
Por: Mirtzi Lima Ribeiro
Para onde voltamos a nossa atenção, há apelos para que a jovialidade e juventude na aparência seja perpetuada, que vejamos rostos plastificados, sem rugas, lábios grossos, parecendo inflados.
Atualmente temos uma indústria arrojada direcionada ao rejuvenescimento, com divulgação excessiva a promover procedimentos e produtos nessa área, e, um crescente apelo à realização de harmonização facial de diversos tipos. É um mercado milionário, que cresceu no Brasil cerca de 567% entre os anos de 2014 a 2019 e almeja alcançar um faturamento de mais de 41 bilhões de dólares até o ano de 2028, segundo o portal Poder360 (jornal digital do Brasil que cobre política, economia e notícias gerais).
Nesse enfoque está implícito não apenas o etarismo, mas, a não aceitação à idade que avança, especialmente, quando se trata de quem já alcançou o patamar dos 50, 60, 70 ou mais anos de idade.

Em décadas passadas, entre o final do século XX e início do século XXI, houve publicidade massiva que afirmava a juventude como ícone, a apoteose da vida, a esperança capaz de alavancar o mundo. Aqui no Brasil, ser jovem era motivo de orgulho e de que tudo nos seria entregue porque o mudaríamos e teríamos mais capacidade para conduzir os rumos da nação. Entretanto, não foi isso que aconteceu.
Aquela juventude que estava no ápice nos anos 70 e 80, hoje caminha para a idade considerada idosa. Os prognósticos é de que a população com mais de 60 anos entre os anos de 2012 e 2024, cresceu 53,3%, alcançando mais de 34 milhões de pessoas aqui em nosso país, devendo duplicar esse número até meados do ano 2050. Segundo pontuou o portal do Senado, houve uma queda na fecundidade e ao mesmo tempo um aumento da expectativa de vida (em 2023 passou a ser de 76,4 anos de idade), quando o Brasil enfrenta desafios de saúde, previdência e acessibilidade.
Por sua vez, a cultura ocidental não amadureceu o suficiente a ponto de valorizar seus idosos, as suas capacidades, a expertise adquirida, sua sabedoria acumulada, sua possibilidade de ser exemplo para as novas gerações, além do charme e da energia que ainda é possível ter com muitas décadas de vida. Atualmente, idade precisa ser mascarada porque a partir de certo patamar, a pessoa não terá o respeito que deveria receber (etarismo).

Uma sociedade não se mantém saudável quando desvaloriza a experiência, a maturidade e a beleza nas várias fases que a vida humana tem a oferecer, inclusive o encanto próprio daqueles que estão com mais de 50 anos de idade. Em culturas de valor, a pessoa madura é resguardada, admirada, ouvida, tida como exemplo a ser seguido e suas realizações são lembradas como feitos louváveis.
Aqui no ocidente, nossos ícones idosos caem no esquecimento, não apenas pela sociedade, mas muitas vezes pelas próprias famílias. É necessário reavaliar essa situação, inclusive, é preponderante levantar essa problemática, exatamente para que se adotem políticas públicas e campanhas que tenham por objetivo resgatar a dignidade da população que envelhece. Todos precisam ser validados nas diversas fases de vida, não apenas pelas leis do país, mas, essencialmente, pela cultura adotada enquanto população.
Talvez por essa cultura de desvalorização da pessoa idosa, haja vários produtos e serviços ofertados no mercado com vistas a ocultar as marcas da idade. Quer seja através de milhares de aplicativos para filtro de imagens ou de procedimentos no corpo e no rosto, incluindo cirurgias que objetivam trazer a aparência de uma fisionomia muito mais jovem. Pululam propagandas e apelos midiáticos com vistas a finalidade de mover as pessoas a que tenham uma imagem sem rugas e sem as marcas do tempo na pele e nas feições. Querem restaurar a jovialidade no corpo, no rosto e em fotos, de modo que as pessoas se sintam com aspecto primaveril.

Seria ideal que chegássemos saudáveis aos nossos 100 anos de idade com a mente ativa e produtiva, corpo erguido e andando bem através de pernas e pés, sem dores, com uma vida de qualidade para essa seleta faixa etária. Porém, não necessariamente com procedimentos estéticos e cirúrgicos para esse objetivo, e sim, com alimentação adequada, saúde controlada e acompanhada, exercícios voltados para cada necessidade, acessibilidade, amizades e convívio social de qualidade.
Para tal, precisaríamos não de artifícios invasivos como são esses procedimentos faciais propagados na atualidade, mas pela existência de políticas públicas direcionadas à saúde integral, à alimentação com qualidade nutricional, aos exercícios físicos adequados à cada faixa etária, ao fomento do sono de qualidade e à uma vida sem tanto estresse.

Além disso, poderíamos ter ruas e calçadas padronizadas de modo a trazer segurança ao caminhar de todos, com acessibilidade, sem os riscos atualmente existentes. A população idosa tende a ficar confinada em casa, já que seu ir e vir nas redondezas de suas residências não oferece segurança pelo chão irregular e para evitar assaltos e roubos que podem lhe custar a vida.
A propaganda teria que ser no sentido e no fomento desses quesitos, para uma vida saudável na alimentação, em exercícios físicos compatíveis e em segurança no ir e vir dos cidadãos idosos, inclusive ofertados àqueles que não possuem recursos financeiros para pagar essas atividades.
No Município de João Pessoa, especialmente na região metropolitana, tem-se um projeto que vem funcionando em praças públicas que foram organizadas para caminhadas e com aparelhos de exercício ao ar livre, com instrutores qualificados e servidores da prefeitura, que logo cedo pela manhã por volta das 6h, estão a postos para auxiliar aos que vão se exercitar nesses locais, principalmente idosos, homens e mulheres. Tal programa pode ser melhorado e ampliado, além de copiado em outras localidades.

É preponderante ter acessibilidade porque idosos são mais lentos e requerem cuidados para que não caiam e não quebrem ossos em acidentes. Espera-se que o idoso de modo geral possa ser respeitado e considerado.
Para que um objetivo desse tipo ocorra dentro dos próximos 40 ou 50 anos, é fundamental que essa bandeira seja levantada agora, nesse momento em que a população brasileira começa a aumentar seu contingente de idosos. Fica aqui essa ideia e esse apelo. Vamos abraçar essa proposta?
♦ As imagens que acompanham este texto são composições visuais de caráter ilustrativo.




