O tabagismo como doença

Por:Neves Couras

Esta semana foram divulgados dados sobre o aumento do tabagismo entre a população jovem, e um mal que eu nunca imaginei retornar está cada dia mais vivo. A indústria do cigarro teve por décadas um apelo social enorme. Responsável por campanhas publicitárias memoráveis envolvendo grandes figuras do cinema, televisão e até mesmo do esporte. A aura que envolvia o ato de fumar já foi chique, e até mesmo recomendada por médicos e dentistas. Toda casa que se presasse tinha seus imponentes cinzeiros na mesa de centro, as vezes até isqueiros decorativos. Nas bolsas das senhoras e nos paletós dos homens sempre habitavam elegantes cigarreiras e até piteiras. Verdadeiras joias relacionadas ao ato social de fumar.

Essa imagem, no entanto, começou a ruir à medida que os efeitos do cigarro sobre a saúde se tornaram impossíveis de esconder. Com o avanço das pesquisas médicas, as campanhas de conscientização, a proibição da publicidade e as restrições ao fumo em ambientes fechados, o cigarro foi pouco a pouco perdendo espaço e prestígio. O que antes aparecia no cinema como símbolo de elegância, independência ou virilidade passou a ser associado ao câncer, às doenças respiratórias, ao mau cheiro e à dependência. Os cinzeiros desapareceram das salas, fumar dentro de restaurantes e aviões tornou-se impensável e até a convivência social com o cigarro mudou. Durante algumas décadas, parecia que havíamos conseguido transformar aquele antigo símbolo de sofisticação em um hábito cada vez menos desejável, sobretudo entre os mais jovens.

O que escrevo hoje, além de reforçar os riscos que há anos são divulgados, também parte de uma experiência dentro da minha própria família. Meu pai começou a fumar cigarros feitos de fumo de rolo aos 12 anos de idade. Apanhou muito — naquele tempo se apanhava tanto que, em muitos casos, chegava a ferir a pele. Nada adiantou. Continuou fumando até lhe aparecer um caroço no assoalho da boca que precisou ser retirado. Fez uma cirurgia no Hospital do Câncer, em João Pessoa. Lá, teve que dormir ao lado de um senhor que estava com o rosto todo deformado e com feridas expostas, causadas pelo cigarro. Ao sair dali, deixou de fumar definitivamente.

Fumava três carteiras de cigarro por dia e fumou durante 42 anos. Deixou de fumar em 1978 e morreu em 2011. Mesmo passando 33 anos sem fumar, quando gripava e se fazia necessário realizar uma radiografia, os pulmões ainda apresentavam comprometimento.

Mas ele não era um caso isolado, minha mãe, tios e tias, quase todos fumavam e alguns ainda fumam.
Segundo o Ministério da Saúde, o tabagismo é uma doença crônica caracterizada pela dependência química da nicotina, presente em todos os derivados do tabaco, como cigarros, inclusive os eletrônicos, e charutos.

Além de atacar seriamente os pulmões, já se sabe que a nicotina chega rapidamente ao cérebro, liberando dopamina e gerando uma sensação temporária de prazer e relaxamento. A fumaça do cigarro contém milhares de componentes nocivos e dezenas de substâncias cancerígenas que afetam os sistemas respiratório e cardiovascular. O tabagismo é considerado pela Organização Mundial da Saúde uma das principais causas de morte evitável em todo o mundo.

O que mais me preocupa, é tentar entender por que, em pleno 2026, depois de tudo o que aprendemos sobre os males do tabagismo, tantos jovens voltaram a consumir nicotina. Talvez a resposta esteja justamente no fato de que eles não conheceram o cigarro da mesma maneira que a minha geração conheceu. O maço com fotografias de doenças, o cheiro forte de fumaça, os dentes amarelados e o cinzeiro cheio de pontas pouco têm de atraente para quem cresceu ouvindo que fumar faz mal. O cigarro eletrônico, porém, chegou com outra aparência: colorido, pequeno, tecnológico, com cheiro agradável e sabores de frutas, doces e bebidas.

Não se apresenta como cigarro e muitos de seus usuários nem sequer se enxergam como fumantes. Por trás dessa aparência mais moderna, entretanto, continua existindo a nicotina, uma substância capaz de causar dependência, além da exposição a outros componentes prejudiciais aos pulmões e ao sistema cardiovascular.

Talvez por isso seja tão importante falar novamente sobre o assunto, mesmo que pareça repetitivo. Eu vi de perto o que o cigarro fez com pessoas da minha família e sei como é difícil abandonar uma dependência depois de tantos anos. O que assusta agora é perceber jovens entrando por uma porta que nós já sabemos onde pode terminar. O formato mudou, o cheiro mudou, a propaganda mudou de lugar, mas a nicotina continua fazendo o mesmo trabalho. Se conseguimos, ao longo de décadas, tornar o cigarro cada vez menos presente na vida das pessoas, não podemos assistir calados enquanto ele volta disfarçado de novidade.

Referências: Os dados utilizados neste artigo foram pesquisados em materiais do Ministério da Saúde sobre tabagismo.

 

“O último cigarro não apaga o passado, mas pode abrir caminho para uma nova vida.”

Curadoria – Gorette Wanderley

 

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