Distribuição

Por: Antônio Hennrique Couras

Durante décadas, ouvimos que o país precisava produzir mais. Mais comida, mais energia, mais riqueza, mais infraestrutura. A ideia da escassez se tornou quase uma explicação universal para nossos problemas. Se falta alguma coisa, é porque não produzimos o bastante ou somos pobres demais para comprar.

Só que nem sempre é verdade. Hoje, em determinados horários, o Brasil chega a ter tanta geração de energia solar e eólica disponível que parte dela precisa ser cortada. O Operador Nacional do Sistema manda usinas reduzirem a produção porque aquela eletricidade não pode ser inteiramente absorvida naquele momento. Às vezes falta capacidade de transmissão. Em outras situações, simplesmente há energia demais entrando no sistema para o nível de consumo daquela hora.

Passamos anos discutindo como produzir energia e agora começamos a descobrir que também precisamos aprender o que fazer com ela depois de produzida. O problema tem nome técnico, curtailment, mas talvez pudesse ter um nome bem mais objetivo: desperdício.

Não porque seja possível guardar toda aquela eletricidade numa caixa e alguém tenha esquecido de fazê-lo. O sistema elétrico é muito mais complicado do que isso. Produção e consumo precisam estar equilibrados praticamente o tempo inteiro. Existem limites de transmissão, questões de estabilidade da rede e uma série de restrições técnicas. Ainda assim, o resultado é difícil de engolir: temos vento, temos sol, temos as usinas funcionando, mas falta estrutura para aproveitar plenamente aquilo que já somos capazes de gerar.

E isso diz muito sobre o Brasil. Somos um dos maiores produtores de alimentos do mundo e ainda convivemos com fome. Temos algumas das maiores reservas de água doce do planeta e cidades que passam por crises de abastecimento. Produzimos riqueza suficiente para figurar entre as maiores economias do mundo e mantemos uma desigualdade que dispensa comentários. Produzir nunca foi exatamente nosso único problema. Distribuir, sim.

No caso da eletricidade, distribuição não significa apenas levar um fio de um lugar para outro. Significa ampliar linhas de transmissão, modernizar redes, investir em armazenamento, desenvolver baterias de grande escala, criar mecanismos para que indústrias consumam mais energia justamente nos horários em que ela é abundante e eletrificar atividades que hoje queimam petróleo e gás. É aí que essa discussão começa a ficar realmente interessante.

Em 2025, 86,8% da eletricidade produzida no Brasil veio de fontes renováveis. É uma situação que poucos países do mundo podem sequer imaginar. Hidrelétricas, eólicas, solares e biomassa nos colocam numa posição privilegiada justamente no momento em que o planeta procura desesperadamente maneiras de abandonar os combustíveis fósseis. Só que eletricidade é apenas parte da história.

Quando olhamos para toda a matriz energética brasileira, incluindo gasolina, diesel, querosene, gás e os combustíveis usados nos transportes e na indústria, a participação das renováveis cai para cerca de metade.
Ou seja, temos diante de nós um caminho bastante óbvio: usar cada vez mais nossa eletricidade limpa para substituir aquilo que ainda depende de combustível fóssil.

Eletrificar transportes. Eletrificar processos industriais. Produzir hidrogênio verde onde isso fizer sentido. Investir em ferrovias eletrificadas, armazenamento de energia, redes inteligentes. Aproveitar o sol do Nordeste, o vento do litoral, a biomassa, as hidrelétricas e toda essa infraestrutura já existente para construir uma economia progressivamente menos dependente de petróleo.

E é por isso que causa certa perplexidade assistir à enorme mobilização política e econômica em torno da exploração de uma nova fronteira petrolífera na Margem Equatorial.

É verdade que existe um argumento a favor dessa exploração. A Petrobras sustenta que novas reservas seriam necessárias para substituir campos que inevitavelmente perderão produção no futuro e evitar que o Brasil volte a depender de petróleo importado. É um argumento legítimo e precisa ser discutido. Mas também precisamos perguntar se é essa a direção na qual queremos concentrar nossa ambição nacional.

Estamos falando de explorar petróleo em águas profundas, numa região ambientalmente sensível, com investimentos bilionários e riscos inevitáveis, justamente quando o país já demonstra possuir uma capacidade extraordinária de produzir energia renovável e, pior, começa a desperdiçar parte dela porque não investiu o suficiente para aproveitá-la.

Há alguma coisa fora do lugar nessa equação.
Talvez o petróleo da Margem Equatorial gere dinheiro. Talvez seja comercialmente viável. Talvez ajude a sustentar receitas públicas durante algumas décadas. Nada disso elimina a pergunta central: enquanto o mundo tenta descobrir como sair dos combustíveis fósseis, faz sentido que um país com nossas vantagens naturais trate uma nova fronteira de petróleo como se fosse um destino inevitável?

O petróleo ainda não desaparecerá amanhã. Mas uma coisa é administrar uma dependência que ainda existe. Outra é construir deliberadamente uma nova dependência para as próximas décadas. Nossa matriz elétrica já mostrou que existe outro caminho. O desafio agora é fazer com que essa abundância transborde para o restante da economia.

Quando uma turbina eólica precisa ser desligada porque não conseguimos aproveitar a eletricidade que ela poderia produzir, não estamos diante de um fracasso da energia renovável. Muito pelo contrário. Estamos diante da prova de que nossa capacidade produtiva avançou mais rápido que nossa infraestrutura.

A máxima defasada de Delfim Neto do fazer o bolo crescer para só então distribuí-lo. Não precisamos apenas de mais energia. Precisamos de linhas, armazenamento, tecnologia, indústria, planejamento e prioridade política. Precisamos transformar a eletricidade limpa que já sabemos produzir em transporte, produção industrial, desenvolvimento e independência energética.

Porque, às vezes, a escassez é real. Em outras, ela é apenas desperdício disfarçado para não escancarar a má vontade ou incapacidade política.

 

“O futuro não depende apenas da energia que sabemos gerar, mas da decisão de fazê-la chegar mais longe.”

Curadoria – Gorette Wanderley

 

 

 

Comentários Sociais

Mais Lidas

Arquivo