
Por:Rui Leitão
A estratégia de campanha montada pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro, do PL, tem demonstrado uma característica recorrente: a capacidade de produzir crises dentro da própria campanha. A cada dia surge uma atitude, uma declaração ou a repercussão de algum episódio anterior que o coloca diante de dificuldades crescentes em seu propósito de disputar a Presidência da República.
E não adianta seus apoiadores afirmarem que essas são apenas observações de quem está no campo contrário. O problema é que o próprio candidato acaba desperdiçando tempo e energia tentando explicar episódios que prejudicam seu discurso, quando deveria estar mais preocupado em debater os temas que verdadeiramente interessam à sociedade brasileira e apresentar propostas concretas para o país.
A mais recente crise surgiu a partir de seus comentários sobre a segurança das urnas eletrônicas utilizadas nas eleições brasileiras, durante o evento “Debatendo o Brasil”, realizado com a participação de representantes de mais de 40 países e organizações internacionais. Ao questionar a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro, Flávio Bolsonaro fez referência às eleições na Venezuela e à empresa Smartmatic, que já foi alvo de acusações e críticas de Donald Trump.

“Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma empresa”, declarou o senador, estabelecendo uma relação entre os equipamentos utilizados no Brasil e a empresa mencionada.
A declaração provocou repercussão e foi contestada pelo Tribunal Superior Eleitoral, que esclareceu que a empresa citada não fornece urnas eletrônicas nem softwares utilizados nas eleições brasileiras.
Diante da repercussão negativa, a campanha do senador divulgou uma nota afirmando que o pré-candidato não havia colocado em dúvida o sistema brasileiro de votação. O episódio, porém, reabre uma discussão que remete ao comportamento político de seu pai. Quando percebe os efeitos negativos de determinadas declarações, a estratégia parece ser procurar reinterpretá-las ou minimizar seu significado, numa tentativa de conter os danos políticos provocados.
O episódio também inevitavelmente remete ao dia 18 de julho de 2022, quando Jair Bolsonaro, então presidente da República e candidato à reeleição, reuniu diplomatas estrangeiros no Palácio da Alvorada e fez ataques, sem apresentar provas, à segurança e à confiabilidade das urnas eletrônicas. O episódio esteve na origem de uma ação julgada pelo TSE, que, por maioria de votos, declarou sua inelegibilidade por oito anos, reconhecendo abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.

Agora, ao retomar questionamentos sobre o sistema eleitoral brasileiro, Flávio Bolsonaro parece reabrir uma ferida que marcou profundamente a trajetória política de seu pai. A repetição desse discurso pode dar a entender que sua campanha começa a construir, antecipadamente, uma narrativa de desconfiança em relação ao processo eleitoral, especialmente diante da possibilidade de uma eventual derrota nas urnas.
Questionar a segurança do sistema eleitoral sem apresentar evidências concretas não é apenas uma estratégia de campanha; pode contribuir para alimentar a desconfiança da sociedade em relação às instituições democráticas. E, quando esse discurso parte de um candidato à Presidência da República, a responsabilidade é ainda maior.
Ao insistir em colocar sob suspeita o processo eleitoral brasileiro, o candidato corre o risco de reproduzir uma estratégia política já conhecida: a construção antecipada de uma narrativa de fraude para justificar uma eventual derrota. Foi esse tipo de postura que marcou o comportamento de Jair Bolsonaro após as eleições de 2022 e que, anteriormente, já havia provocado graves conflitos institucionais.

A questão que fica, portanto, é inevitável: Flávio Bolsonaro pretende apresentar ao país um projeto próprio de governo ou seguirá reproduzindo a mesma cartilha política que marcou a trajetória de seu pai?
A democracia brasileira não precisa de candidatos que lancem dúvidas sobre as urnas sem apresentar provas. Precisa, acima de tudo, de propostas, compromissos e respeito às regras do jogo democrático. Afinal, quem se apresenta para governar o país deve estar preparado não apenas para vencer, mas também para reconhecer legitimamente o resultado das urnas.

“A democracia não se fortalece quando todos pensam igual. Ela se fortalece quando todos aceitam que a vontade das urnas deve prevalecer sobre a vontade individual.”
Curadoria – Gorette Wanderley




