Meus pássaros estão soltos

Por: Mirtzi Lima Ribeiro

As gaiolas sempre foram vistas como confinamento e transporte de animais, especialmente de pássaros e aves poedeiras. É claro que esse termo comporta outras funções, até mesmo com outras estruturas para finalidades diversas. É o caso da técnica para pesca de lagostas, com o manzuá ou covo, que guarda semelhança, assim como as armaduras de fundação e cestos de içamento de materiais utilizados em gruas e guinchos na construção civil.

Entretanto, no imaginário coletivo o nome gaiola estará sempre associado ao ato de aprisionar aqueles belos seres alados. Essa prisão é responsável por seu canto de lamento. Hoje em dia, no entanto, esse artefato pode ser usado como ornamentação, em belos arranjos de flores, folhas ou pequenos vasos, dependurado ou sobre o chão.

De minha parte, sempre quis que meus pássaros estivessem soltos e livres, sem prisão, limite ou barreira. Em toda a minha vida, eu os admirei pelo senso de liberdade, pela beleza da cor de suas penas, pelo formato de seus delicados corpos, pelo canto peculiar de cada espécie e por viverem no ar entre plantas, fios, ventos e árvores. Admiro-os e os tenho como aliados.

Por onde estou, geralmente eles também aparecem para compartilhar comigo da sua liberdade de ir e vir, de sua beleza que se estende de simples à maximalista, de sua presença mágica e graciosa. Eles me anunciam o dia, me trazem mensagens, me informando de momentos felizes a serem experimentados ou de cuidados que deverão ser tomados. O som de seu canto me traz sensações pontuais e elas são uma bússola, um direcionamento e uma comunhão. Adoro quando me anunciam alegrias que estão para chegar.

Não importa se eu estiver na mata ou na selva de pedra, eles estarão lá e me aparecerão do nada. Já me pediram socorro em dificuldades que estavam tendo e eu fui auxiliar, assim como já me deram o grato prazer de vê-los fazer seus ninhos, ou na varanda do apartamento que eu moro ou sobre a minha árvore de Natal ao final do ano.

Na zona rural, próximo ao Parque Estadual Mata do Pau-Ferro (Areia/PB), onde sempre vou e pernoito alguns dias, eles estão lá, todos livres, soltos e saltitantes, alegres e cantantes. São beija-flores, colibris e inúmeras espécies de pássaros e algumas aves de rapina. Amo-os todos.

Sempre que vou ao sítio nessa localidade, levo ração que fica colocada entre as árvores em pequenas poções que eles procuram para comer. Além disso, se alimentam das frutas locais quando elas estão amadurecendo nas plantas, arbustos e árvores frutíferas. Eles alegram meus amanheceres e me inundam de graciosidade.

Esses animais dotados de penas são criaturas adoráveis, angelicais e me trazem alento, tranquilidade, simplicidade e ao mesmo tempo, um especial requinte em seus movimentos cadenciados e leves. Adoro vê-los.

Na localidade do parque mencionado, há um observatório dessas aves e o lugar conta com mais de 200 espécies catalogadas. É um brejo de altitude, com trechos remanescentes da Mata Atlântica, um excelente refúgio para aves que são próprias da floresta úmida e para as espécies que estão em rotas migratórias.

Eu os amo livres e todos os meus passarinhos estão soltos, dos bem-te-vis aos canários, da andorinha ao joão-de-barro, dos beija-flores aos colibris, saíras e sanhaços, gaviões e corujas. Tanto as passaradas quanto os pássaros da minha imaginação voam alto, soberanos, benfazejos e lindos em seu mundo alado. Adoro os pássaros migratórios dos meus pensamentos, que sempre seguem viagem para o inusitado, para o mundo mágico da criação e da percepção.

 

 

“Quem aprende a amar o voo nunca deseja construir gaiolas.”

Curadoria – Gorette Wanderley

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