
Por: Neves Couras
Hoje, caro leitor, peço licença para falar, neste Dia dos Pais, de nosso pai. O Dia das Mães é, merecidamente, muito comemorado. Entretanto, preciso falar do homem que, com minha mãe, nos gerou.
A figura mais controversa que tivemos em nossa vida. Somos quatro irmãos. Sou a primeira filha e posso dizer que fui muito amada. O segundo filho foi tão amado quanto eu e ainda trouxe a aparência e muito de sua personalidade de brincalhão e contador de piadas.
Essa história que resolvi contar mexe muito com meu coração e com toda a minha vida. Pai casou-se muito novo. No ano em que nasci, ele completava 20 anos. Seus irmãos todos se dedicaram à agricultura, mas ele não. Bem que tentou, mas não deu certo.

Naquela época, os homens que saíam para o roçado tomavam um pequeno café. Nossa mãe foi a mulher que mais amou aquele homem. Era lindo de ver e, ao mesmo tempo, esse amor foi mesclado por muito sofrimento. Lembro de uma cena, eu ainda muito pequena (não duvidem de alguns casos que descrevo em tenra idade, pois minhas primeiras lembranças são de quando eu tinha apenas três anos). Uma dessas lembranças foi quando mãe foi levar o café, por volta de nove horas da manhã, justamente para esperar o almoço.
Chegando lá, pai colocou a enxada no chão, sentou-se no cabo da enxada e começaram a conversar. Nunca faltou assunto para conversarem. Após um longo papo, mãe disse:
— Alfredo, vou para casa terminar o almoço.
Ao ouvir isso, ele se levantou, pronto para acompanhá-la.
— E não vai continuar o trabalho? — perguntou ela.
— Não. Já trabalhei demais.

Foi o filho mais velho, muito amado por nosso avô, que fez de tudo para que ele “fosse gente”. Ele não nasceu para viver aquela vida repetitiva e sem graça. Quando completou 18 anos, nosso avô deu um caminhão a ele, pois era seu maior sonho ser motorista. Fazia o transporte do pessoal dos sítios vizinhos, aos sábados fazia outros fretes e começou dois vícios muito difíceis: fumar e beber. E, como era muito bonito, vamos dizer que era namorador. De tanta irresponsabilidade, perdeu o primeiro caminhão.
Quando casou, meu avô, como gostava muito de nossa mãe, por ter sido a professora de todos os filhos dele e dos sitiantes vizinhos, além de ser de família tradicional e igualmente linda, resolveu comprar uma bela casa na cidade e montou uma mercearia, que se tornou a maior da cidade. Pai tinha um carisma e uma facilidade de lidar com as pessoas que chamavam atenção.
Depois de um tempo, eu ainda nasci no tempo da opulência, mas era tempo de seca. Ele aceitou fornecer os alimentos para os homens nas frentes de trabalho e voltou a perder tudo.

Voltamos para o sítio, para a primeira casa onde o casal havia morado. Mas o espírito aventureiro e, por que não dizer, irresponsável dele resolveu, em 1958, durante a construção de Brasília, ir embora para lá. Teve varíola e sofreu um acidente de carro, no qual quebrou a bacia, um braço e, um dedo da mão oposta. Ficamos seis meses sem notícias, achando que ele estava morto.
Graças a Deus, voltou e começou uma nova saga, que vai ficar para eu contar outra vez.
Pois o importante nesta história é dizer que, com todo o proceder desse homem, ele carregava tanto amor pelos filhos e sobrinhos que, mesmo tendo, principalmente eu e meu irmão mais velho, que “terminar de criá-lo”, nunca deixamos de amá-lo.
Ele partiu em 2011, mas não há um dia em que não nos lembremos dele. Não sei explicar que tipo de amor é esse, mas é maior que qualquer coisa que eu conheça.

Minha mãe? Separou-se dele, mas se tornaram amigos. Ele mudou para o interior e vinha nos visitar de quinze em quinze dias. Mãe arrumava a roupa dele, a sandália e a toalha de banho. Foram meus vizinhos por 23 anos, mas, nos dias em que ele passava em casa, era uma verdadeira festa para todos nós.
Escrevo uma parte dessa história porque o amor superou tudo em nossas vidas. Fomos muito abençoados por ter tido um pai e uma mãe tão diferentes, mas tão amados.
Neste Dia dos Pais, não posso abraçá-lo, mas, se seu pai estiver por perto, abrace-o com toda a força e todo o amor de seu coração.

“Basta uma velha canção para a infância abrir a porta — e, por um instante, pai entrar de novo em casa.”
Curadoria – Gorette Wanderley




