E quando ninguém está olhando?

Por: Antonio Henrique Couras

Há alguns dias, assisti a um trecho de uma entrevista com a escritora indiana Arundhati Roy em que ela dizia uma coisa que não me saiu da cabeça. Falando sobre populações adivasi, comunidades tribais indianas submetidas à violência e à expulsão de seus territórios, Roy questionava o sentido de recomendar a elas os métodos tradicionais de resistência pacífica. Fazer uma greve de fome? Mas e quando quem protesta já passa fome?

Então veio a frase: “Non-violence is a piece of theatre. You need an audience.” A não violência é uma espécie de teatro. É preciso haver uma plateia.

A princípio, pode parecer uma afirmação dura. Mas todo protesto é, em alguma medida, uma forma de comunicação. Uma greve funciona porque interrompe alguma coisa. Um boicote precisa atingir um interesse econômico. Uma marcha ocupa a rua e obriga quem preferiria ignorá-la a prestar atenção. Mesmo a greve de fome depende do constrangimento causado pelo sofrimento de alguém.

A não violência, portanto, não é ausência de conflito. Ela funciona porque cria conflito sem recorrer às armas.
Talvez por isso tenhamos romantizado demais figuras como Gandhi e Martin Luther King Jr. Seus movimentos não venceram simplesmente porque seus integrantes foram pacíficos diante da injustiça. Houve boicotes, prisões, desobediência civil, paralisações, prejuízos econômicos e crises políticas. Havia pressão. E havia, sobretudo, uma plateia capaz de transformar aquela pressão em alguma consequência. O problema é que nem todo mundo dispõe desse palco.

Pense no trabalhador contratado como pessoa jurídica. No papel, ele poderia cruzar os braços. Na prática, pode simplesmente não receber naquele dia, perder o contrato e descobrir que havia outras dez pessoas prontas para ocupar seu lugar. Um motorista ou entregador de aplicativo pode desligar a plataforma, mas, se a paralisação não for enorme e muito bem organizada, outro motorista aceita a corrida e a vida segue.

Não é que esses trabalhadores não possam protestar. Já houve paralisações importantes de trabalhadores de aplicativo em vários países. Mas o sistema foi organizado para tornar cada trabalhador individualmente substituível. Isso enfraquece justamente a arma tradicional da greve: a capacidade de tornar a ausência impossível de ignorar.

Agora leve essa lógica para uma comunidade indígena cujo território está sendo invadido por garimpeiros. Como essa comunidade protesta? Faz greve de quê? Boicota qual produto? Ocupa qual avenida?

E se não houver energia elétrica, internet, imprensa próxima ou sequer acesso fácil às instituições do Estado? O garimpo pode continuar funcionando perfeitamente sem a colaboração de quem está sendo expulso. Pior: pode funcionar justamente porque essas pessoas foram retiradas do caminho. A vítima, nesse caso, não controla nenhuma engrenagem que possa parar.

Há também grupos para os quais tornar-se visível pode ser perigoso. Pessoas trans podem marchar, organizar associações, recorrer à Justiça, criar campanhas e ocupar espaços públicos. Mas a exposição que dá força ao protesto pode também significar assédio, discriminação, perda de oportunidades ou violência. Para algumas pessoas, aparecer diante da plateia já tem um preço.

É por isso que me incomoda quando “proteste pacificamente” aparece como resposta automática a qualquer forma de revolta.
Não porque a violência seja desejável. Não é. A história oferece razões suficientes para desconfiarmos dela. Movimentos armados podem produzir autoritarismo, ampliar o sofrimento de civis e fornecer ao próprio Estado a justificativa que procurava para aumentar a repressão. Há também ampla pesquisa mostrando que movimentos de resistência civil conseguiram, em muitos contextos, resultados melhores que insurgências violentas. Mas uma estratégia política não deveria ser confundida com uma obrigação moral absoluta.

Porque protestar não é apenas demonstrar insatisfação. Para provocar mudança, em algum momento o protesto precisa custar alguma coisa a quem possui poder. Dinheiro, votos, reputação, produção, estabilidade, apoio internacional. E nem todos possuem meios de produzir esse custo.

Foi pensando nisso que me lembrei de “Eu Só Peço a Deus”, versão em português de Sólo le pido a Dios, de León Gieco, gravada por Beth Carvalho e Mercedes Sosa:
“Pois não posso dar a outra face
Se já fui machucado brutalmente.”

Gosto desse verso não como autorização para revidar, mas como recusa de uma obrigação unilateral de mansidão.
Dar a outra face pode ser uma decisão moral admirável quando tomada por quem recebeu a primeira bofetada. É muito diferente quando a recomendação vem de quem estava assistindo.

Existe uma facilidade enorme em exigir serenidade de quem está sendo atingido. Queremos que o trabalhador proteste sem prejudicar o serviço, que o manifestante não interrompa o trânsito, que a população revoltada não cause desordem, que a greve não atrapalhe ninguém. Aos poucos, o protesto ideal passa a ser aquele que não incomoda. Só que um protesto incapaz de incomodar corre o risco de virar apenas uma manifestação de sentimentos.

E talvez o problema de hoje seja ainda mais estranho do que aquele apontado por Roy. Ela pergunta o que acontece quando não existe plateia. Nós começamos a descobrir o que acontece quando a plateia existe, vê tudo e continua sentada.

 

Nunca tivemos tantas câmeras. Vemos aldeias invadidas, pessoas expulsas de suas casas, trabalhadores explorados, civis mortos, manifestantes espancados. Muitas vezes vemos tudo quase em tempo real. Ainda assim, ver não significa agir.

A indignação dura alguns minutos, talvez um dia. Compartilhamos uma imagem, escrevemos alguma coisa e continuamos descendo a tela. O sofrimento tornou-se extraordinariamente visível, mas nossa capacidade de conviver com ele também aumentou.

Isso torna ainda mais delicado exigir que aqueles submetidos à violência mantenham sempre a forma de resistência que nós consideramos moralmente confortável.

Não estou dizendo que qualquer reação passa a ser legítima. Civis continuam sendo civis, crimes continuam sendo crimes e uma injustiça não transforma automaticamente outra em justiça.

Mas talvez exista uma pergunta que precise vir antes da condenação:
Qual a alternativa?
Antes de condenar a forma como uma comunidade reage, talvez seja preciso perguntar se ela realmente dispõe de meios para ser ouvida, pressionar instituições ou produzir algum custo ao poder. Nem toda greve é percebida, nem toda denúncia chega a quem decide, nem toda população tem acesso aos canais que costumamos considerar legítimos. Se, como diz Arundhati Roy, a não violência precisa de uma plateia, talvez seja preciso acrescentar que não basta haver quem assista: é preciso haver quem se importe.

“Não basta haver quem assista: é preciso haver quem se importe.”

Curadoria – Gorette Wanderley

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