É verdade esse bilhete

Por: Antônio Couras

Jair Bolsonaro escreveu uma carta.
Calma, não foi Carta-Testamento, não foi “Carta aos Brasileiros” de Getúlio, não foi sequer um bilhete de aniversário com duas páginas. Foram alguns parágrafos magros, coisa que caberia no verso de uma conta de luz. Mesmo assim, surpreende saber que ele escreve.

Flávio leu. O que também é uma notícia por si só.
A carta dizia que era hora de esquecer as divergências, arregaçar as mangas e apoiar Flávio Bolsonaro, “a melhor opção” para livrar o Brasil da corrupção. Sim, foi isso mesmo. Flávio Bolsonaro libertando o Brasil da corrupção. A essa altura, faltou apenas Fabrício Queiroz surgir atrás dele vestido de Mulher-Maravilha.

Jair também declarou que Flávio era seu pré-candidato e seu porta-voz. Michelle não foi mencionada, mas a carta apareceu depois de ela acusar o enteado de humilhá-la e afastá-la das decisões políticas. Não precisava colocar o nome da destinatária. Até bilhete de criança dizendo “não fui eu que quebrei o vaso” tem alguém específico em mente.

Mas o problema maior não era a qualidade literária do texto, nem a cara de inventário político antecipado. O problema era bem mais simples: Bolsonaro estava expressamente proibido de usar as redes sociais, diretamente ou por intermédio de terceiros. A condição havia sido mantida quando ele recebeu o benefício da prisão domiciliar humanitária.

Não era uma recomendação.
Não era “seria melhor evitar”.
Não era um conselho de relações públicas.
Era ordem judicial.

Flávio saiu da visita dizendo que o pai havia escrito um recado importante “a toda a nossa nação”, marcou hora para a transmissão, leu a carta em suas redes e avisou que ela seria publicada. Quer dizer, não houve sequer aquela preocupação rudimentar de fingir que o papel havia caído misteriosamente pela janela e sido encontrado por um patriota que passava na rua.
Ele contou o que faria antes de fazer.
Depois fez.

E, naturalmente, quando veio a consequência, a família descobriu mais uma vez que estava sendo perseguida.
Alexandre de Moraes suspendeu por 90 dias as visitas de Flávio ao pai. A decisão entendeu que ele havia usado o direito de visita justamente para obter uma mensagem destinada às redes sociais, em desrespeito à proibição expressa. O ministro também lembrou que Flávio já havia participado de episódio semelhante em 2025, quando divulgou nas redes uma participação do pai por telefone e depois apagou a publicação.

É uma família fascinante. Eles não apenas desobedecem. Filmam a desobediência, anunciam o horário, publicam, compartilham e depois perguntam onde está escrito que não podia.
Está escrito na decisão, meu anjo.
Em negrito.

A carta ainda pode ser examinada como possível propaganda eleitoral antecipada, porque não se limitava a uma declaração familiar de apoio. Apresentava Flávio como a melhor opção para salvar o país e foi divulgada pelo próprio pré-candidato nas redes.

Nada disso impede, claro, que já tenha começado o velho chororô sobre os “dois pesos e duas medidas”. Logo aparece alguém perguntando:

“E Lula? Quando Lula estava preso, podia mandar carta!”
Vamos conversar sobre Lula, então.

Lula ficou preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Não estava cumprindo pena na própria casa, cercado pela família e com médico à disposição. Estava numa carceragem. As visitas seguiam regras penitenciárias, políticos tiveram pedidos de entrada negados e a própria Polícia Federal afirmou que seriam aplicados a ele os procedimentos dos demais custodiados, salvo as exceções determinadas pelo juízo.

Lula também não passou a prisão dando entrevista quando bem entendesse. Sua primeira entrevista na cadeia só ocorreu cerca de um ano depois da prisão, após uma longa disputa judicial. Houve decisão autorizando a entrevista, suspensão da autorização e meses de silêncio forçado.

Quando o irmão de Lula morreu, a autorização para comparecer ao velório veio tarde e acompanhada de restrições. Ele só poderia manter contato com parentes e estava proibido de dar declarações públicas. Na prática, não foi ao enterro.

Então convém parar com essa fantasia de que Lula estava instalado num estúdio de podcast dentro da Polícia Federal, governando o PT por carta, entrevista e pombo-correio enquanto os ministros do Supremo lhe serviam café.

Ele estava preso.
E as ordens judiciais impostas a ele também tinham de ser cumpridas.
A diferença é que não havia contra Lula a mesma ordem específica que hoje proíbe Bolsonaro de utilizar redes sociais por intermédio de terceiros.

Correspondência entre presos e familiares é, em princípio, um direito previsto na execução penal. O que Bolsonaro não pode fazer é transformar visita familiar em agência de comunicação política e usar o filho como perfil terceirizado.

Não é a caneta que está proibida. É a divulgação pública destinada a contornar a ordem judicial.
A carta poderia ter ficado na gaveta. Poderia ter sido entregue aos advogados. Poderia ter servido para Flávio guardar de lembrança e mostrar aos netos que o avô algum dia conseguiu juntar sujeito, verbo e predicado.

Mas não. Foi escrita para ser transmitida “a toda a nação”, levada pelo filho, anunciada no Instagram, lida no YouTube e espalhada pelas redes.

Depois dizem que não usaram as redes.
É verdade esse bilete.
Tratar Lula e Bolsonaro conforme as regras de cada processo não é favoritismo. Igualdade perante a lei não significa pegar dois presos em situações jurídicas diferentes e fingir que receberam exatamente as mesmas ordens. Significa exigir de ambos o cumprimento das decisões aplicáveis a cada caso.

Lula estava numa prisão federal e tinha direitos e restrições definidos naquele processo.
Bolsonaro cumpre uma condenação de 27 anos e 3 meses, mas recebeu prisão domiciliar humanitária por razões de saúde. O benefício veio acompanhado de condições expressas, entre elas a proibição de comunicação política pelas redes, inclusive por terceiros.

Seria favoritismo deixar Bolsonaro violar essas condições porque ele é ex-presidente, idoso, doente ou pai de candidato? Cumprir a lei é justamente o contrário.

Aliás, toda essa conversa sobre perseguição ignora um detalhe do tamanho de um elefante: Bolsonaro está cumprindo em casa uma pena cujo regime inicial era fechado. A prisão domiciliar não é um direito automático decorrente do sobrenome ou da idade. Foi uma concessão humanitária, sujeita à fiscalização e ao cumprimento das condições estabelecidas pelo tribunal.

Receber o benefício e imediatamente procurar uma brecha para continuar intervindo na campanha do filho não é resistência democrática. É abuso da concessão.

A família Bolsonaro parece ter uma compreensão muito particular do Estado de Direito. A lei só é legítima quando prende os adversários. Quando alcança um deles, vira ditadura. A decisão judicial vale enquanto não atrapalha. A tornozeleira é humilhação, a proibição é censura, a consequência é perseguição e a própria desobediência nunca aconteceu.

Mesmo quando está em vídeo.
O engraçado é que a carta pretendia mostrar força. Jair apontaria o herdeiro, encerraria a briga entre Flávio e Michelle e demonstraria que, mesmo preso, continuava comandando o espólio político. Conseguiu proibir o filho de visitá-lo durante praticamente toda a campanha. Era uma carta pequena. O estrago, nem tanto.

No fim, Jair escreveu poucas linhas para provar que Flávio era seu porta-voz. Flávio leu as poucas linhas para provar que Jair continuava mandando. E Moraes respondeu lembrando aos dois que preso não escolhe quais partes da decisão pretende cumprir.

Não é tratamento diferente porque um se chama Lula e o outro Bolsonaro.
É só a lei chegando àquela casa e descobrindo, mais uma vez, que ninguém tinha lido o bilhete.

“No fim, o bom humor continua sendo uma das formas mais elegantes de dizer verdades.”

Curadoria -Gorette Wanderley

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