Dai de graça o que de graça recebestes

Por: Neves Couras

Não sei se alguém percebeu, mas passei alguns dias sem o aplicativo do Facebook. Meus filhos começaram a dizer que ninguém mais via minhas publicações e perguntaram para que eu ainda publicava lá. Não sou muito de ficar com o telefone à mão, vendo tudo quanto é publicado. No entanto, antes de sair do aplicativo, parei para observar o que, de fato, estava sendo publicado.

Em um período em que estamos vivendo tantas dificuldades, que atingem quase todos os brasileiros, encontrar uma fonte de milagres que os livre das dívidas, das doenças e da pobreza realmente seria uma oportunidade à qual todos recorreriam.

Achei muito estranha a quantidade de orações produzidas com a utilização da Inteligência Artificial, acompanhadas de imagens de santos, de Jesus Cristo e dos anjos. Algumas publicações, inclusive, utilizavam formas de ameaça, afirmando que quem não permanecesse naquelas páginas teria anos de azar. Quando comecei a vê-las, achei-as interessantes por causa das lindas imagens de Cristo e de Maria Santíssima.

Entretanto, para minha maior surpresa, à medida que fui me aprofundando nos relatos de milagres obtidos por pessoas comuns e também por vários padres, percebi que, embora dissessem que a oração capaz de trazer tantas bênçãos havia sido liberada pelo Santo Padre, algumas delas teriam de ser pagas para que fossem obtidas.
Fiquei revoltada. Que venda de indulgências é essa? Não basta o uso vergonhoso de Inteligência Artificial para gerar imagens, agora ela é a nova agente de cobrança que cobra dos vulneráveis e aflitos?

No Evangelho de Mateus, lemos que Jesus deu aos doze apóstolos autoridade para expulsar os espíritos impuros. Em Mateus 10:8 está escrito: “Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça dai”.

Jesus se referia aos dons que os discípulos receberam para realizar todas essas coisas. Em todas elas, precisamos da permissão do Pai para agirmos. É com base nesse versículo que, nas casas espíritas, não se cobra nenhum tipo de pagamento nem se aceita presente de qualquer pessoa que busque ajuda.

Se foi Deus quem permitiu que o homem tomasse conhecimento de tais orações, elas estariam destinadas somente a alguns eleitos?
Entre todas as pregações de Jesus, não encontrei nenhuma que falasse sobre a busca pela riqueza. Temos o exemplo de São Francisco, que abandonou suas vestes, símbolo da riqueza de seu pai, para seguir Jesus.

Jesus deixou ensinamentos para que o ser humano se tornasse uma pessoa melhor para si mesmo e para os outros.
A fé deveria servir de amparo a quem sofre, e não transformar a dor, o medo e a esperança das pessoas em fonte de lucro. Quando a promessa de uma graça passa a depender de pagamento, deixa-se de anunciar o Evangelho para comercializar a aflição humana. Por isso, é preciso atenção, discernimento e coragem para denunciar toda tentativa de vender aquilo que, segundo o próprio Cristo, foi recebido gratuitamente e gratuitamente deve ser oferecido.

 

“A verdadeira graça nunca esteve à venda. Ela sempre habitou o coração de quem aprende a amar e servir.”

Curadoria – Gorette Wanderley

 

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