Que homens são esses?

Por: Neves Couras

Não é de hoje que ouvimos os mais pavorosos relatos de crianças sendo violentadas. Por muito tempo vimos meninas de 15 anos ou menos sendo casadas com homens muito mais velhos, minhas tias, por exemplo, eram meninas quando se casaram, com idades muito mais apropriadas para debutantes que para noivas, realidade que, infelizmente, ainda existe.

Hoje a legislação afirma que qualquer relação sexual praticada com pessoa com menos de 14 anos é considerada estupro de vulnerável, ainda que se alegue suposto consentimento. Mas o fato é que a lei é só um aspecto dessa questão. Incontáveis são os abusos que passam uma vida sem serem notados e muito menos denunciados.

O que mais dói é saber que na grande maioria dos casos de abuso infantil são as pessoas (e aqui digo “pessoas”, mas todos sabemos que em quase sua totalidade se tratam de homens) próximos da família e da confiança da criança que praticam os atos. São tios, vizinhos, primos, irmãos, pais e avós. Quando não líderes religiosos da comunidade. Outra realidade tão antiga quanto o tempo pois me lembro das irmãs de minha mãe falando que Padre fulano de tal “mexia” com as crianças do catecismo.

Além do número de mulheres vítimas de violência, ainda temos de suportar, em pleno 2026, a dor de uma família que descobre que uma de suas crianças foi estuprada. Não podemos admitir que o monstro capaz de praticar um ato desses possa voltar a viver normalmente em sociedade. Parece que a sociedade evolui em tudo menos nessa “lepra social” em que homens veem mulheres e crianças como objetos a serem postos a seus desejos mais sombrios.

Na página 59 da biografia de Nise da Silveira, encontrei um poema chamado “Improviso de Chopin”, dedicado ao seu pai. Há uma estrofe que me fez pensar nos momentos vividos por uma criança diante de uma atrocidade como essa.

Improviso de Chopin
A meu pai
Do grande piano amplamente aberto, as notas
Jorraram para o alto.
Parecia-me que via as ondas do som
E seguias seus arabescos como o menino
Que olha um papagaio brincar no espaço.
De repente, ficavas estranhamente parado.
Teus olhos se alargavam,
Tuas sobrancelhas se arqueavam
Para deixar tua alma partir.
Eu ficava do lado de cá do muro espesso,
Humilhada,
Contemplando teu corpo imóvel.

Nesse poema vi uma criança, com toda a sua inocência, capaz de dar alma a um papagaio, tendo de ser socorrida por um anjo do céu para que tamanha dor não alcance sua alma. Apenas seu corpo, momentaneamente vazio de alma, à mercê de um monstro.

Precisamos, portanto, urgentemente de leis mais eficazes para proteger nossas crianças e ter a certeza de que elas irão à escola, ao parque ou a qualquer outro lugar livre como um papagaio no céu e voltarão seguras para os nossos braços.

Espero, ainda, que cada pessoa, homem ou mulher, que tenha como papel defender os seres humanos pense em seus próprios filhos quando for publicada a notícia de mais um estupro, seja de uma criança, seja de um adulto. Estamos muito acomodados, e continuaremos assim enquanto acharmos que a desventura só bate na porta alheia.

“Que nossas crianças jamais percam a capacidade de olhar para o céu com a mesma confiança com que abrem um caderno novo: cheias de sonhos, descobertas e esperança.”

Curadoria – Gorette Wanderley

 

 

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