
Por: Mirtzi Lima Ribeiro
Nunca havia ouvido e lido tanto sobre envelhecer. Parece que em nosso país muitos estão atentando para os desafios e adaptações cruciais que a vida longeva traz. Alguns aceitam esse fato e passam a se cuidar mais de modo saudável, com vistas a ter mais mobilidade e autonomia a partir dos sessenta anos de idade.
Talvez o tema esteja ganhando destaque porque no Brasil atual, estima-se que exista um contingente de cerca de 36 milhões de pessoas com a idade de 60 anos ou mais, representando 16,60% de toda a população brasileira. Talvez também porque, segundo dados divulgados oficialmente, temos um indicativo de que no mesmo período, o crescimento desse número tenha ultrapassado o quantitativo de crianças nascidas, tanto pela queda na taxa de natalidade quanto pelo aumento da expectativa de vida da população, que tem se conscientizado da importância da prolongação dos anos de vida com qualidade.
Desse grupo de 60+, tem-se um número mais considerável de mulheres, em torno de 55 a 56% dessa faixa etária, especialmente entre os 70 e 80+. Digno de nota é que, de quatro idosos desse grupo, um deles ainda é peça ativa no mercado de trabalho, mantendo atividade remunerada e ainda com capacidade laboral, intelectual e produtiva considerável.

As questões que ganham importância nesse contexto são os níveis de acessibilidade, de renda, dos aspectos de saúde, da infraestrutura e da necessidade de políticas públicas voltadas a esse público que cresceu exponencialmente nos últimos anos.
Na década de 80, entre os anos de 1980 e 1990, ainda se tinha uma mente que carimbava as pessoas 60+ como integrantes de uma fase incapacitante. Lembro de uma notícia em um jornal da década de 80 que virou piada para os tempos atuais, que dizia o seguinte: “velhinha de 48 anos é atropelada em plena via pública”. Era um estigma ter mais de 40 anos, quem dirá, mais de 60! Naquela época havia uma propaganda massiva que a juventude era o futuro da nação.
Nessa década, os mercados, a imprensa, gravadoras, editoras, mundo da moda, assim como vários segmentos produtivos, entendiam que o público-alvo consumidor jovem era uma tendência forte a se investir. Foi o período das “Diretas Já”, do “Voto aos 16 anos!”, do “Grêmio Livre Já!”. Via-se a juventude como o “futuro da Nação” e isso foi cantado em verso e prosa, em canções e festivais. Em 1985, a banda Legião Urbana lançou um álbum intitulado “Geração Coca-Cola”, cujo refrão da música com esse nome, dizia: “Somos os filhos da revolução/ Somos burgueses sem religião/ Somos o futuro da nação/”.

A imagem vendida nesse período era de que aquela juventude seria o diferencial no país. Esqueceram de dizer que essa geração um dia envelheceria. Os jovens daquela época atualmente estão na idade de 60+, a maioria é produtiva, engajada, pratica algum tipo de esporte ou faz academia para manter seu tônus muscular em bom nível, e em decorrência disso, ter autonomia em seus movimentos, modo e estilo de vida.
O jornalista Pedro Bial, em um de seus programas falou que sua geração foi enganada com a ideia do apogeu da juventude e de que essa é a única fase em que há vida. Ele nasceu em 1958 e atualmente está na faixa de seus 68 anos de idade. Nas suas redes sociais, em 2024, escreveu o seguinte; “Venderam um peixe podre dizendo que ‘aproveita quando você é jovem, porque depois quando você ficar velho não tem nada’. Não! Agora que tá bom, agora que tá bom!”.
Nesse quesito de longevidade, das várias vertentes veiculadas pela mídia, temos um mercado que aposta ferozmente em procedimentos estéticos invasivos e na criação de um escopo para idosos que devem ter a aparência de jovens para sempre. As clínicas voltadas para isso utilizam vários métodos de alto custo aquisitivo, vendendo essa imagem da eterna juventude.

Qual o lado que importa realmente? Importa ter saúde, mobilidade, autonomia e uma vida com afeto, significado, com a prática de algum tipo de atividade física compatível, cuidados com o sono, alimentação saudável, acompanhamento médico condizente e uma mente arejada. Isso importa exponencialmente muito mais do que procedimentos estéticos.
Ainda há muito preconceito com a população dos 60+. Entretando, o que se precisa entender é que esse contingente humano ainda ama, ainda precisa de sexo de qualidade, de prazer associado a bons níveis de pertencimento, laços de afinidade, contato familiar suave e que compreenda suas necessidades e vicissitudes, seus potenciais e seus limites.
A diversão, o sexo, o afeto, passam a ter um novo critério que é mais seletivo, mais maduro e com o sabor mais suave. Esses quesitos são fundamentais e todos precisam de ter uma vida de qualidade até o atingimento dessa faixa de idade, e, principalmente após essa linha do tempo de 60 anos.

A mente pode ser ainda muito ágil quando os pensamentos são nutridos com flexibilidade, leveza e receptividade a novas ideias. Estudar um novo idioma, fazer viagens e conhecer novos horizontes é, em si, uma excelente motivação para a vida, especialmente nessa fase. A dança, a música, as boas leituras, um amor de verdade para desfrutar com um par compatível, gente de mente saudável por perto, tudo isso é um lenitivo e um prêmio que a maturidade pode ter.
Em tudo na vida é requerida a compreensão do contexto vivenciado. No Brasil há vários levantamentos que vêm sendo efetuados para identificação das necessidades desse público de idosos e para o estabelecimento de políticas públicas voltadas a eles. É preciso adaptar calçadas, vias e locais públicos, com programas educacionais para que todos tenham um olhar de cuidado e compreensão com a população 60+, 70+, 80+ e 90+.
Como disse Martinho Lutero: “Os que amam profundamente, jamais envelhecem; podem morrer de velhice, mas morrem jovens.”

“Envelhecer é descobrir que a vida ainda guarda primeiras vezes.”
Curadoria – Gorette Wanderley




