
Por:Antonio Couras
Nesta quinta-feira, dia 17 de setembro, veio à tona uma notícia que deveria causar muito mais espanto do que causou. Durante as negociações para a retirada do tarifaço imposto por Donald Trump ao Brasil, em outubro de 2025, o governo americano apresentou uma proposta com 21 exigências. A lista misturava assuntos comerciais relativamente comuns com questões que tinham muito pouco a ver com tarifas: eleições brasileiras, “dissidentes políticos”, decisões envolvendo empresas americanas de tecnologia, sistemas de pagamento, compra de aviões da Boeing e acesso a minerais críticos brasileiros. O documento foi rejeitado pelo Itamaraty antes de virar uma negociação efetiva. Diplomatas ouvidos pela imprensa chegaram a descrevê-lo como um “balão de ensaio” que “nasceu morto”.
O ponto que mais chamou atenção foi a exigência de que o Brasil se comprometesse com eleições “livres e justas” em 2026 e não prendesse ou limitasse “arbitrariamente” a participação de “dissidentes políticos”. A expressão veio do próprio documento americano. Não existe, na legislação eleitoral brasileira, uma categoria de candidato chamada “dissidente político”, e o texto não dizia quem seriam essas pessoas. Integrantes do Itamaraty entenderam que a referência alcançava Jair Bolsonaro e outros envolvidos nos conflitos políticos e judiciais dos anos anteriores. Essa interpretação fazia sentido dentro do contexto: o próprio governo Trump já havia usado o tratamento dado a Bolsonaro como justificativa para medidas contra o Brasil. No dia em que a existência do documento foi revelada, Eduardo Bolsonaro foi além e declarou estar “muito feliz” com a exigência americana, dizendo considerar a si próprio um dissidente.

A parte sobre a Boeing é igualmente reveladora, embora por outro motivo. A proposta queria compromissos para que companhias aéreas brasileiras comprassem aviões fabricados pela empresa americana. O problema é elementar: Azul, Gol, Latam ou qualquer outra companhia privada escolhe seus aviões conforme preço, financiamento, necessidade de frota e estratégia empresarial. O governo brasileiro não pode simplesmente entrar numa negociação diplomática e prometer que empresas particulares comprarão Boeing. Fontes do Itamaraty trataram a ideia justamente como uma ingerência indevida em decisões comerciais privadas.
Já os minerais críticos levam a história para outro patamar. Segundo o documento revelado, os americanos queriam uma espécie de direito de preferência ou oportunidade privilegiada para empresas dos Estados Unidos em negócios envolvendo jazidas brasileiras. Não estamos falando de cascalho. Minerais críticos e terras raras são fundamentais para baterias, eletrônicos, energia, indústria militar e tecnologias avançadas. Estados Unidos e China disputam ferozmente essas cadeias de fornecimento. Colocar acesso privilegiado a esses recursos numa negociação em que o Brasil tentava escapar de tarifas americanas teria consequências estratégicas muito maiores do que simplesmente vender algumas toneladas de minério.

É aí que o contexto político se torna impossível de ignorar. Eduardo Bolsonaro foi aos Estados Unidos em 2025 buscar apoio contra as decisões que atingiam seu pai e passou a defender sanções americanas contra autoridades brasileiras. Em agosto daquele ano, disse à Reuters que não via possibilidade de redução das tarifas sem concessões do Supremo. Em setembro de 2026, já durante a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, voltou a Washington para defender novamente sanções contra Alexandre de Moraes.
Depois veio o tarifaço. Em julho de 2025, os Estados Unidos acrescentaram 40% de tarifa a diversos produtos brasileiros, levando a cobrança total a 50% em vários casos. A própria Casa Branca associou a medida, entre outros argumentos, ao tratamento dado a Jair Bolsonaro e às decisões brasileiras envolvendo empresas americanas. Portanto, não é necessário inventar uma teoria conspiratória para relacionar a crise política brasileira à pressão econômica americana. Essa relação foi declarada pelo próprio governo dos Estados Unidos.

É preciso uma mente muito rasa para imaginar que se convoca uma superpotência para esmagar os próprios inimigos e depois se escolhe qual parte da superpotência entra pela porta. Não existe botão em Washington escrito “salvar Bolsonaro” que venha desacompanhado da Boeing, das big techs, das terras raras, dos interesses militares, comerciais e geopolíticos dos Estados Unidos.
Donald Trump não é presidente do fã-clube dos Bolsonaro. O diabo laranja pode abraçar, elogiar, posar para fotografia e repetir o discurso que for conveniente, mas continua sendo presidente dos Estados Unidos. Trabalha para os Estados Unidos. A Boeing trabalha para a Boeing. Washington trabalha para Washington.
O espantoso é ver brasileiros trabalhando para transformar essa força estrangeira em instrumento de uma guerra doméstica e ainda embrulharem a operação na bandeira nacional.

Que patriotismo é esse que grita “Brasil acima de tudo” e corre para Washington quando as instituições brasileiras deixam de atender aos interesses da família? Que soberania de vitrine é essa que dura até a primeira decisão judicial desagradável? Chamaram uma potência estrangeira para dentro de casa e depois descobriram que ela olhava os móveis, o terreno e o cofre.
Os americanos estavam defendendo os Estados Unidos. Os Bolsonaro estavam defendendo Bolsonaro. Felizmente, naquele momento, o Itamaraty ainda estava defendendo o Brasil. A proposta foi rejeitada. A bandeja saiu da mesa. Mas a obscenidade permanece: foram brasileiros que ajudaram a colocá-la lá. Foram e são os Bolsonaro que estão dispostos a dar o Brasil a Trump em troca do Planalto.

“A pátria deixa de ser discurso quando defendê-la exige dizer não.”
Curadoria – Gorette Wanderley




