação e refino. O Ministério de Minas e Energia destaca que sua utilização está diretamente relacionada a propriedades que permitem aplicações em tecnologias avançadas, enquanto a viabilidade econômica de cada depósito depende de fatores diversos como: teor, mineralogia, beneficiamento, logística e condições de mercado.
É justamente essa característica que torna a discussão brasileira muito mais ampla do que a abertura de novas minas. Uma reserva mineral é apenas o ponto de partida, onde a riqueza começa a ser extraída no subsolo, mas não termina fora da mina. Entre a extração e o produto industrializado existe uma sucessão de etapas: mineração, concentração, beneficiamento, separação dos elementos, refino, produção dos metais, fabricação de ligas e materiais avançados e, finalmente, a transformação desses materiais em componentes utilizados por setores industriais de maior complexidade. É nessa trajetória que uma riqueza natural pode ser transformada em riqueza econômica, tecnológica e estratégica.

O Brasil possui um valioso potencial geológico em terras raras e já vem desenvolvendo iniciativas para avançar nessa cadeia. Porém, o diagnóstico atual mostra uma contradição que não pode ser ignorada: possuir recursos minerais estratégicos não significa dominar as tecnologias necessárias para transformá-los em produtos de alto valor agregado. Especialistas ligados ao setor de pesquisa mineral destacam justamente a necessidade de superar gargalos tecnológicos e ambientais, avançando para unidades de separação e refino e, posteriormente, para a fabricação de ímãs permanentes de alta potência.
Eis aqui está o verdadeiro divisor de águas!
O velho modelo extrativista costuma enxergar a riqueza mineral como uma mercadoria pronta para ser retirada, vendida e exportada. Um projeto de industrialização avançada, precisa enxergá-la como matéria-prima de uma cadeia produtiva muito maior. por isso é pertinente lembrar que:
O mineração em si não é uma indústria, a reserva mineral isolada não representa tecnologia, nem a posse da jazida confere soberania!
A soberania se efetiva quando o país domina o conhecimento necessário para transformar aquilo que possui agregando valor ao produto final.

É por essa razão muito maior, que a exploração das terras raras deverá estar associada a uma estratégia nacional estatal, capaz de articular: mineração, ciência, tecnologia, indústria, educação, energia, defesa, meio ambiente e comércio exterior. Somente o monopólio estatal será capaz de conectar essa cadeia, garantindo que essa participação ocorra dentro de uma estratégia definida pelo interesse do Estado. Uma Empresa estatal detentora do monopólio, da ciência e da planificação e normas ditadas pelo Estado Nacional. Não se trata de impedir o concurso do capital privado nacional ou estrangeiro, desde que essa abertura se faça sob a batuta do estado.
Essa preocupação ganha ainda maior relevância porque as terras raras estão inseridas em cadeias produtivas internacionais altamente estratégicas. A disputa contemporânea por esses elementos não ocorre simplesmente entre empresas de mineração. Envolve tecnologia, indústria, energia, mobilidade, defesa, comércio internacional e segurança das cadeias de suprimento.
O próprio Brasil já começa a tratar o tema nessa perspectiva. Em janeiro de 2026, o Ministério de Minas e Energia iniciou os trabalhos técnicos destinados à construção da Estratégia Nacional de Terras Raras, articulando o desenvolvimento dessa cadeia às políticas industrial, ambiental, de inovação e de transição energética.

Isso significa reconhecer que a questão mineral deixou de ser exclusivamente mineral, passando a ser industrial; a ser tecnológica; e a ser geopolítica, transformando-se sobretudo, em uma questão de Estado. É justamente nesse ponto que a governança assume importância decisiva.
Os recursos minerais existentes no território brasileiro não podem ser tratados como se fossem simplesmente uma propriedade privada, totalmente livre e descolada do interesse coletivo. A exploração econômica pode ser realizada por empresas privadas, públicas ou em diferentes arranjos institucionais. Todavia, a definição das regras, os controles da fiscalização, da outorga, dos impactos, da proteção do interesse público e da orientação estratégica da atividade, constituem responsabilidades intransferíveis do Estado, que não precisa necessariamente minerar e sim governar a mineração.
Um país precisa conhecer seu subsolo, controlar seus recursos, fiscalizar sua exploração, assegurar o cumprimento das obrigações ambientais, acompanhar a cadeia produtiva, estimular a pesquisa científica, induzir a agregação de valor e impedir que uma riqueza estratégica seja transformada simplesmente em matéria-prima barata para alimentar indústrias localizadas em outros países.

Essa é uma diferença fundamental entre possuir recursos naturais e possuir uma política de recursos naturais, em que a dimensão ambiental precisa ocupar lugar central nessa governança.
Não é possível continuar a repetir o velho conflito em que a mineração apresenta a proteção ambiental como inimiga do desenvolvimento e, em sentido inverso, qualquer exploração mineral é tratada como incompatível com a preservação. As terras raras podem representar uma oportunidade extraordinária para o grande salto industrial brasileiro, mas a sua exploração deverá obedecer a critérios rigorosos de segurança, de planejamento territorial, de monitoramento e de responsabilidade ambiental.
A licença ambiental não deve ser entendida como um obstáculo ao desenvolvimento. Ela é parte do desenvolvimento. Da mesma forma, a ciência ambiental não é inimiga da mineração e sim um instrumento para que a mineração conheça seus limites, reduza seus impactos, desenvolva processos mais eficientes e evite que o ganho econômico de uma geração seja transformado em passivo ambiental para as gerações seguintes.
O desafio, portanto, não é escolher entre mineração e meio ambiente. É construir uma mineração tecnologicamente avançada, ambientalmente responsável e economicamente orientada pelo interesse nacional. Essa concepção se torna fundamentalmente mais importante diante do assédio internacional às cadeias produtivas.

Em 2026, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica CADE, abriu procedimento para analisar uma operação envolvendo a Serra Verde e a estadunidense (logo quem!) USA Rare Earth, abrangendo uma cadeia que inclui, pasmem, mineração, processamento, separação, metalização e fabricação de ímãs. O caso mostra concretamente como o assédio internacional às terras raras ultrapassa a simples exploração da jazida e alcança toda a cadeia industrial. Essa mesma estratégia foi empregada na extração do Petróleo, quando Getúlio Vargas respondeu com a criação da Petrobras que deteve o monopólio até a quebra no governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso.
Não há, portanto, exagero algum em afirmar que o Brasil está diante de uma escolha histórica e que não podemos repetir a velha pratica subordinada de tantas outras commodities: retirar, concentrar, exportar e importar produtos industrializados. O cacau que o diga! É hora de utilizar a oportunidade para construir uma cadeia nacional de maior densidade tecnológica.
A diferença entre os dois caminhos poderá nos levar a dois rumos distintos:
No primeiro, o país continuará sendo essencialmente fornecedor de matéria-prima.
No segundo, poderá transformar recursos naturais em capacidade produtiva, conhecimento científico, empregos qualificados, inovação tecnológica e indústria avançada.
E olha que já existem sinais por parte dos inimigos da nação, de corrermos o risco insano de trilhar o segundo caminho. O país tem desenvolvido iniciativas destinadas à produção nacional de ímãs permanentes de terras raras, etapa decisiva para avançar na agregação de valor e reduzir a dependência tecnológica externa. O desafio agora, é transformar iniciativas isoladas em uma política de Estado, que compreenda a cadeia completa.
Do subsolo ao laboratório; do laboratório à indústria; da indústria à tecnologia e
da tecnologia ao desenvolvimento.

Essa cadencia sugere uma orquestra de políticos afinados com a nossa sintonia, decididos e comprometidos e, uma nação mobilizada na defesa dos interesses de um país rico, que possui recursos naturais estratégicos e que precisa passar a dominar as tecnologias de transformação das terras raras, saindo de vez da dependência externa.
Se conseguirmos desenvolver essa tecnologia e não usá-la para desenvolver a nossa indústria, continuaremos importando produtos de alto valor. Se desenvolver a indústria sem proteger o ambiente, a produção de riquezas virá acompanhada de passivos ambientais nocivos. E se fizer tudo isso sem uma governança estatal capaz de coordenar interesses públicos e privados, correremos o risco de transformar uma oportunidade histórica em mais um ciclo de especialização primário exportadora.
As terras raras, portanto, não devem ser encaradas apenas como mais uma riqueza mineral brasileira. Elas se constituem em uma das bases de uma nova etapa de desenvolvimento industrial e independencia.
Contudo e bom perceber que, tudo isso não cairá dos céus e acontecerá automaticamente. Será resultado de uma decisão política firme, um bom planejamento, do desenvolvimento das ciências, de investimentos massivos sem olhar para superavit primário, de formação e capacitação de recursos humanos, de uma firme capacidade empresarial e rigorosa regulação pública com visão estratégica de médio e longo prazo.
O mais importante de tudo isso no entanto, é a nossamobilização consciente e permanente da nação brasileira para defesa de sua soberania.
Recordemos por fim que as terras raras chegaram ao debate brasileiro trazendo consigo muito mais do que a promessa de novas minas. Elas trouxeram uma pergunta sobre o futuro do país.

O Brasil poderá possuir uma das maiores riquezas minerais estratégicas do planeta e continuar desempenhando o papel tradicional de exportador de matérias-primas. Poderá retirar do subsolo aquilo que a natureza levou milhões de anos para formar, enviá-lo para fora do país e, posteriormente ter de comprar de volta a preços muito maiores, os produtos tecnológicos produzidos a partir das nossas riquezas.
O que a nação anseia é que faça diferente, transformando a riqueza mineral em conhecimento; transformando o conhecimento em tecnologia; transformando tecnologia em indústria, transformando indústria em soberania econômica.
Esse é o verdadeiro significado estratégico das terras raras.
Por isso, sua exploração não pode ser conduzida exclusivamente pela lógica imediata do mercado. Uma riqueza dessa natureza, muito maior do que a do petróleo, exige planejamento de longo prazo, conhecimento geológico, pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico, política industrial, rigor ambiental e uma governança estatal capaz de preservar os nossos interesses como país e nação.

O Estado não pode abdicar de governar aquilo que é fundamental e estratégico para o desenvolvimento do país.
A empresa pode extrair; a indústria pode transformar; a universidade pode pesquisar; a ciência pode inovar; o capital privado, nessas condições, pode investir. Porém é o Estado que deve estabelecer as regras, fiscalizar, coordenar e garantir que o patrimônio mineral brasileiro não seja convertido simplesmente em lucro privado ou em matéria-prima estratégica para o desenvolvimento de outras nações.
A grande riqueza das terras raras, portanto, não está apenas naquilo que está enterrado e sim naquilo que o Brasil será capaz de construir a partir delas.
Uma nação verdadeiramente soberana não é aquela que possui riquezas. É aquela que possui conhecimento para transformar essa riqueza em desenvolvimento, em tecnologia para agregar-lhes valor e de governar sua utilização em benefício da sociedade.
Se as terras raras forem tratadas apenas como minério, desgraçadamente teremos apenas mais uma commodity para encher as burras do liberalismo capitalista.
Se forem tratadas como patrimônio estratégico, poderão ser a catapulta para um novo país e uma nova e vigorosa nação!
O DIA 4 DE OUTUBRO ESTÁ BEM ALÍ. NOSSO VOTO PODERÁ REALIZAR TUDO ISSO!

“A terra guarda o minério; a soberania começa quando um povo decide o que construir com ele.”
Curadoria – Gorette Wanderley




