Menina, e Michelle, hein?

Por: Antônio Henriques Couras

Vocês se lembram do semimorto Tancredo, fingindo que não estava com o pé na cova para Figueiredo não jogar terra por cima da transição?

Hoje temos outro presidente, este já ex, graças a Deus, também com o pé na cova, mas cercado por uma família animadíssima. No lugar da digníssima dona Risoleta, aparece a terceira ou quarta esposa, dona de um passado bastante peculiar, disputando com o filho mais velho, mais velho que ela, aliás, a carcaça ainda morna do futuro defunto e o espólio político que restar.

Em um vídeo publicado no final do mês passado, Michelle apareceu dizendo que havia sido humilhada, apunhalada e tratada como uma recém-chegada que não entendia de política.

Mas não foi vídeo de quem ligou a câmera no auge da raiva e começou a falar. Nada disso. Era longo, organizado, com os fatos em ordem e as mágoas escolhidas uma a uma. Michelle sabia o que estava fazendo. Não estava apenas reclamando de Flávio. Estava avisando, para quem quisesse ouvir, que havia sido afastada das decisões e que não pretendia levar calada a culpa pelo que fizessem sem ela.

Até aí, problema deles. A parte realmente indecente é Michelle descobrir, justamente agora, que não gosta de ser tratada como cidadã de segunda classe.

Logo ela.
A mesma Michelle que passou anos falando em submissão feminina, esposa obediente e mulher que acompanha o marido e conhece o seu lugar. Enquanto era ela no palanque, bonita, sorridente, cercada de outras mulheres e dizendo que submissão não era opressão, estava tudo ótimo.

 

Agora o enteado mandou que ela não se metesse nas decisões dos homens, e ela ficou indignada.
Minha filha, ele só entendeu a pregação.

Michelle queria continuar mobilizando as mulheres, puxando oração, ocupando igrejas, pedindo votos e dando àquela família uma aparência de normalidade. Mas também queria opinar. Aí já foi longe demais. Flávio aparentemente esperava dela o que ela mesma sempre recomendou às outras: ajude, sorria e não atrapalhe quem manda.

A submissão é uma beleza quando é a outra que está submetida.
Isso, claro, não tira o espírito de Flávio da pocilga. Estamos falando de um homem que quer ser presidente do Brasil porque o pai decidiu que o país agora faz parte da herança. Como se a Presidência fosse um apartamento, uma fazenda ou uma vaga na empresa da família.

E não é qualquer filho. É Flávio Bolsonaro. O homem que atravessou o caso das rachadinhas acompanhado de Fabrício Queiroz, movimentações financeiras suspeitas, imóveis comprados em dinheiro vivo e explicações que nunca conseguiam ser tão simples quanto os fatos exigiam.

Pode-se discutir processo, prova anulada, competência do juízo, o diabo. O que não dá é olhar para esse histórico e fingir que estamos diante de um estadista injustiçado, pronto para atender ao chamado da nação.

O pateta “zero um” do clã não está pronto nem para explicar a própria vida sem que alguém precise desenhar uma árvore genealógica, um fluxo bancário e uma linha do tempo. E esse homem agora briga com Michelle para decidir quem fala em nome de Jair Bolsonaro e quem fica com os eleitores dele.

É disso que estamos tratando.
Não é uma disputa ideológica séria. Não é um debate sobre os rumos da direita. Não é sequer uma divergência política entre duas lideranças dignas desse nome. É uma fundamentalista religiosa, que descobriu o feminismo no exato instante em que mandaram que ela calasse a boca, brigando com um herdeiro cercado de suspeitas porque ambos querem ficar com a chave do galpão eleitoral do velho.

Michelle não está lutando pela dignidade das mulheres. Está lutando pela dignidade de Michelle.
Se amanhã Flávio pedir desculpas, devolver a ela uma cadeira na reunião e deixar que indique alguns candidatos, a submissão feminina volta a ser bíblica antes do jantar.

Ela não quer acabar com a estrutura que diminui as mulheres. Quer apenas que façam uma exceção para ela.
E talvez façam, porque Michelle tem algo que Flávio não possui: ela consegue falar com o eleitorado evangélico sem parecer um rapaz que decorou três versículos no carro a caminho do culto.

Ela tem público próprio. Tem mulheres que a escutam, gente que a vê como vítima, esposa dedicada, cristã perseguida. Foi isso que ela quis lembrar no vídeo. Não falou apenas para Flávio. Falou para mostrar que, se a deixarem de fora, pode levar consigo uma parte da plateia.

Flávio ficou com a bênção do pai. Michelle quis mostrar que tem gente.
E Jair Bolsonaro, ainda vivo, acompanha a mulher e o filho mais velho dividirem antecipadamente sua herança política. Um fica com o carimbo, a outra quer os fiéis, e todos juram que fazem isso por Deus, pela pátria e pela família.
Principalmente pela família.
Deles.

 

 

“O poder passa. As escolhas permanecem. É nelas que a história realmente nos julga.”

Curadoria  – Gorette Wanderley

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