
Por: João Vicente Machado Sobrinho
Há muito mais histórias sobre a política e o futebol brasileiro do que possa imaginar nossa vã filosofia. Mesmo quando essas histórias não são tomadas como registros históricos rigorosos, como ressalva Ruy Castro, autor do livro Estrela Solitária- Um brasileiro Chamado Garrincha. Essas narrativas folclóricas, sobrevivem por traduzir com extraordinária simplicidade e humor, flagrantes do cotidiano da vida real.
Entre as tantas estórias e histórias contadas por Ruy Castro envolvendo Mané Garrincha, um dos maiores jogadores de toda história do futebol brasileiro, pinçamos uma, que nos servirá de metáfora para o tema que adotamos para este escrito. A versão consagrada por Ruy, é ambientada na Copa do Mundo de 1958, mais precisamente no jogo da seleção brasileira contra a União Soviética-URSS
O treinador era Vicente Feola, apesar de eficiente não era de muita conversa. Ele teria explicado detalhadamente ao grupo a sua tática e chamou Garrincha à parte e disparou: Garrincha, quando você estiver com a posse da bola, vai driblar o lateral, driblar o volante, superar a cobertura, avançar e cruzar para o cabeceio de Vavá. Alguma duvida? Garrincha, que teria escutado atentamente a preleção, voltou-se para Feola com a célebre pergunta que entrou para a memória nacional do futebol. Disse ele:
Seu Feola, o senhor lembrou de combinar isso com os russos?

Essa história é, provavelmente, muito mais lendária do que documental. Contudo pouco importa para aquilo que nos interessa transmitir. O sentido da pergunta feita ao craque Mané Garrincha, contém uma ironia que atravessou o futebol, chegou ao senso comum e agora chega à política de forma atualíssima.
Portanto, quando os dirigentes partidários decidem trocar de candidatos, modificar as chapas, substituir nomes, construir alianças ou rearranjar suas estratégias eleitorais, surge uma pergunta verossimilhante:
Será que os saltimbancos da má política combinaram as diversas acrobacias com os eleitores?

Na política, assim como no futebol, existe uma diferença fundamental entre montar uma estratégia e garantir que o adversário — ou, no caso eleitoral, o eleitor — aceite a estratégia montada.
Dirigentes partidários costumam se reunir intramuros, discutir conveniências, alinhavar conchavos, avaliar pesquisas, avaliar alianças e decidir quem será candidato a esse ou aquele cargo. Mudam de posição de acordo com a conveniência própria, substituem nomes e reorganizam chapas conforme a circunstância$.
Tudo isso faz parte da famigerada dinâmica interna das organizações partidárias liberais capitalistas, reafirmadas com ênfase, por um ex-deputado paraibano, político profissional, de matiz liberal agraria ortodoxa, por um legado hereditário.
Existe, contudo, um detalhe em forma de limite, que infelizmente o eleitor não percebe. Nenhuma reunião partidária ou vontade de qualquer cacique político conseguirá ultrapassar a decisão final sobre o voto que, será tomada dentro da cabine eleitoral e só pertence ao eleitor na hora de votar:

É em ocasiões como essa que cabe a pertinente pergunta de Garrincha que ganha uma dimensão política extraordinária.
“O senhor combinou isso com os seus eleitores? ”
A questão de fundo não é que os partidos sejam impedidos de mudar suas estratégias. Afinal é essa a função precípua do pluripartidarismo: acomodar a movimentação frenética dos profissionais da política e conciliar interesses divergentes. Não existe nenhuma divergência interpartidária quanto ao modelo político e o método econômico liberal capitalista.
Então, na realidade, os partidos políticos liberais não seguem nenhum projeto ou planejamento de governo. São simples aparelhos usados para ajustes de interesses pessoais, interesses familiar ou de grupos econômicos e financeiros. Funcionam como se fossem algodão entre cristais, ou seja: amacia disputas internas, negociações, convenções, alianças e mudanças de rumo.
Essa é uma prática antiga e recorrente, que teve início com a chamada democracia liberal, introduzida juntamente com o Sistema Tripartite de Governo, proposto por Montesquieu. O método liberal de economia, ainda em uso, tende nitidamente ao esgotamento à nível mundial e cambaleia envolvido em profundas contradições, fazendo água por todos as frestas.

Os acordos políticos que sempre foram celebrados à sorrelfa, com o advento da cibernética já não podem mais serem celebrados às escondidas. Na época contemporânea as informações fervilham e em questão de horas, quaisquer deslizes rapidamente chega ao conhecimento dos eleitores. Melhor dizendo, já não há mais condições da prática de determinadas trampolinagens para enganar os eleitores.
Existem três formas distintas de influenciar o comportamento humano a tomar decisões: o convencimento, a cooptação e a coerção. O diferencial está na vontade ou no grau de liberdade das pessoas.
A questão se agrava quando os dirigentes passam a tratar o eleitor coercitivamente, haja vista a falência dos seus argumentos. É aí que o eleitor, como protagonista do voto, passa a ser coagido e permanece como simples espectador de um jogo eleitoral sujo, onde a estratégia e a tática é traçada à sua revelia.
Quando o eleitor percebe que ao invés de protagonista e parte essencial do jogo, ele está sendo tratado como um simples espectador, é hora de responder em silencio no interior da cabine de votação, com um sonoro NÃO. Foi essa a reação adotada pelo rebelde Operário em Construção do poema de Vinicius de Morais!

É verdade que tanto a política, como o futebol comportam estratégia e tática. Todavia existe uma diferença essencial. No futebol, o treinador pode desenhar a jogada e contar com a participação e a colaboração dos jogadores.
A política diverge desse consenso, pelo simples fato de que o eleitor não pertence ao time de ninguém. Ele é livre como a brisa para optar pelo candidato que julgue merecedor do seu voto. Portanto, ele tem a opção de observar, de analisar, de comparar e se auto indagar, para finalmente decidir em silêncio.
Quando a coerção se materializar, o eleitor deverá recordar da celebre sentença, cujo autor desconhecemos:
“Depois que eu aprendi que um lobo em silêncio impõe muito mais respeito do que um cachorro latindo, nada me tira da postura e a calma. ”

Por tudo isso e diante do troca-troca frenético dos políticos profissionais, das frequentes desarrumações promovidas pelos dirigentes partidários, talvez seja oportuno recuperar a irreverência atribuída ao Mané Garrincha.
A despeito das bravatas e das ameaças o eleitor deve votar no candidato que julgar merecedor da sua confiança e que lhe represente. Vote sem temer porquê se o seu candidato se eleger o mesmo político hostil e coator irá aderir humildemente a ele, desde que sua mão seja devidamente molhada.
O dirigente pode até dizer:
“Você dribla o primeiro, passa pelo segundo, desloca a cobertura e coloca o voto na urna para a minha eleição! ”
Permanece, no entanto, a questão essencial e decisiva que somente o eleitor poderá responder em silencio e com um ar de riso:
“O senhor não combinou nada disso comigo doutor? ”
No modelo de democracia posta em prática pela classe dominante, a estratégia pode ser combinada nos bastidores. Todavia o voto é secreto e pertence somente ao eleitor.

“Podem combinar a jogada entre si. O voto só combina com a consciência de quem vota.”
Curadoria Gorette Wanderley




