
Por: João Vicente Machado Sobrinho
Na parte anterior que foi publicada em 24/08/2026, discorremos sobre a carta programa de Flavio Bolsonaro e diante das propostas apresentada foi possivel concluir que, há uma indisfarçável intenção de continuidade programática, acenando para para um hipotético governo Bolsonaro II.
Embora não seja uma cópia ipsis liters do ideário econômico de Paulo Guedes, por haver algumas diferenças e elementos novos, não há como disfarçar a intenção velada de uma proposital continuidade. Basta ver a composição da equipe econômica que estruturou e elaborou a Carta Programa.
Daniella Marques esteve diretamente ligada à equipe econômica de Bolsonaro e trabalhou ao lado de Paulo Guedes. Em agosto de 2026, a equipe econômica de Flávio incorporou Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia do governo Bolsonaro, reforçando essa conexão.
Diante disso, falar em “neoliberalismo de volta à cena” não significa afirmar que nada mudou. Significa identificar uma clara retomada de uma matriz de pensamento econômico ultraneoliberal que abalou profundamente o Estado brasileiro.

A presença de Daniella Marques na coordenação econômica merece atenção especial, pois ela não aparece apenas como uma técnica responsável por equilibrar números. Sua trajetória conecta diretamente o mercado financeiro, o governo Bolsonaro, o Ministério da Economia, Paulo Guedes e Caixa Econômica Federal. A Caixa registra oficialmente que Marques presidiu o banco entre julho de 2022 e janeiro de 2023. Sua participação na formulação econômica de Flávio Bolsonaro representa, portanto, uma ponte entre dois momentos políticos.
De um lado, a experiência prática do governo Bolsonaro. De outro, a tentativa de formular uma nova candidatura presidencial capaz de reapresentar parte daquela agenda em 2026.
Existe, porém, uma diferença importante na comunicação. Daniella procura enfatizar que o ajuste não significará necessariamente retirada de proteção social. Em entrevista recente, afirmou que programas sociais seriam preservados e que o ajuste deveria atacar “privilégios, supersalários, penduricalhos e ativos públicos mal administrados. ” Também afirmou que o salário mínimo seria reajustado acima da inflação.

Essa ressalva é eleitoralmente relevante, porém sua credibilidade é bastante questionável. Ela tenta responder uma das principais críticas historicamente dirigidas às políticas de austeridade: a de que o equilíbrio fiscal acaba sendo obtido à custa do agravamento do desequilíbrio de setores socialmente mais fragilizados.
Surge então uma pergunta que não quer calar:
O tamanho da economia obtida com o corte de privilégios e a reorganização de ativos públicos será suficiente para produzir o ajuste prometido?
Esse é um questionamento que até o presente não teve uma resposta concreta. Porém, se analisarmos a execução orçamentaria do ano de 2021, teremos a certeza que “O problema das contas públicas tem nome: O Sistema Financeiro”
O pior é percebermos que, essa sangria desatada do orçamento da União, é destinada ao pagamento anual de juros escorchantes de uma dívida que nunca foi auditada. No ano de 2021, foi consumido 53,92% do Orçamento da União somente com pagamentos de juros. Enquanto isso, à todas as demais despesas essenciais e de custeio, aí incluído o tão propalado rombo da previdência que foi de 19,46%, foi destinado 46,08%

Há ainda um pequeno detalhe a considerar: qualquer contingenciamento orçamentário manteve totalmente intocável a sangria desatada dos juros. Nem um dos demais pagamentos essenciais foi poupado: saúde, educação, moradia, saneamento básico etc.
Para concluir, devemos alertar que o programa econômico de Flávio Bolsonaro, precisa ser analisado com olho clínico e com muita atenção por parte do eleitor.
Ele apresenta nas entrelinhas uma visão de país subordinado e socialmente exclusivo, quando coloca no centro de todas as atenções: a disciplina fiscal; a redução aleatória das despesas; a reorganização administrativa; a diminuição de impostos; (para quem?) a desestatização; a flexibilização e a ampliação do espaço para o setor privado. O programa recupera elementos centrais da agenda econômica ultraliberal subordinada e está dizendo a que virá. Essa foi a marca registrada do governo de Jair Bolsonaro, que teve em Paulo Guedes o seu principal formulador econômico.

A presença de Daniella Marques— figura diretamente associada àquela experiência — reforça essa continuidade. A entrada de outros atores econômicos ligados à antiga equipe, também demonstra que não se trata de uma coincidência isolada. Há algo ainda mais preocupante:
O ajuste fiscal não é uma operação meramente contábil.
Toda vez que um governo decide cortar uma despesa, preservar outra, reduzir um imposto ou vender um patrimônio, ele está fazendo uma escolha sobre o tipo de país que deseja construir. Por isso, a discussão não pode se esgotar simplesmente na surrada “responsabilidade fiscal. ”
Responsabilidade fiscal é necessária sim. Entretanto são necessárias também as responsabilidades: social, produtiva, estruturante e democrática.

Um país não pode quebrar suas contas públicas indefinidamente, mas também não pode transformar a austeridade em um fim em si mesma.
Se o Brasil precisa de equilíbrio fiscal, cabe a pergunta: equilíbrio para quê?
Para reduzir a dívida? Para reduzir os juros? Para diminuir os impostos? Para ampliar os investimentos? Para fortalecer o setor privado? Para reduzir o Estado?
Essa seria uma reforma do velho e obsoleto método liberal capitalista e, a insistência nele é postergar a nossa autonomia e subordinar a nossa soberania. Dúvida? Perguntem à China qual a sua receita parar virar potência em 26 anos com o Estado nacional sob controle!





